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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

— Solte-me! roncou este. Solte-me, com todos os diabos! ou vou-lhe aos queixos! Meta-se lá com a sua vida, e deixe-me, quero desabafar! Sebo! Não me calo, entende?! Não me calo, porque não quero! não me calo! não me calo! — Sim!

continuou em tom de discurso, não admito os seus desaforos!... Ainda outro dia...

— Viva o Manuel! gritou um.

— Vivô! respondia o coro.

— Seu Manuel! à sua!

— A sua!

— Hup! hup! hurra!

— Bangüê! gritou Cordeiro, e quebrou o copo na mesa é de quebrar.

— Só se fosse a tua cabeça, grandíssimo borracho! resmungou o Sena, muito maçado.

— Atenção! atenção, meus senhores!...

Em a voz do Faísca, acompanhada de palmas.

— Atenção!

E tirou da algibeira uma folha de papel.

Fez-se algum silêncio, e o Faísca, depois de puxar os punhos, começou a falar, com uma voz aflautada, cheia de afetações e com a minuciosa dos míopes; a cabecinha inquieta muito arrebitada, os olhos esticados, procurando alcançar o vidro das lunetas; a boca aberta e as ventas distendidas.

— Meus senhores!... Em tal dia... eu não podia deixar de fazer... uma poesia!...

— É verso! E verso! declarou Bibina, a bater palmas, contente.

— Eu creio também que sim... é uma poesia em verso!...

— E por isso... continuou Faísca, calcando a luneta, que o suor fazia escorregar — recomendo às musas, ouso erguer a minha débil voz, para oferecer, como penhor de estima e consideração, ao senhor Manuel, digno negociante matriculado da nossa Praça, este modesto soneto, que... se não prima... sim!... se não prima...

— Primasse! gritou o Cordeiro.

Faísca, todo atrapalhado, procurava uma palavra.

— Venham os versos!

— Venha a poesia! Reclamavam.

“Filho da antiga terra de Camões!” principiou o Faísca a recitar, trêmulo.

— Filho da antiga terra de Camões! repetiu o Cordeiro, arremedando-lhe a voz.

— Homem! você não se calará? repreendeu Manuel.

O recitador prosseguiu:

“Filho da antiga terra de Camões!

E nosso irmão de leite e companhia!...”

— Leite e companhia?... considerou o Sena na sua seriedade, meditando. Não! me é estranha a firma!... Ora espere!... Será com o José e Cia., do Piauí?!...

Faísca continuou, muito enfiado:

“Eu quero vos saudar no augusto dia Em que só juntos estão amigos bons!”

— Bravo! Bravo!

— Olha, gentes! — rimou!

— Pscio!... Pscio!...

— Diga outro, seu Rosinha?

— Diga outro verso!

— Diga um de transporte!... lembrou Etelvina com um suspiro. — Silêncio!

Mas o poeta não pôde continuar, porque, em um movimento de atrapalhação, caíra-lhe o pince-nez dentro de uma compoteira de doce de cada.

— Um brinde! pediu Casusa. Um brinde!

— Silêncio!

— Espere!

— Ordem!

— Ne quid nimis!

E, depois destas palavras, ouviu-se a voz de Maria Bárbara, dizendo a D. Maria do Carmo:

— Minha vida, coma uma naquinha de melão!

Passou-lhe o prato.

— Ai, filha! não sei se poderei entrar nele!... considerou lamentosa a viúva do Espigão, lembrando-se do protesto que fizera contra os pepinos e a sua competente família - senhor doutor, inquiriu ela de Raimundo, melão será dos pepinos?

— Sim, minha senhora, pertencem ambos à dos cucurbitáceos.

— Como? perguntou a velha com a boca cheia de arroz-doce.

— Quer dizer, explicou logo o Freitas, radiante por pilhar uma ocasião de expor os seus conhecimentos, — quer dizer que é um fruto cucurbitáceo, da importante família dos dicotiledônãos, segundo Jussieu, ou das calicífloras, segundo De Candole.

— Fiquei na mesma com a tal família dos califorchons!

— Que família? que família? O que foi que fez ela?! Algum escândalo, aposto? faiscou Amância, pensando, assanhada já, a sentir o cheiro de uma intriga. Quando eu digo!... Não há em quem fiar hoje em dia! Mas quem são esses danados? qual é a família?

— É a dos cucurbitáceos.

— Ah! são estrangeiros!... Já sei, já sei! é uma família de bifes, que esta morando no Hotel da Boavista! É certo, agora me lembro que ainda est'outr'dia uma sujeita ruiva... deve ser mulher ou filha do tal... como se chama mesmo?..

— Quem, D. Amância? A senhora está fazendo uma embrulhada da nossa morte!...

— O tal inglês!

— Que inglês? Ninguém aqui falou em ingleses, nem franceses!

E Mana do Carmo passou a explicar à amiga que se tratava de pepinos e melões.

Casusa continuava a discursar num brinde feito ao Serra (a uma de cujas filhas pretendia); já lhe tinha chamado gênio e agora comparava-o a um lírio pendido na estrada; o bom homem escutava-o, sorrindo, sem compreender; enquanto Raimundo, com a cabeça quase dentro do prato, suportava o Freitas, suspirando pelo fim do jantar, para fugir-lhe. O maçante, elogiava a sua própria memória com a vaidade do costume:

— O senhor ainda não viu nada... segredava ele ao outro. Sei discursos inteiros, longos, que ouvi há dez anos! sei de cor, meu caro doutor, extensas poesias que apenas li duas vezes! Não acha extraordinário?... — Decerto...

E o desalmado, como prova, entrou a recitar “A Judia” de Tomas Ribeiro, que tinha nesse tempo no Maranhão um cheiro ativo de novidade: “Coma branda a noite.

O Tejo era sereno!...”

(continua...)

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