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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

E profetizou, o toleirão?. que, dentro de vinte anos Petrópolis deixaria de existir ou transformar-se-ia, completamente, numa dessas muitas cidadelas do prazer e do vício como Mônaco ou Monte Cano, alimentadas pelo jogo, pagando o "barato" ao governo e servindo exclusivamente aos libertinos do bom tom.

Entretanto, todo esse conjunto de coisas, que, observadas a olhos nus, repugnavam ao paladar simples do burguês, apareciam a Filomena radiantes e encantadoras, vistas através do prisma fantástico de sua imaginação.

Para Filomena, Petrópolis continuava a ser o "tépido retiro das almas delicadas, a fina corte do espírito e da elegância". Uma espécie de ninho artístico, feito de ramos e folhas naturais, porém borrifado de leve com algumas gotas de ylang-ylang.

Os mesmos elementos, que levantavam a antipatia do marido, para ela serviam de bom pasto aos seus gostos e caprichos. O prestigio do monarca, por exemplo, longe de lhe ser desafeiçoado, constituía um dos pontos que mais a interessavam. E, se nisto havia ainda qualquer coisa a desejar, era justamente não ser mais completo, mais cavalheiresco, mas ao sabor da Idade média.

Queria D. Pedro no seu castelo feudal, mais moço e mais bonito, amando os combates encarniçados e as mulheres formosas; devoto e libertino a um tempo; supersticioso e malvado; indomável e forte defronte dos esquadrões inimigos, suplicante e humilde aos pés de uma dama fraca e delicada.

Não o desejava de casaca e chapéu alto, porém, de gorro emplumado e gibão de veludo, todo ele resplandecente de ouro nas suas bordaduras preciosas. Preferia-o de longos cabe-los da cor do sol, a barba dividida ao meio do queixo, o nariz firme e audacioso, como o dos antigos heróis da Grécia.

A gorda figura do Imperador, com o seu abdômen saliente, as suas pernas finas, a testa abaulada, os olhos vulgares, causavam-lhe um desgosto profundo. Não lhe podia perdoar aquele aspecto de bom velho, aquele ar pacato, aquela proverbial honestidade, aquela expressão moleirona de homem linfático e túrgido pela vida sedentária. A voz branda e fanhosa, o ar giboso de Sua Majestade avultavam no espirito de Filomena como o mais grave atentado que se pudesse opor às magnificências da coroa.

— Não é um rei! dizia ela consigo, cheia de indignação.

— Não é um rei, é um pai de família, um fazendeiro rico, um tipo comum!...

Mas para que se afligir com essas pequenas misérias do mundo, se ali estava a sua bela imaginação, pronta sempre a torcer e dissimular os fatos que a realidade lhe grupava brutalmente em torno da existência?!

E, com o auxílio dessa fiel companheira, tudo se lhe afigurou entretecido de ouro e azul. Petrópolis converteu-se defronte de seus olhos nos domínios de um belo infante apaixonado, que vivia a bater nas suas terras o javali bravio.

E Filomena, soltando as rédeas de sua indomável fantasia, transpunha-se aos tempos medievos e sonhava as clássicas manhãs de caça, em que os reis, cercados de uma corte luzidia e fugace, partiam galhardamente para o campo, ao agreste som de retorcidas trompas de metal.

E formosas damas, pálidas na vertigem do galope, deslizavam nos seus palafréns cobertos de pedrarias, o amazona desfraldado aos ventos. E fidalgos poderosos, e pajens, lindos como arcanjos, e donzéis de falcão ao dedo, e ligeiros batedores, e nuvens ululantes de cães que se precipitavam em matilhas; tudo, tudo perpassava vertiginosamente defronte de seus olhos, num rebrilhar fantasmagórico de opulências.

Por isso, ao entardecer dos dias quentes, quando as cigarras estridulam nas matas e a natureza se recolhe na concentração mística e voluptuosa da sesta, Filomena furtava-se de todas as vistas e saía a bordejar silenciosamente os largos misteriosos da cidade ou a deixar-se perder pela alfombra embalsamada dos caminhos de bambus.

Em um desses passeios, encontrou-se com o monarca. Ele caminhava em direção contrária à dela, inteiramente desacompanhado.

Viu-a, fitou-a rapidamente, fez-lhe um gracioso cumprimento, e lá se foi por diante, muito sombrio, com a cabeça enterrada nos ombros, as mãos cruzadas atrás, os olhos presos na terra.

Filomena havia parado e ficou alguns instantes a contemplá-lo. Depois fez um gesto de impaciência com a boca, sacudiu as espáduas e continuou o seu passeio.

CAPÍTULO XX

VOLTA-SE A DANÇA

Naturalmente, o monarca falou a alguém do seu ligeiro encontro com a afilhada, porque esta, se até então conseguira em Petrópolis furtar-se um pouco ao burburinho das salas, daí em diante não foi mais senhora de si.

Viu-se logo cercada de manifestações, querida, reclamada a todos os instantes, servindo de alvo a todas as atenções, discutida, invejada, luzindo e ofuscando com a sua beleza, com os seus gostos, com o seu espírito e com o seu nome, que se impunha aos ouvidos de toda gente, alta ou baixa, como o título de uma canção popular.

(continua...)

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