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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

O comendador Manuel Furtado Ribeiro, só por muito amor à filha, e só por muito respeito às recomendações do Dr. Roberto, é que podia consentir naquela mudança para a Avenida Estrela. O bom velho, que havia feito excelente pecúlio no alto comércio donde se achava agora retirado, tinha as suas basófias e gostava de aparecer e luzir; folgava em ver cintilar ao gás das suas salas as comendas de alguns ministros e as calvas de alguns senadores; lisonjeava-se muito com a amizade do Bom Retiro, com a intimidade de Otaviano Rosa e de outros graúdos do tempo que sempre o distinguiram. Era conservador às direitas; tinha muito respeito e muita veneração pelo seu Imperador, e nos dias de grande gala mandava iluminar o frontispício da casa. Não poderia por conseguinte consentir de cara alegre naquele novo capricho da filha.

— Meter-se na Avenida Estrela!... dizia ele consigo, furioso por não poder destruir semelhante idéia. Onde se viram caprichos de tal ordem?!...

Já por ocasião do casamento de Olímpia, o comendador sofrera um grande choque no seu amor-próprio: sonhara para a filha um partido muito mais brilhante e muito mais honroso do que o caixa do Paulo Cordeiro; tanto assim que, na primeira desavença do casal, disse francamente, que o genro afinal não passava de um "Caixa-de-rapé".

O marido de Olímpia nunca perdoou ao sogro semelhante qualificação e, se até aí não morria de amores por ele, de então em diante quase que o não podia suportar. Verdade é que esse casamento nunca se teria realizado, se não fosse já nesse tempo andar o velho perseguido pela necessidade de casar a filha.

O fato porém é que o comendador Ferreira se mudou com Olímpia para a Avenida Estrela.

O pobre homem, quando entrou na antiga chácara, bem mostrava pelo rosto o sacrifício que ia a fazer; só aquela caprichosa seria capaz de constrangê-lo a tanto! Foi com o coração oprimido e com o semblante fechado que ele transpôs a sala do hotel. As velhas paredes, os móveis decrépitos, o trêmulo assoalho, a melancólica aparência de tudo aquilo, lhe enchiam o coração de uma tristeza dura, de um mal-estar grosseiro e doloroso. Tudo aquilo lhe falava em desconforto, em falta de recursos, em digestões mal feitas e em noites mal dormidas.

O comendador, como todo o homem que logrou posição à custa dos próprios esforços, ligava extraordinária importância às suas comodidades. Queria a sua boa cama, o seu bom prato, o seu banho fácil e pronto e a sua liberdade plena em certas ocasiões. Não compreendia a existência sem robe-dechambre, sem chinelas, sem a bela preguiçosa depois da refeição, o palito ao canto da boca e os olhos amortecidos pela digestão tranqüila do jantar. Além disso (para que negar?), gostava que lhe admirassem a casa; que lhe falassem das plantas, dos gansos que ele tinha no tanque do jardim; que lhe elogiassem a mobília das salas; que lhe perguntassem qual era o posto de seu pai, cujo retrato lá estava no salão, fardado, dentro da custosa moldura cor-de-ouro. Todas estas nonadas lhe davam muito gozo e lhe faziam amar a vida.

Mas o médico lhe recomendara que não contrariasse a enferma!... que diabo havia ele de fazer?... E que não seria capaz de sacrificar por aquela filha?... Ele a estremecia tanto!... De todas as suas afeições, Olímpia era tudo o que lhe restava. À proporção que elas se foram extinguindo, a rapariga ia herdando de cada uma dose de ternura que lhe dava o comendador; de sorte que, ao desaparecer a última> Olímpia ficou senhora do coração inteiro de seu pai. Ela, só, representava todos aqueles a quem o bom homem amara durante a sua longa vida.

O comendador fora casado duas vezes. A primeira mulher, justamente a que ele mais estimara, ou, talvez, a única que ele amou, dera-lhe ainda um outro filho, que nasceu pouco depois de Olímpia; a segunda mimoseou-o com duas raparigas gêmeas. Mas tudo isso morreu; tudo isso desertou; aquele aos treze anos e estas duas antes dos cinco. Só Olímpia resistiu e se conservou fiel ao infeliz patriarca. Não admira, pois, que ele a amasse com tanto extremo. E esse belo amor de pai, fazia com que a gente não desse grande atenção a algum ridiculozinho, que porventura turvasse o tipo simpático do comendador.

Quanto lhe não seria penoso por conseguinte habitar a Avenida Estrela, para que o pobre velho ainda se não tivesse habituado a semelhante idéia e ainda se não mostrasse de todo resignado. Definitivamente era enorme o sacrifício! A filha nunca lhe tinha exigido até ali tão grande provação.

E o comendador, pensando assim, deixava-se entristecer. O Papá Falconnet, entretanto, mal o pilhou desacompanhado da filha, correu ao seu encontro e principiou a falar-lhe minuciosamente da casa:

— V. Exa. aqui ficará melhor do que em parte alguma!... afirmava este convicto. Não me fica bem dizê-lo, mas juro-lhe que escolho do melhor para servir meus hóspedes!

E, desfazendo-se em cortesias, obrigava o comendador a acompanhá-lo.

(continua...)

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