Por Machado de Assis (1899)
—Isto prova que as idéias aritméticas são mais simples, e portanto mais naturais. A natureza é simples. A arte é atrapalhada.
Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que não pude deixar de abraçá-lo. Era no pátio; outros seminaristas notaram a nossa efusão; um padre que estava com eles não gostou.
—A modéstia, disse-nos, não consente esses gestos excessivos podem estimar-se com moderação.
Escobar observou-me que os outros e o padre falavam de inveja e propôs-me viver separados. Interrompi-o dizendo que não inveja, tanto pior para eles.
—Quebremos-lhe a castanha na boca!
Mas...
Fiquemos ainda mais amigos que até aqui.
Escobar apertou-me a mão às escondidas, com tal força que ainda me doem os dedos. É ilusão, decerto, se não é efeito das longas horas que tenho estado a escrever sem parar. Suspendamos a pena por alguns instantes...
CAPÍTULO XCV
O PAPA
A amizade de Escobar fez-se grande e fecunda; a de José Dias não lhe quis ficar atrás. Na primeira semana disse-me este em casa:
—Agora é certo que você vai sair já do seminário.
—Como?
—Espere até amanhã. Vou jogar com eles que me chamaram, amanhã, lá no quarto, no quintal, ou na rua, indo à missa, conto-lhe o que há. A idéia é tão santa que não está mal no santuário. Amanha, Bentinho.
Mas é cousa certa?
—Certíssima!
No dia seguinte revelou-me o mistério. Ao primeiro aspecto confesso que fiquei deslumbrado. Trazia uma nota de grandeza e de espiritualidade que falava aos meus olhos de seminarista. Era não menos que isto. Minha mãe, ao parecer dele, estava arrependida do que fizera, e desejaria ver-me cá fora, mas entendia que o vínculo moral da promessa a prendia indissoluvelmente. Cumpria rompê-lo, e para tanto valia a Escritura, com o poder de desligar dado aos apóstolos. Assim que, ele e eu iríamos a Roma pedir a absolvição do papa... Que me parecia?
Parece-me bem, respondi depois de alguns segundos de reflexão. Pode ser um bom remédio.
—É o único, Bentinho, é o único! Vou já hoje conversar com D. Glória, expondo-lhe tudo, e podemos partir daqui a dous meses, ou antes...
Melhor é falar domingo que vem; deixe-me pensar primeiro...
Oh! Bentinho! interrompeu o agregado. Pensar em quê? Você o que quer... Digo? Não se amofina com o seu velho? Você o que quer é consultar a uma pessoa. Rigorosamente, eram duas pessoas, Capitu e Escobar, mas eu neguei a pés juntos que quisesse consultar ninguém. E que pessoa, o reitor? Não era natural que lhe confiasse tal assunto. Não, nem reitor, nem professor, nem ninguém; era só o tempo de refletir, uma semana, no domingo daria a resposta, e desde já lhe dizia que a idéia não me parecia má.
Não?
—Pois resolvamos hoje mesmo.
—Não se vai a Roma brincando.
—Quem tem boca vai a Roma, e boca no nosso caso é a moeda. Ora, você pode muito bem gastar consigo... Comigo, não; um par de calças, três camisas e o pão diário, não preciso mais. Serei como S. Paulo, que vivia do ofício enquanto ia pregando a palavra divina. Pois eu vou, não pregá-la, mas buscá-la. Levaremos cartas do internúncio e do bispo, cartas para o nosso ministro, cartas de capuchinhos... Bem sei a objeção que se pode opor a esta idéia; dirão que é dado pedir a dispensa cá de longe; mas, além do mais que não digo, basta refletir que é muito mais solene e bonito ver entrar no Vaticano, e prostrar-se aos pés do papa o próprio objeto do favor, o levita prometido, que vai pedir para sua mãe terníssima e dulcíssima a dispensa de Deus. Considere o quadro, você beijando o pé ao príncipe dos apóstolos; Sua Santidade, com o sorriso evangélico, inclina-se, interroga, ouve, absolve e abençoa. Os anjos o contemplam, a Virgem recomenda ao santíssimo filho que todos os seus desejos, Bentinho, sejam satisfeitos, e que o que você amar na terra seja igualmente amado no céu...
Não digo mais, porque é preciso acabar o capítulo, e ele não acabou o discurso. Falou a todos os meus sentimentos de católico e de namorado. Vi a alma aliviada de minha mãe, vi a alma feliz de Capitu, ambas em casa, e eu com elas, e ele conosco, tudo mediante uma pequena viagem a Roma, que eu só geograficamente sabia onde ficava; espiritualmente, também, mas a distancia que estaria da vontade de Capitu é que não. Eis o ponto essencial. Se Capitu achasse longe, não iria- mas era preciso ouvi-la, e assim também a Escobar, que me daria um bom conselho.
CAPÍTULO XCVI
UM SUBSTITUTO
Expus a Capitu a idéia de José Dias. Ouviu-me atentamente. e acabou triste.
—Você indo, disse ela, esquece-me inteiramente.
—Nunca!
—Esquece. A Europa dizem que é tão bonita, e a Itália principalmente. Não é de lá que vêm as cantoras? Você esquece-me, Bentinho. E não haverá outro meio?
D. Glória está morta para que você saia do seminário.
—Sim, mas julga-se presa pela promessa.
Capitu não achava outra idéia, nem acabava de adotar esta. De caminho, pediu-me que, se acaso fosse a Roma, jurasse que no fim de seis meses estaria de volta.
—Juro.
—Por Deus?
—Por Deus, por tudo. Juro que no fim de seis meses estarei de volta.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Garnier, 1899.