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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

— O Cazuza Penteado? Um sujeito que furtara a tesoura com que a parteira lhe cortara o umbigo.

— O José do Lago, um bêbado que dava cabo de todo o vinho branco da sacristia.

A Matriz não podia ficar abandonada. Era preciso que uma pessoa a zelasse na ausência de Macário. Enquanto não vinha a licença impetrada por padre Antônio para deixar a paróquia, Macário procurava. Veio de Manaus a licença e Macário ainda não pudera descobrir uma pessoa de bastante zelo e probidade... Cada vez que o sacristão passava pela porta do Costa e Silva, ouvia sair de lá a voz zombeteira do Chico Fidêncio:

— Então, Macário, quando parte a missão?

A coisa transpirara. Toda a vila conhecia o projeto de padre Antônio de Morais, mas não acreditava na sua realização. Era uma idéia de moço inexperiente. Quando mesmo chegasse a partir de Silves, não chegaria a atravessar o Amazonas. Era lá homem para deixar os cômodos da vigararia e aventurar-se pelos sertões fora em busca de mundurucus! Demais' essa tarefa maçante de catequese pertencia de direito aos padres que nos vinham de fora, e que rareavam cada vez mais. Um padre brasileiro catequizando! Parecia uma pilhéria inventada pelo Chico Fidêncio para caçoar da religião de Cristo. Macário cansava-se em esforços vãos para convencer a população rarefeita de Silves, de que a coisa era verdadeira e de que padre Antônio pensava mesmo em atirar-se aos mundurucus selvagens. E, por sinal, que Macário também ia, sim, senhores, Macário de Miranda Vale ia missionar na Mundurucânia, e o seu nome viria nos jornais, S. Rev.ma lho prometera. Padre Antônio até já queria entregar a Matriz ao José do Lago, para poder sair mais depressa, mas o diabo é que não havia remeiros que se prestassem a conduzir S. Rev.ma ao porto dos Mundurucus. Coisa notável, mal O sacristão chegava-se a um tapuio:

— Patrício, você quer levar o senhor vigário ao porto dos Mundurucus?

— Uai! onde é isso?

— O porto dos Mundurucus é lá no fim do mundo, nem eu mesmo sei, explicava Macário. É lá uma coisa que se meteu na cabeça do senhor vigário. Quer ir por força à terra dos gentios que comem gente, para servir a Nosso Senhor Jesus Cristo!

O tapuio que isso ouvia, dava de andar para longe, silenciosa e apressadamente, receando que o obrigassem a pegar no remo. E Macário, mostrando muito desânimo, ia dizer ao vigário:

— Saberá V. Rev.ma que não é possível obter remeiros.

Canoa havia, uma bela igarité grande, com tolda de japá, fixa e cômoda, de sólida construção e marcha regular, mas remeiros não apareciam. Nem dinheiro nem promessas, nem a lembrança do serviço de Deus, nem mesmo o prestígio do senhor padre podiam decidir os tapuios timoratos e preguiçosos a tão longa e perigosa jornada. Padre Antônio impacientava-se, acusava a desídia e a má vontade do Macário, falava em irem os dois sozinhos numa montaria rio fora, em busca de melhor meio de condução. Macário invocava todos os santos e santas da corte do céu em abono da sua boa vontade e diligência. Mas não havia mesmo quem quisesse ir. Era falar-se no porto dos Mundurucus e os tapuios largavam a correr como desesperados.

Pela centésima vez, Macário, por ordem do vigário, passara pela Rua do Porto, procurando remeiros, até que parara casualmente, muito cansado, absorto nesses pensamentos, à porta do Costa e Silva. De repente uma voz sarcástica saiu da loja:

— Então, Macário, sai ou não sai a missão?

Era o Chico Fidêncio, sentado junto ao balcão, chupando um cigarro apagado.

Macário impaciente, compreendendo a necessidade de acabar com aquela dúbia situação em que o punham as insistências do padre e os sarcasmos do Chico Fidêncio, respondeu com muita dignidade:

— Saberá V S.a que não é da sua conta.

Era numa tarde de fins de julho. Um chuvisqueiro miúdo começava a cair, esbranquiçando a massa da floresta e a lombada longínqua da cordilheira. A areia das ruas assentara, convertendo-se numa pasta flácida em que os pés escorregavam. A vila quase deserta enchia-se da tristeza sombria das noites invernosas. Macário tinha ojeriza às umidades, não se davam com o seu gênio nem com o seu reumatismo. O melhor era dar por concluídas as diligências daquele dia, e recolher-se a quartéis.

Padre Antônio não estava em casa, não voltara ainda do passeio, com que costumava combater a dispepsia nascente. Mas, disse o preto velho, um moço bonito estava esperando na sala, para falar com o Sr. Macário. Um moço queria falar-lhe, quem seria? Provavelmente o afilhado do Valadão que vinha empenhar-se pela substituição do Macário, durante a missão à Mundurucânia... Que esperasse! Primeiro o Macário queria mudar as meias e beber um copito de vinho branco para afugentar um resfriamento. Não havia de sacrificar a sua saúde preciosa para ouvir as lengalengas do afilhado do Valadão!

(continua...)

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