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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

— Mais alto! reclamou, da mesa pequena, o Cordeiro, com um grito. Não chega até cá. Queremos ouvir o recitativo!...

E, como Raimundo conseguisse fazer calar o Freitas, aquele levantou-se arrebatadamente e pôs-se a estropiar uma chula: “Carolina que horas são estas?...

Nove horas no bronze da torre!”

— Cante antes o “Não quero que ninguém me prenda!” aconselhou Eufrasinha, com uma risada.

— Gentes! disseram outras moças, admiradas do desembaraço da viúva.

Cordeiro obedeceu, e, trepando na cadeira, tomou uma garrafa pelo gargalo, ergueu-a e, berrou o que então representava na província o hino dos borrachos:

“Eu não quero que ninguém de prenda;

Aihée!

Debaixo do meu pifão!

Quando fores de noite à nua,

Aihée!

Leva cheio o garrafão!

Seu soldado não me prenda,

Não me leve pro quartel

Eu não vim fazer barulho,

Vim buscar minha mulher!

Aihée!

Debaixo do meu pifão!

Quando fores de noite à rua,

Aihée!

Leva cheio o garrafão!

A pouco e pouco, iam todos. menos o Dias, acompanhando em coro o terrível “Aihée!” e batendo. até algumas senhoras, com a faca nos pratos. Daí a nada, era uma algazarra em que ninguém já se entendia.

A confusão tomou-se, afinal completa faziam-se brindes de braço entrançado, bebia-se de copos trocados; misturavam-se vinhos soltavam-se gargalhadas estrepitosas; cruzavam-se projéteis de miolo de pão quebravam-se copos e, dentro de todo esse tumulto, destacava-se a voz rouca do Casusa, que insista no seu brinde ao Serra, a quem agora chamava berrando: “Poeta do Comércio! Colosso de negócios!”

As senhoras tinham-se já levantado dos lugares e palitavam os dentes encostadas às competentes cadeiras, meio entorpecidas na reflexão do estômago. A noite fechava-se Maria Bárbara afastara-se para dar providencias sobre a luz Ouvia-se uma voz a discutir gramática com o Faísca: Cordeiro. que se calara. afinal, caíra em prostração, derreado na cadeira e com as pernas estendidas em cima da que Amânia deixara vazia Entretanto, o Freitas, sempre teso, sem alteração alguma na sua roupa de brim engomado, pediu “vênia” para erguer um modesto brinde...

Limpou a superfície dos lábios com o guardanapo dobrado, que pousou depois vagarosamente sobre a mesa; passou a enorme unha do seu dedo mínimo no desfibrado bigode, e, fitando uma compoteira de doce de pacovas — erguida a mão direita, na atitude de quem mostra uma pitada — declamou com ênfase:

— Meus ilustres senhores e respeitabilíssimas senhoras!...

Houve uma pausa.

Não poderíamos, pela ventura. terminar satisfatoriamente esta, tão pequena quão antiga e tradicional festa de família, sem brincarmos uma pessoa respeitável e digna de toda a consideração e. respeito! Por isso... eu! eu, senhores, o mais insignificante, mais insuficiente de todos nós! ...

— Não apoiado! Não apoiado!

— Apoiado! dizia o Cordeiro com os olhos, vidrados.

— Sim! eu, cuja voz não foi bafejada pelo dom sagrado de eloqüência! Eu, que não possuo a palavra divina dos Cícero, dos Demóstenes, dos Mirabeau, dos José Estevão. etcetera, etcetera! eu, meus senhores! vou brindar... a quem?!.

E desenrolou um repertório interminável de fórmulas misteriosas apropriadas à situação, exclamando no fim, cheio de sibilos:

— Inútil é dizer o nome!

Todos perguntavam entre si com quem seria o brinde. Houve teimas, fizeram-se apostas.

— Mais do que inútil é dizer o nome, prosseguiu o discursador, saboreando o efeito da sua impenetrável alusão, mais do que inútil é dizer o nome! porquanto já sabeis de sobre que falo com referência a Excelentíssima Srª Dona... (nova pausa! Maria Bárbara Mendonça de Melo!...

Fez-se uma balbúrdia de exclamações.

— D. Maria Bárbara! D. Mana Bárbara! gritavam muitas vozes.

E todos se voltavam para o interior da casa

— Minha sogra!

— Minha sogra!

— D. Babu!

— D. Maria Bárbara!

Ela apareceu afinal, trazendo na mão um candeeiro aceso.

— Cá estou! cá estou!

E, toda desfeita em risos, pôs o candeeiro sobre a mesa e bebeu do primeiro copo que lhe levaram à boca.

Seguiu-se um formidável “hup! hup! hurra!” E a música atacou o Hino

Brasileiro.

— O nosso hino! disse misteriosamente o Freitas a Raimundo tocando-lhe no ombro. Um dos mais lindos que conheço!...

— Chit! Com os diabos! resmungou o Dias, empalidecendo e levando as mãos à cabeça.

— Que é? que é?

Voltavam-se todos para ele.

— Nada... nada... disfarçou sem despregar mais os lábios.

É que só agora, à vista da luz, se lembrara de não haver apagado a vela do quarto de Maria Bárbara.

Serviu-se o café vieram os licores, o conhaque e a cana-capim.

O Dias sentia-se cada vez mais preocupado Ora que ferro!

Esquecer-se de soprar aquela maldita vela!... Que diabo! podia haver um incêndio e lá ir tudo pelos ares!...

(continua...)

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