Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Entrando por este esteiro, pondo os olhos na terra firme, tem uma formosa vista de três engenhos de açúcar, e outras muitas fazendas mui formosas da vista do mar, e no cabo do salgado se mete nele uma formosa ribeira de água, com que mói um engenho de açúcar de Sua Majestade, que ali está feito com uma igreja de S. Bartolomeu, freguesia daquele limite, o qual engenho anda arrendado em seiscentas e cincoenta arrobas de açúcar branco cada ano. Pelo sertão deste engenho, meia légua dele, outro de Diogo da Rocha de Sá, que mói com outra ribeira, o qual está muito ornado de edifícios com uma igreja de S. Sebastião, muito bem concertada. À mão esquerda deste engenho de Sua Majestade está outro de João de Barros Cardoso, meia légua para a banda da cidade até onde este esteiro faz um braço por onde se serve com suas barcas; o qual engenho tem grande aferida e fábrica de escravos, grandes edifícios e outra muita granjearia de roças, canaviais e currais de vacas, onde também está uma ermida de Nossa Senhora de Encarnação, muito bem concertada de todo o necessário. E entre um engenho e outro está uma casa de cozer meles com muita fábrica, a qual é de Antônio Nunes Reimão. À mão direita deste engenho de Sua Majestade está outro de D. Leonor Soares, mulher que foi de Simão da Gama de Andrade, o qual mói com uma ribeira de água com grande aferida e está bem fabricado. Este rio de Pirajá é muito farto de pescado e marisco, de que se mantêm a cidade e fazendas de sua vizinhança, no qual andem sempre sete ou oito barcos de pescar com redes, onde se toma muito peixe, e no inverno, em tempo de tormenta, pescam dentro dele os pescadores de jangadas dos moradores da cidade e os das fa-zendes duas léguas à roda, e sempre tem peixe, de que todos se remedeiam.
C A P Í T U L O XXI
Em que se declara a terra e sítio das fazendas que há da boca de Pirajá até o rio de Matoim.
Por este rio de Pirajá abaixo, e da boca dele para fora ao longo do mar da baía, por ela acima, vai tudo povoado de formosas fazendas e tão alegres da vista do mar, que não cansam os olhos de olhar para elas.
E no princípio está uma de Antônio de Oliveira de Carvalhal, que foi alcaide-mor de Vila Velha, com uma ermida de São Brás; e vai correndo esta ribeira do mar da baía com esta formosura até Nossa Senhora da Escada, que é muito formosa igreja dos padres da Companhia, que a têm muito bem concertada; onde às vezes vão convalescer alguns padres de suas enfermidades, por ser o lugar para isso; a qual igreja está uma légua do rio de Pirajá e duas da cidade. De Nossa Senhora da Escada para cima se recolhe a terra para dentro até o porto de Paripe, que é daí uma légua, cujo espaço se chama Praia Grande, pelo ela ser muito formosa, ao longo da qual está tudo povoado de mui alegres fazendas, e de um engenho de açúcar que mói com bois e está muito bem acabado, cujo senhorio se chama Francisco de Aguilar, homem principal, castelhano de nação. Deste porto de Paripe obra de quinhentas braças pela terra dentro está outro engenho de bois que foi de Vasco Rodrigues Lobato, todo cercado de canaviais de açúcar, de que se faz muitas arrobas.
Do porto de Paripe se vai à terra afeiçoando à maneira de ponta lançada ao mar, e corre assim obra de uma légua, onde está uma ermida de São Tomé em um alto, ao pé do qual ao longo do mar estão umas pegadas assinaladas em uma lájea, que diz o gentio diziam seus antepassados que andara por ali, havia muito tempo, um santo, que fizera aqueles sinais com os pés. Toda a terra por aqui é mui fresca, povoada de canaviais e pomares de árvores de espinho, e outras frutas da Espanha e da terra, de onde se ela torna a recolher para dentro, fazendo outra praia mui formosa e povoada de mui frescas fazendas, por cima das quais aparece a igreja de Nossa Senhora do Ó, freguesia da povoação de Paripe, que está junto dela, arruada e povoada de moradores, que é a mais antiga povoação e julgado da Bahia.
Desta praia se torna a terra a afeiçoar à maneira de ponta para o mar, e na mais saída a ele se chama a ponte do Toqueto-que, de onde a terra torna a recuar para trás até a boca do rio de Matoim, tudo povoado de alegres fazendas. Do porto de Paripe ao rio Matoim são duas léguas, e de Matoim à cidade são cinco léguas.
C A P Í T U L O XXII
Em que se declara o tamanho do rio de Matoim e os engenhos que tem.
Entra a maré pelo rio de Matoim acima quatro léguas, o qual tem de boca, de terra a terra, um tiro de berço uma da outra, e, entrando por ele acima mais de uma légua, vai povoado de muitas e mui frescas fazendas, fazendo algumas voltas, esteiros e enseadas, e no cabo desta légua se alarga o rio muito de terra à terra; e à mão direita por um braço acima está o famoso engenho de Paripe, que foi de Afonso de Torres e agora é de Baltasar Pereira, mercador. A este engenho pagam foro todas as fazendas que há no porto de Paripe, a que também chamam do Tubarão, até a boca de Matoim, e pelo rio acima duas "léguas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.