Por Visconde de Taunay (1872)
—Quisera que saíssemos. O que lhe vou dizer... ninguém pode... ninguém deve ouvir.
—Oh! O senhor me assusta... Então tem segredos que me contar?
—Tenho...
—Pois vá lá... Mapiaremos fora... Ao meio-dia esteja na minha roga... sabe onde é?
—Sei...
— Espere-me num pau de peroba seco que está derrubado. —Lá estarei.
Muito antes da hora aprazada, achava-se Cirino no lugar indicado.
Devorava-o a impaciência.
Resolvido a desvendar sem rebuço os seus amores a esse homem a quem mui conhecia, que por ele não tinha senão razões de passageira simpatia, e de quem, contudo, estava dependente sua felicidade, considerava decisivos os momentos.
Quem em tais circunstâncias se acha, enxerga em tudo quanto o rodela sintomas de bom ou mau agouro, e nesse instante a Cirino pouco parecia sorrir a natureza.
Não chovia; mas o tempo estava carregado e sombrio.
Tinha o céu cor acinzentada e do lado do poente linhas negras e continuas denunciavam trovoada talvez para a tarde.
Era o local, além disso, tristonho. Enfileiravam-se numa grande área, pés de milho já pendoados, dentre os quais surgiam possantes madeiros de tronco rugoso e galhada completamente despida de ramagem, uns, da base à extrema ponta, lugubremente enegrecidos pelo fogo lançado antes da sementeira; outros perdidas todas as folhas em conseqüência da incisão profunda e circular com que o machado impedira a ascensão da selva. Esses quedavam vivos mas de uma vida latente e esmorecida, denunciada por entanguidos brotos no mais alto do tope.
Quando o dia é claro, aqueles gigantes da floresta, que pela robustez do cerne haviam desafiado as chamas e os esforços do homem, servem de poleiro a inúmeros bandos de papagaios, periquitos, araçaris, ou de graúnas que formam concertos capazes de ensurdecer os ecos.
Naquela ocasião, porém, tudo era silêncio.
Só de vez em quando se ouviam pancadas surdas e intermitentes dos pica-paus de crista vermelha, agarrados aos troncos das árvores e a explorar-lhes os pontos carunchosos, subindo em ziguezagues.
A hora ajustada, apresentou-se Antônio Cesário.
Por cautela vinha armado de uma espingarda de caça, que bem serviria para derrubar alguma onça, ou animal daninho.
Seu rosto, habitualmente sereno, indicava certa inquietação, repassada de curiosidade.
—Aqui me tem, doutor, disse ele descansando a arma sobre o pau derrubado e sentando-se ao lado de Cirino. Estou pronto para ouvi-lo quanto tempo queira...
Muito pensara Cirino nesse momento a que devia chegar e, entretanto, não pudera achar o modo por que encetasse as suas declarações. Parafusara de continuo mil pretextos sem nada assentar
Foi, pois, a balbuciar que respondeu:
—0 Senhor.. há de me desculpar... o incômodo que... lhe dou. .
—Incomodo nenhum.
—E deve estar... espantado do que lhe pedi... vir falar comigo... em lugar ermo... comigo que sou como qualquer hospede. como tantos que sua casa tão franca todos os dias recebe
—Com efeito, confirmou Cesário.
—Pois bem, daqui a nada tudo lhe ficará claro e explicado . Se enquanto eu falar... o ofender, perdoe-me, ouviu?
Senhor Cesário, continuou Cirino após breve pausa, se o senhor visse um homem arrastado numa corredeira e pudesse atirar-lhe uma corda e salvá-lo... o faria?
—Boa dúvida, replicou o outro com forca. Ainda que corra perigo de vida, não deixarei homem nenhum, branco ou preto, livre ou escravo, rico ou pobre, conhecido ou não, sem o socorro de meu braço.
—Pois bem, exclamou Cirino arrebatadamente, sou eu esse homem que vai morrer, que está perdido e a quem o senhor pode salvar...
E respondendo à tácita suspeita de quem o ouvia:
—Não acredite que esteja doido... não. Estou tão são de juízo como o senhor e falo-lhe a verdade. Uma palavra esclarece-lhe tudo... eu morro de paixão por uma mulher e essa mulher é... sua afiIhada! ... Inocência!
De um pulo levantou-se Cesário. Seus lábios tremiam, os olhos de súbito injetados de sangue. A mão procurou a arma que lhe ficava ao lado.
—Que é isso? balbuciou encarando fixamente Cirino.
Adivinhara-lhe este todos os pensamentos.
Erguera-se também, cara a cara com Cesário:
— Mate-me, bradou ele, mate-me... E um favor que me faz.. Dê cabo desta vida desgraçada.
Já arrependido do gesto que fizera e um tanto corrido de sua precipitação, replicou o outro todo sombrio:
—Não tenho razões para matá-lo... O Senhor nunca me fez mal...
—Não, prosseguiu Cirino no meio desvairado, peço-lhe por favor... Se o senhor tem caridade, e é bom, "se gosta de seus filhos, se tem pai e mãe no céu... por tudo isso eu lhe peço de joelhos! mate-me... mate-me!
E deixou-se cair aos pés de Cesário, ocultando a cabeça entre as mãos.
Contemplou-o largos instantes o mineiro com surpresa.
Inclinando-se para o moço, bateu-lhe no ombro e quase com brandura lhe disse:
— Que história é essa, doutor?... Isso é loucura! Conte-me que há... Quero saber se a sua bola está girando ou não. Sou homem do sertão, mineiro de lei... mas sei tratar com gente...
A estas palavras, recobrou Cirino algum alento e pôs-se de pé.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.