Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Marcelina! Lourenço! Exclamava de momento a momento o matuto, cavando e revolvendo sempre os entulhos eriçados de lascas, algumas flamejantes, muitas reduzidas a carvão. Ninguém me responde, comandante. morreram todos! Morreram! Estou sem mulher, sem filho, sem casa. Só me deixaram a miséria e o luto.

As feições do matuto mostravam-se desfiguradas. Por cima de suas faces de quarenta anos, que há pouco pareciam de trinta, porque as refrescava o reflexo do jubilo intimo, obra da esperança que lhe assegurava veria ele com brevidade os entes prediletos de sua alma, escorriam agora lagrimas lentas, e nelas se lia, em vez do prazer, a dor, a aflição, o desespero. Foi fácil a todos os circunstantes conhecer a súbita mudança, porque a esse momento o dia estava claro, e a aurora iluminava o céu e a terra com reflexos que nenhum pintor pode ainda reproduzir na tela.

Gil, sentindo a gravidade daquela crise, correu ao matuto, lançou-lhe os braços sobre os ombros, e disse-lhe em face:

- Então, que é isso, Francisco? Estás a chamar a todo instante por teu filho e tua mulher? Não vês que não podem estar aqui?

- Mas então onde estão eles, comandante? Na casa do padre Antonio não há ninguém. Já cansei de bater na porte. Ninguém me falou de dentro. Oh! Meu Deus! Por aqui andou de certo o Tunda-Cumbe. Malvado! Malvado! Tu me pagarás.

- Isto, sim, disse Gil, conhecendo que a loucura um momento iminente ia fugindo, espancada pelo sentimento da vingança, que acordara enfim, para salvá-lo, no coração do matuto. Havemos de vingar-nos desses perversos, que queimam as casas pacificas e levantam ranchos para novos salteadores. Não percamos tempo. Salta no teu cavalo. Quem sabe o que não estarão praticando a esta hora na vila os infames bandoleiros. Vamos, Francisco. Quero-te a meu lado.

O matuto saltou sobre o castanho. Tinha os olhos e as faces em fogo. Na respiração sentia calor de fornalha. Da mão, em vez do chiqueirador de buranhém que trazia, pendia agora uma catana fora da bainha.

Mas de momento a momento ia repetindo, como de se para si:

- Lourenço, Marcelina, que terá sido de vocês? Coração, tu estás a anunciar-me uma desgraça sem nome. Deus se lembre de mim, Deus se lembre de mim!

XX

Eis o que tinha acontecido no Cajueiro, ao escurecer do dia anterior.

Lourenço, que depois do que se passara no samba esperava a cada momento ser ofendido por Tunda-Cumbe ou por algum dos seus sequazes, vendo entrar um vulto desconhecido no caminho das carvoeiras, pegou da espingarda de Francisco, e, sem que Marcelina soubesse, encaminhou-se par aquele ponto.

Detrás da palhoça dos negros existia uma cova imensa, em que um homem podia meter-se até aos peitos. Com as ultimas chuvas tomara ela muita água, e se convertera em barreiro, donde os sapos estavam a essa hora soltando suas monótonas toadas. O rapaz avançou para ela por baixo das ramas rasteiras dos cajueiros. Na parte mais funda a água deu-lhe pela cintura. Lourenço pouco se importou com isto. O que ele queria era saber quem era o vulto e o que ia fazer ali. Eis o que viu e ouviu.

Estavam dentro da palhoça, com os habitantes do costume, um negro do serviço domestico de João da Cunha por nome Germano e o Pedro de Lima, cabra destemido do séquito de Tunda-Cumbe, braço direito deste, para assim escrevermos, que deixou nome na historia da guerra, pelas – extorsões, mortes, roubos e outras desenvolturas que cometeu em Goiana, de que fora o terror.

No momento em que Lourenço pode enxergá-los através das palhas da choupana, estava Pedro de Lima, a frente voltada para o casal de negros e o Germano, justamente a dizer-lhes estas palavras:

- É certinho o que digo; podem crer que terão vocês sua liberdade. Guardarei todo o segredo.

Lourenço compreendeu logo, por estas palavras, que o cabra prometia aos negros a alforria a troco de um levante contra João da Cunha.

- Então, então, Germano, que dizes a esta proposta? perguntou Moçambique ao negro da confiança do sargento-mór. Pois a liberdade é coisa que se engeite?

- A liberdade é boa coisa, e eu a não engeito, assim ela venha, respondeu Germano. Mas se os outros parceiros não quiserem aceitar a proposta, e meu senhor vier a saber que eu é que andei nisso, quem me livrará de ir ao carro ou à fornalha?

- És um pateta, moleque, disse Pedro de Lima. De hoje até amanhã hei de dar no engenho de teu senhor. Se acontecer o que eu cá espero, amanhã de manhãzinha o chumbo assobia nas urupemas de sua casa e a faca trabalha nas banhas da barriga dele. Se os negros que ele lá tem consigo prontos para dar e apanhar, faltarem na hora do apuro, não haverá santos que o livrem de ir direitinho para a bagaceira, servir de pasto aos urubus.

- Mas aí é que está a historia, observou Germano. Eu sei lá se eles querem faltar ou não?

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5354555657...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →