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#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Infelizmente a tal espécie de gratidão por mais que se dissimule, sempre se atraiçoa, é uma espécie de violeta, cujo perfume a denuncia.

Eu não sei, nem talvez Júlia soube, como Artur descobriu o segredo daquele sentimento, mas descobri-lo e apertar o cerco da fortaleza foi o que ativamente fez o já esperançado conquistador.

Esforço baldado! Frederico caçava, mas o baluarte não se rendia.

Artur ousou escrever a Júlia; esta, porém, negou-se a receber a carta; em oportunos ensejos de reuniões em que se encontraram, Artur tentou por vezes levar, atrair, arrastar Júlia à conveniente conversação que lhe facilitasse já desnecessárias, mas insidiosas, declarações de seu amor, e a jovem senhora casada sempre achou ótimos pretextos para cortar-lhe a palavra, ou distanciando-se do tentador, ou falando-lhe do sol e da chuva.

Mas Júlia não pensava que assim cumpria apenas metade do seu dever, e que continuando por vaidade e por aquela espécie de gratidão a tolerar nas sociedades a aproximação, a palavra e a corte embora decente do mancebo que evidentemente se mostrava seu apaixonado, quase que o autorizava a apertar o cerco da fortaleza.

Porque em matéria de cumprimento de dever - ou tudo ou nada. - o dever não tem metades, é, ou não é, cumpre-se todo e à risca, ou incompleto deixa de ser cumprido.

E conseqüência lógica daquela aberração do dever, cujo cumprimento ficará em metade e, portanto, moralmente nulo, eu ainda não sei como foi e creio e devo crer que Júlia também não o soube, deu-se o caso do singular desfecho deste romance.

Artur queria a todo transe um momento, alguns minutos, uma hora em que a sós com Júlia pudesse ajoelhar-se a seus pés e beijar-lhe, uma vez ao menos, as mãos pequeninas e lindíssimas.

Perdera tempo e eloqüência, tentando dirigir-se diretamente à jovem senhora.

Mudou de plano, e apelou para ataque de surpresa.

Eu digo de surpresa, porque seria capaz de jurar que Júlia foi estranha ao trama condenável e comprometedor de sua virtude.

Artur informou-se de quem era a modista de Júlia na Rua do Ouvidor, e de bolsa aberta e convencendo a modista de conivência que não havia, preparou cilada perversa e infernal.

A modista mandou anunciar a Júlia que acabava de receber de Paris delirantes toilettes de fantasia, e que a esperava no dia seguinte para dar-lhe a primazia na escolha dos mais eclipsadores.

É claro e evidente que então andava Frederico, o Nemrod, ausente em caçada.

Júlia não faltou, era impossível que faltasse ao emprazamento da sua modista, e esta notou ou fingiu notar que a jovem senhora entrava comovida e hesitante em sua loja..

Sem dúvida, nessa observação andou malícia da francesa que, de antemão, quereria preparar desculpas. Eu não creio que Júlia tivesse entrado na loja nem comovida, nem hesitante.

A bonita e vaidosa senhora examinou e escolheu três ou quatro toilettes e a convite da modista subiu ao pavimento superior para experimentá-los em sala apropriada.

E poucos momentos depois de entrada na sala, a modista saiu, pretextando ir buscar alfinetes que não achava no toucador.

Apenas a modista passou além da porta, rompeu de gabinete contíguo o belo e audacioso Artur, que se prostrou de joelhos aos pés de Júlia e quis tomar-lhe as mãos para beijá-las.

Coincidência notável!... No momento em que Artur caía assim ajoelhado aos pés de Júlia, Frederico disparava tiro certeiro sobre uma veadinha que expirou ferida no coração.

Mas Júlia surpreendida, assustada e nervosa, como era, desmaiou, caindo em uma otomana.

Entenda-se: desmaiou realmente.

Artur, que estava de joelhos e ia improvisar eloqüente discurso que trazia de cor, levantou-se atônito, vendo Júlia desmaiada.

Que havia de fazer? ir chamar a modista ou gritar por ela era comprometedor à reputação da inocente senhora.

Artur lançou-se para a mesa do toucador, tomou lindo frasquinho de caprichosa forma, que, pelo lugar onde estava, deveria conter água-de-colônia ou alguma essência aromática, abriu o frasquinho e precipite levou-o ao nariz da jovem desmaiada; como porém lhe tremessem as mãos, derramou parte do liquido no formoso rosto.

Ah!... o liquido que o vidro continha era tinta de escrever!...

A modista que certamente procurava alfinetes muito ao perto acudiu logo, e Artur sem mais demora nem ansioso cuidado partiu em retirada tão discreta, que as costureiras da loja que não o tinham visto entrar não o viram sair.

Mas ainda bem que, sedutor perverso e ainda infeliz em seu último plano insidioso e malvado, nem ao menos conseguira beijar as brancas, pequeninas e acetinadas mãos de Júlia.

A bela jovem desmaiada não tardou muito em tornar a si, soltando magoado suspiro; logo depois volveu em torno os olhos, e, não vendo Artur, endireitou-se na otomana, encarou de face a modista, e, quando pôde falar, murmurou ressentida:

- Que traição!...

A modista imodesta, cruel, e ajeitando inverossímil defesa, respondeu docemente:

- Pardon, madame!... eu foi enganada por confiança de rendez-vous ajustade...

(continua...)

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