Por Aluísio Azevedo (1895)
Na carta, onde havia uma página, toda inteira, dedicada ao Dr. César, que aliás da primeira remessa tinha já recebido uma particularmente a ele dirigida, só uma fria frase me cabia. Era esta: “Apresenta meus cordiais respeitos a tua mãe e pede-lhe, em nosso nome, que me escreva por ti, quando porventura já não possas fazer.” A única frase, pois, que ele me concedia fora ainda assim determinada pelo amor de Palmira. Não me revoltei: Era o caso do doente que, desvairado pela dor, morde a mão do médico que o opera. Pois me mordesse! Que me mordesse quanto quisesse! Contanto que aquela mesma boca, que me mordia a mão, continuasse no futuro a beijar com duplicado ardor a boca de minha filha!
Não me agastei!, nem me senti menos feliz por isso.
A natureza é boa amiga! Como sabe ela dar a todas as estações da existência novos interesses de vida! novas dores e novos prazeres! Nunca pensei que fosse tão intensa a felicidade de ser avó!...
À proporção todavia que se aproximava o grande acontecimento, comecei a palpitar de impaciência e sobressalto. Desfazia-me em pequenos cuidados com a enferma; afigurava-se-me que era eu a única responsável pelo que viesse a suceder; sentia-me tão dentro daquela situação, que era como se eu fosse o pai e tivesse de ser a mãe daquele filho! Talvez não acreditem, mas juro que me impressionei ainda mais do que quando eu própria estive para dar à luz pela primeira vez!
E agora, inesperadas apreensões vinham perturbar a confiança que eu até aí depositava cegamente nas ótimas circunstâncias em que fora aquele filho concebido. Não descansava um instante, não me descuidava um momento da minha Palmira. De madrugada era eu a primeira a levantar-me e vencer-lhe a indolência, e obrigá-la a vestir-se e a sair comigo, para os passeios matutinos. Arrependia-me agora de lhe ter falado tão abertamente do parto, porque ia começando a descobrir nela também receios e sobressaltos. Mas animava-a com tanto carinho e habilidade, que a boa criança nunca se atreveu a fazer-me a mais leve queixa, mesmo indireta, contra a ausência do marido.
Minha gaveta da secretária estava cheia de livros de medicina, concernentes ao assunto que inteiro me possuía. Sempre que eu pilhava alguma folga, ou quando podia roubar algumas horas ao sono, devorava o Traité de l’art des accouchements de Gazeaux, e tomava notas para discutir depois com o Dr. César, que nesses últimos tempos não nos deixava de visitar todos os dias. Devia já parecer ridícula aos olhos do bom médico com as fumaças de doutora que eu agora me dava na conversa.
E a crise aproximava-se.
Eu já me não pertencia; não tinha a cabeça no lugar; comia sem apetite; passava noites de insônia. Estava tão abatida, ou mais, que minha própria filha, e juro que dentro do meu coração palpitava o feto que ela trazia no ventre.
Mas afinal chegou o dia supremo. A casa revolucionou-se. César estava conosco, felizmente. Não posso afiançar que sofresse eu as dores puerperais, mas sei que sofri muito e que não abandonei minha filha um só instante, até receber nos meus braços um belo menino, perfeito, forte, com o crânio coberto já de cabelo preto.
Oh! Vitória! Vitória completa!
Saltaram-me as lágrimas dos olhos. Tive vontade de misturar meus cansados soluços de avó com aquele angelical vagido, que meu netinho me trazia do mistério da antevida, alguma coisa de um balbuciar divino, que ainda não é voz humana e também já não é simples eco de puro cântico de anjos! Minha filha, quase morta de prostração, branca e fria, como se todo o sangue e toda a vida lhe tivessem escorrido pelo ventre aberto, gemia ainda, devagarinho, e seus gemidos cortavam a alma.
Entreguei a criança ao médico e a uma parteira que nos acompanhava, e deime toda aos cuidados da puérpera. Não me despeguei mais do seu lado, até que ela serenou de todo.
Ah! correu tudo muito bem: confirmou-se a minha convicção de que o bom parto depende das boas circunstâncias de amor em que o filho é concebido. Transbordava-me agora o coração de alegria. Quando vi minha filha fora de perigo e prestados a meu neto os primeiros cuidados, corri ao quarto do oratório, ajoelhei-me defronte da Virgem-Mãe, e aí, com a alma também parturiente e aliviada das ânsias e sobressaltos que a pejavam, agradeci aos céus, entre lágrimas consoladoras, a ventura que eles nos enviavam.
Mas tornei logo para junto da enferma. Tomei-lhe a cabeça no regaço, e foi assim que Palmira adormeceu, como nos outros tempos, quando eu era moça e ela pequenina.
CAPÍTULO XXII
Mês e meio depois do nascimento de meu lindo netinho, recebia Leandro na Europa uma carta que o chamava para junto da esposa.
Fomos buscá-lo a bordo e César foi conosco.
A mulher que restituí aos braços e aos lábios sequiosos de meu genro era de novo a formosa criatura que ele deixara oito meses antes; se não é que, com cumprir o seu mais alto destino de mulher, ganhara em graça e sedução, como certas plantas que só são verdadeiramente belas e viçosas depois de darem o seu primeiro fruto.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.