Por Machado de Assis (1878)
Jorge achou-a nos subseqüentes dias, tal qual era nos outros, menos travessa, porém, e muito mais senhora. Ao cabo de uma semana trazia todos os elementos de convicção:
— Ama-me! pensava ele ao sair dali uma noite. A convicção, por mais que a suspeita a houvesse prevenido, atordoou o espírito de Jorge, que nessa mesma noite resolveu não voltar lá; resolução varonil, que durou quarenta e oito horas.
Alguns dias, três semanas, decorreram assim na mais aprazível familiaridade. Jorge, se não obtivera o título, exercia realmente as funções de irmão mais velho; era um guia, um conselheiro, uma autoridade. Escutava-a com interesse; recebia a confidência dos sentimentos da moça, e as ambições de um coração cuja sede parecia contentar- se da água que pudesse conter a própria mão, no primeiro arroio do caminho. Ao mesmo tempo, buscava temperar- lhe o romanesco com uma forte dose de realidade.
Durante esse tempo, nenhuma frase igual às daquela tarde veio sacudir o espírito de Jorge; nenhuma lágrima lhe caiu nas mãos. Mas, se a palavra não vinha, a voz era insinuante e comovida, às vezes; se os olhos não choravam, luziam ou quebravam-se de um modo pouco comum. Jorge fingia não compreender; mais do que isso, forcejou por se persuadir a si próprio que não compreendia: resultado útil, que lhe dava a vantagem de saborear em silêncio o gozo de se saber amado, sem perder o de contemplar uma natureza original, moralmente exuberante e forte, que, além de tudo, tinha para ele a fascinação do mistério ou do abismo.
No fim daquelas três semanas encontraram-se em casa da paralítica. Não houve acordo, mas nada foi casual.
— Vou amanhã à casa de Maria das Dores, disse Iaiá uma noite, prestes a despedir-se dele. E no outro dia de tarde, Jorge, que
havia rareado os passeios daqueles últimos tempos, acertou de caminhar para ali, e com tão boa fortuna, que achou a moça sentada no mesmo banco de pedra em que lhe falara da primeira vez.
Outra vez, quando Iaiá ali voltou, já encontrou Jorge, ao pé da enferma. Maria das Dores estava ainda mais contente com a honra da visita do que com a esmola que ele dissimuladamente lhe levara envolvida em um lenço de ramagens. Jorge animava-a, dizia-lhe que ainda iriam à Penha naquele ano. Iaiá parou à porta, espantada e contente.
— Venha, disse a enferma, ande ver como seu noivo está caçoando com a velha.
— Agradeço-lhe, disse Iaiá; creia que ela merece todas as consolações.
Na noite desse dia, quando Jorge entrou em casa, um pouco inebriado da entrevista, achou uma carta de Procópio Dias, que o encheu de contentamento. Procópio Dias tinha necessidade de se demorar ainda uns dous meses. Dous meses! Era a eternidade. Jorge sentiu-se conformado com a notícia de tão longa ausência. Que importava a presença, se ela o não amava? Essa reflexão não a fez Jorge, mas a filha de Luís Garcia, quando ele lhe deu a notícia da carta:
— Que tenho eu que ele esteja ausente ou presente? Ele ou um estranho é a mesma cousa. A eternidade foi um minuto; os dous meses voaram como um tufão. Um dia, no último desses dous meses, Iaiá disse ao filho de Valéria que achara enfim um marido.
— Um marido? repetiu Jorge empalidecendo.
— Parece que um marido. Não me aprova?
— Se ainda o não conheço!
— Não sei se é um marido, continuou Iaiá depois de um instante; mas achei o homem a quem amo.
— É a mesma cousa.
— Ou quase.
Houve entre ambos uma longa pausa, durante a qual Iaiá tinha os olhos fitos no moço, enquanto este não tinha os seus em parte nenhuma; vagavam de um ponto a outro. Iaiá repetiu que achara um marido.
— É a segunda vez que me diz isso, redargüiu Jorge com a voz trêmula e irritada; se o achou, tanto melhor; casará com ele.
— Não me disse uma vez que não me deixasse ir com os primeiros olhos que parecessem responder aos meus? não me disse que era conveniente escolher um homem...
— O que eu lhe disse foram palavras sem sentido, tornou Jorge; não se dão conselhos ao coração que ama. O casamento vem talhado do céu, segundo diz o povo; outros dirão que vem do acaso; ou é o destino de cada um, ou é uma loteria. A senhora não me pede certamente que lhe diga o número em que há de sair a sorte grande? Compre o bilhete e deixe correr a roda. Alguns dias de paciência e nada mais...
A excitação de Jorge era extraordinária, mas não foi longa. Alguns instantes de silêncio bastaram a aplacá-la ou diminuí-la; pelo menos o gesto não traiu a agitação interior. Pálido, sim, estava pálido; mas a voz, se não era firme, perdera a aspereza do primeiro instante.
— Refleti depois da nossa conversa, disse ele e não desejo tomar nenhuma responsabilidade em um ato de que depende a felicidade de sua vida.
— Então, não me estima, é o que é, disse Iaiá em voz queixosa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Iaiá Garcia. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1878.