Por Domingos Olímpio (1903)
— Pobre, não. Bata na boca. Diga rico, bem rico, porque uma prenda igual a ela só encontram os afortunados. Você fala de farto. Os homens todos são assim, cheios de luxos e desdéns quando são queridos. A demora é saberem que a gente gosta deles: começam logo a botar cafangas.
— Diga o que quiser, Teresinha. Está no seu direito. Não me zango com isso, nem exijo nada; basta o muito que tem feito por mim. Mas, não posso acreditar que Luzia me queira, como você diz. Que faria no lugar dela?
— Cada um sabe de si e Deus de todos. Eu faria o que sempre fiz, e por isso apanhei muito na minha ruim cabeça. Hoje, torço as orelhas, que não botam sangue. Ah! quem ama não tem tico de vergonha. É verdade que você, agora, está melhorado de sorte, quase rico...
— Prefiro o trabalho na Ladeira da Meruoca, às vantagens que tenho aqui.
— Deixe-se de luxos. Veja se é ou não como eu digo: este quer se meter no cafundó da serra, a outra só pensa em sumir-se para o lado das praias.
Histórias!... O que vocês querem sei eu... Deixa-me ir que é quase de noite... Até amanhã... Veja bem, seu Alexandre, o que me prometeu!... Até amanhã... Agora vá fazer feio comigo...
CAPÍTULO XXIII
Nunca estivera Luzia mais atenta, mais solícita na ocupação de diretora das meninas costureiras. Fingindo indiferença aos comentários e informações, resmungados de grupo em grupo, sobre o extraordinário caso do dia, às perguntas indiscretas, alheia aos gracejos inofensivos, levemente maliciosos, das companheiras de trabalho, respondia com meias palavras, com evasivas curtas de quem se não quer importunar de olhares impertinentes, de mexericos, de insinuações. Mas, as meninas mais taludes cochichavam a respeito da mestra; trocavam gracejos contemplando-a, de soslaio, muito espantadas de que ela não acompanhasse o contentamento dos amigos de Alexandre, que eram, então, muitos, quando devera ser a mais interessada no desfecho do aleive urdido pelo celerado Crapiúna.
Notava-se-lhe, no entanto, certo cuidado excepcional no arrumo dos cabelos em grossas tranças luminosas, dum brilho escuro de cobras negras, a escolha do vestido de chita cabocla, guarnecido de rendas, e as posturas faceiras, a disfarçarem o alvoroço do coração. Seus olhos, onde brilhavam lampejos fugaces, se fitavam, a curtos intervalos, na foz da larga estrada da cidade, e seus ouvidos, com avidez aguçado, colhiam frases soltas, palavras esparsas dos trabalhadores que chegavam, e traziam notícias últimas dos últimos acontecimentos.
— Estive na Casa da Câmara – dizia um – Tem gente que faz medo. A sala estava atopetada, e os soldados não deixavam mais entrar o povo que se espalhava por fora, pela escada do rendengue abaixo, até à rua. Ouvi dizer que a Chica Seridó contou tudo...
— Eu vi o Crapiúna – afirmava outro – Estava como uma onça acuada. Os olhos pareciam duas brasas.
— Não viste a Gabrina? – inquiriu uma mulher – Pois eu tive pena dela. Fazia apertos no coração. Tão moça, tão bonitinha e faceira e implicada na história do roubo. Eu, Deus me livre de tal, se me visse em semelhante vergonheira, era capaz de morrer.
— Foi sempre uma desmiolada – acentuava uma velha - Conheço-a desde menina. Era um diabinho em figura de gente. Também a mãe, Deus perdoe os seus pecados, não se importava com ela; fazia-lhe todas as vontades... Sempre digo que essa criação d'agora não presta. Filhos muito senhores de si, por qualquer descuido, se desgarram. Os meus não punham pé em ramo verde. Muito amor, mas muito respeito e cabresto curto.
— Nestes tempos de miséria – ponderou um carpinteiro idoso – ninguém tem folga para cuidar da criação dos filhos. Vão se criando ao Deus-dará, como filhos de pobre.
— Os mais bem criados não estão livres de uma desgraça. Não valem cuidados, nem vigilâncias; a miséria entra pelas gretas das fechaduras, empesta o ar e tira o juízo.
— Quando saí – informou um recém-chegado – a Chica ainda estava falando. Ela, que tem partes com o demônio, estava se, vendo para explicar a embrulhada das sacas de feijão e de farinha recebidas de Crapiúna, os cortes de vestido e os brincos de oiro. Imaginem vocês que aquela inocente, passada pelos corrimboques, não maldou. Se eu fosse delegado, ela ia, mas era pra cadeia, para não se fazer de besta, pensando que os outros têm um tê na testa.
— Ladina como ela só... Quem a ouvir, não a leva presa.
Luzia não perdia uma sílaba do que se dizia. Colhia, aqui e ali, fragmentos de narrativas, observações, notícias incompletas, que devorava na ânsia de saber tudo, principalmente o que concernia a Gabrina e a Alexandre, de quem não haviam ainda falado. E Teresinha? Onde se metera? Por onde andava que não vinha para dar-lhe, como prometera, informações seguras, anunciar-lhe a feliz nova da libertação do preso, ou trazê-lo?
Correram horas de ansiedade, da pungente tortura de esperar, suportada de rosto sereno, onde não havia uma contração de impaciência.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.