Por Bernardo Guimarães (1869)
Passados aqueles momentos de emoção, e dissipado algum tanto o assombro que deixara nos ânimos aquele extraordinário acontecimento, o ermitão abriu a porta da capela e convidou os romeiros a entrarem. Ali prostrou-se perante o lindo altar, em que resplandecia a imagem da Santa Virgem; em fervorosa oração renderam graças à miraculosa Senhora pelos assinalados benefícios que dela acabavam de receber.
O disco do sol já se elevava no horizonte; a multidão dos romeiros já começava a inundar o pequeno templo, que mal os podia conter, e sussurrava como um enxame de abelhas em manhã de primavera a entrarem e saírem pela estreita porta da colmeia. Era já tempo de deixar o ermitão, que naqueles dias não pertencia a si, e tinha de dar atenção a milhares de romeiros. Antes porém de se separarem , Mateus pediu a Gonçalo que lhe contasse o que lhe tinha acontecido desde o seu desaparecimento de Vila Boa até aquela época, e que série de singulares acontecimentos o tinha levado a fundar aquela capela e a viver vida de austeridades e penitências no meio daqueles desertos.
— Mateus, lhe responde o ermitão, a história de meus desvarios e desgraças é bastante longa, e decerto não exiges de mim que a conte aqui em alguns momentos e no meio deste tumulto. Durante os dias que aqui tiverdes de demorar, vinde todas as tardes àquela choupana que ali vedes; é ali a minha morada. Posto que me seja bem doloroso rememorar um passado de crimes, misérias e fraquezas, a vós nada devo ocultar; para me tornar digno do vosso perdão é meu dever tudo confessar-vos, e também para que fiqueis conhecendo e proclameis por toda a parte quão valioso e sublime é o poder daquela piedosa Virgem, a cuja celestial proteção devo a existência neste mundo, e por cuja intercessão espero no outro a salvação eterna.
Durante todo o tempo que estiveram no Muquém, os nossos romeiros todos os dias ao declinar do sol dirigiam-se à cabana do eremita, que distava como cinqüenta passos da capela. Era um pequeno rancho coberto de palhas de bagaçu com uma porta e uma janela, mas fresco e asseado.
Tinha junto à porta uma frondosa sucupira, única árvore de algum vulto que se notava naquela paragem. A sucupira diz-se que tem a propriedade de atrair o raio, mas Gonçalo dizia sorrindo:
— Nada no mundo desafia mais os raios da cólera celeste do que o pecado, e eu sou o maior dos pecadores.
De feito depois da morte de Gonçalo o raio derribou aquela árvore, que o céu parecia ter respeitado somente enquanto prestava uma sombra ao piedoso eremita. Junto à cabana havia também um cercado, que Gonçalo amanhava com suas próprias mãos cultivando algumas flores, com que enfeitava os altares da Virgem; e era esta ocupação a única distração que concedia aos rigores de sua vida ascética e solitária.
Ali assentados em um grosso madeiro estendido junto à porta da cabana pelo lado de fora os romeiros de Vila Boa escutavam com a maior atenção da boca de Gonçalo os acontecimentos que ficam referidos nesta história, desde o desaparecimento de Gonçalo até o temeroso e estranho duelo em que matou Inimá, ficando ele salvo por uma espécie de milagre. Ele lhes contava com todos os pormenores suas longas peregrinações e trabalhos, as lutas e dificuldades que tivera a vencer durante o tempo em que, homiziado pelos desertos, se refugiava entre os selvagens procurando sufocar por meio de uma vida inquieta e cheia de azares os clamores da consciência, que mesmo no meio das maiores prosperidades não deixava de pungi-lo com seu implacável aguilhão, as extraordinárias aventuras de sua vida entre os Chavantes, seus amores com a filha do cacique, seus triunfos e a infanda peripécia que pôs termo à longa série de seus crimes e desvarios. Os romeiros, absortos no encanto daquela narrativa simples, animada e cheia de interesse, não sentiam correr o tempo, e era com grande desprazer que ao cair da noite ouviam o ermitão dizer-lhes:
— É hora de oração e de repouso; voltai amanhã para ouvirdes o resto.
E depois de tudo terem ouvido, ainda não contentes faziam mil perguntas a Gonçalo, pediam-lhe que lhes tornasse a contar mais este ou aquele fato, que lhes esclarecesse e explicasse mais esta ou aquela circunstância.
Nós porém tínhamos deixado Gonçalo alta noite voltando sozinho em uma canoa pelo rio Tocantins abaixo depois de ter matado Inimá.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.