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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Ele também vinha mais forte e bem disposto. Notei, no seu primeiro olhar trocado comigo, depois que cobriu de beijos sôfregos as faces, as mãozinhas e os pezinhos de seu filho, que Leandro me não guardava rancor, e estive quase a acreditar que ele já tivesse afinal chegado a compreender-me. Mas percebi logo o meu engano: ainda era muito cedo para tanto. Um homem vulgar não compreende assim tão facilmente as complicadas delicadezas de um coração de mãe.

César, esse é que me compreendia bem e tomava parte direta nas minhas alegrias e nas minhas vitórias. Com que ar de satisfação acompanhou o meu bom amigo, essa tarde, a reentrada de meu genro em casa da mulher, e com que sinceridade de contentamento se tornaram a ver!

O nosso jantar foi uma festa. Houve brindes, dirigidos quase todos ao pequerrucho, que compareceu à mesa nos braços da ama, e que, valha a verdade, se portou muito incorretamente. Ainda não vi criança para berrar tão forte, nem para ensopar cueiros daquele modo!

À noite vieram visitas; tocou-se, cantou-se e dançou-se. Atentando para uma das amigas de Palmira, acompanhada à nossa casa pelo marido, a qual também, havia poucos meses antes, tivera o seu primeiro filho, não me pude eximir de comparar esse casal com o meu casal, e reconhecer quão diferente era nos dois pares o modo por que se mantinha e conduzia cada um de per si. No entanto, o casamento daqueles era sem dúvida muito mais recente que o de Leandro com minha filha.

Não me contive e disse ao ouvido desta:

— Olha! ali tens uma infeliz, cujo parto foi com certeza fiscalizado de perto pelo marido. Vê como os dois nunca se aproximam francamente um do outro, e repara como só conversam quando há uma terceira pessoa que forneça o assunto. — Estão separados pelo filho!...

E, porque Palmira fizesse um vivo gesto de surpresa com esta última frase, acrescentei em segredo, para bem lhe explicar minha sentença: — O filho, desde que o pai assista ao seu nascimento, é um traço de união moral, um laço de amizade, que se estabelece entre os dois indivíduos donde ele nasce, mas é ao mesmo tempo uma fria linha isoladora, que se cava para sempre entre o corpo de um homem e o corpo de uma mulher, que sensualmente até aí se amavam e se queriam.

Ela teve para mim um sorriso inteligente, em que lhe veio ao rosto toda a sua gratidão pelos meus desvelos, e o seu sorriso desabotoou-se num beijo que recebi na face. Quis detê-la ainda um instante, Leandro, porém, acercou-se de nós, com o seu ar de namorado feliz, passou-lhe o braço na cintura, e os dois afastaram-se, rindo e conversando intimamente.

Sentia-me um pouco fatigada. As canseiras daqueles últimos tempos deixaram-me abatida. Doíam-me as costas e o peito. Levantei-me com intenção de ir lá dentro tomar um copo de leite quente com uma gota de conhaque, quando um fato, em extremo desagradável, veio interromper a nossa festa: Acabava de chegar da casa do Dr. César um recado exigindo que ele seguisse imediatamente para lá, porque a irmã, que nesse dia se mostrara aliás muito melhor, fora, ao cair da noite, acometida por uma terrível hemoptise e parecia agora em perigo de vida.

O bom homem não esperou segunda ordem para tomar às pressas o sobretudo, o chapéu e a bengala. Corri a ter com ele e pedi-lhe, enquanto agitado me apertava a mão, que, se o caso fosse com efeito grave, me mandasse prevenir logo ao chegar à casa.

Infelizmente era. O mesmo cocheiro do nosso carro, em que fora o Dr. César, voltou com a notícia de que D. Etelvina agonizava. Entreguei logo a casa a meus filhos, agasalhei-me, tomei o meu livro de orações, despedi-me das visitas, e segui por minha vez, mandando puxar bem pelos cavalos.

César morava na praia do Flamengo. Quando cheguei lá, a pobre senhora expirava nos braços do irmão. Muito magra, muito descorada, com os olhos imóveis e sem fito, a boca ressequida babando sangue, o nariz laminoso e com um brilho sinistro, ela era apenas uma fugitiva sombra humana, que se exinania em soluços de morte.

Havia algumas pessoas presentes, mulheres e homens. Ajoelhei-me ao lado da cabeceira da cama, abri o meu livro de orações e pus-me a rezar em silêncio. A moribunda já não dava acordo do que se passava em torno do seu aniquilamento. Um colega de César, que com este lhe acompanhara a moléstia, sacudia os ombros desanimado, pronto já para sair.

E ali, dentro daquele quarto, defronte dos nossos olhos, uma vida apagou-se, deixando vazia e fria a quebradiça lâmpada de argila. Ninguém dava palavra, e todos, em volta, contemplavam o cadáver, como se a força de fitá-lo, procurassem compreender alguma coisa daquele fato tão comum e sempre tão extraordinário e tão comovedor.

(continua...)

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