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#Romances#Literatura Brasileira

O Cortiço

Por Aluísio Azevedo (1890)

— Não volto mais aqui! nunca mais! exclamou por fim a donzela, desgalgando o leito para vestir-se.

— Vem cá! Não sejas ruim! Ficarei muito triste se estiveres mal com a tua negrinha!... Anda! Não me feches a cara!...

— Deixe-me!

— Vem cá, Pombinha! — Não vou! Já disse!

E vestia-se com movimentos de raiva. Léonie saltara para junto dela e pôs-se a beijar-lhe, à força. os ouvidos e o pescoço, fazendo se muito humilde, adulando-a, comprometendo-se a ser sua escrava, e obedecer-lhe como um cachorrinho, contanto que aquela tirana não se fosse assim zangada.

— Faço tudo! tudo! mas não fiques mel comigo! Ah! se soubesse como eu te adoro!...

— Não sei! Largue-me!...

— Espera!

— Que amolação! Oh!

— Deixa de tolice!... Escuta, por amor de Deus!

Pombinha acabava de encasar o último botão do corpinho, e repuxava o pescoço e sacudia os braços, ajustando bem a sua roupa ao corpo. Mas Léonie caíra-lhe aos pés, enleando-a pelas pernas e beijando-lhe as saias.

— Olha!... Ouve!... — Deixa-me sair!

— Não! não hás de ir zangada, ou faço aqui um escândalo dos diabos! — E que mamãe já acordou com certeza!... — Que acordasse!

Agora a meretriz defendia a porta da alcova.

— Oh! meu Deus! Deixe-me sair!

— Não deixo, sem fazermos as pazes...

— Que aborrecimento!

— Dá-me um beijo!

— Não dou!

— Pois então não sais!

— Eu grito!

— Pois grita! Que me importa!

— Arrede-se daí, por favor!...

— Faz as pazes...

— Não estou zangada, creia! Estou é indisposta... Não me sinto boa!

— Mas eu faço questão do beijo! — Pois bem! Está ai!

E beijou-a.

— Não quero assim! Foi dado de má vontade!...

Pombinha deu-lhe outro.

— Ah! Agora bem! Espera um nada! Deixa arranjar-me! É um instante!

Em três tempos, lavou-se ligeiramente no bidê, endireitou o penteado defronte do espelho, num movimento rápido de dedos, e empoou-se, perfumou-se, e enfiou camisa, anágua e penteador, tudo com uma expedição de quem está habituada a vestir-se muitas vezes por dia. E, pronta, correu uma vista de olhos pela menina, desenrugou-lhe a saia, consertou-lhe melhor os cabelos e, readquirindo o seu ar tranqüilo de mulher ajuizada, tomou-a pela cintura e levou-a vagarosamente até à sala de jantar, para tomarem vermute com gasosa.

O jantar foi às seis e meia. Correu frio, não tanto por parte de Pombinha, que aliás se mostrava bem incomodada, como porque Dona Isabel, dormindo até o momento de a chamarem para mesa, sentia-se aziada com o foie-gras. A dona da casa, todavia, não se forrou a desvelos e fez por alegrá-las rindo e contando anedotas burlescas. Ao café apareceu Juju, que a criada levara a passear desde logo depois do almoço, e uma afetação de agrados levantou-se em torno da pequerrucha. Léonie pôs-se a conversar com ela, falando como criança, dizendo-lhe que mostrasse a Dona Isabel “o seu papatinho novo!”

Mais tarde, no terraço, enquanto fumava um cigarro, tomou a mão de Pombinha e meteu-lhe no dedo um anel com um diamante cercado de pérolas. A menina recusou o mimo, formalmente. Foi preciso a intervenção da velha para que ela consentisse em aceitá-lo.

Às oito horas retiraram-se as visitas, seguindo direitinho para a estalagem.

Durante toda a viagem Pombinha parecia preocupada e triste.

— Que tens tu?... perguntou-lhe a mãe duas vezes.

E de ambas a filha respondeu:

— Nada! Aborrecimento...

No pouco que dormiu essa noite, que foi a do baralho com a polícia, teve sonhos agitados e passou mal todo o dia seguinte, com molezas de febre e dores no útero. Não arredou pé de casa, nem para ver os destroços do conflito. A noticia do defloramento e da fuga de Florinda, como a da loucura da velha Marciana, produziu-lhe grande abalo nos nervos.

Na manhã imediata, a despeito de fazer-se forte, torceu o nariz ao pobre almoço que Dona Isabel lhe apresentou carinhosa. Persistiam-lhe as dores uterinas, não vivas, mas constantes. Não teve animo de pegar na costura, e um livro que ela tentou ler, foi por várias vezes repelido.

As onze para o meio-dia era tal o seu constrangimento e era tal o seu desassossego entre as apertadas paredes do número 15, que, malgrado os protestos da velha, saiu a dar uma volta por detrás do cortiço, à sombra dos bambus e das mangueiras.

Uma irresistível necessidade de estar só, completamente só, uma aflição de conversar consigo mesma, a apartava no seu estreito quarto sufocante, tão tristonho e tão pouco amigo. Pungia-lhe na brancura da alma virgem um arrependimento incisivo e negro das torpezas da antevéspera; mas, lubrificada por essa recordação, toda a sua carne ria e rejubilava-se, pressentindo delicias que lhe pareciam reservadas para mais tarde, junto de um homem amado, dentro dela balbuciavam desejos, até ai mudos e adormecidos; e mistérios desvendavam-se no segredo do seu corpo, enchendo-a de surpresa e mergulhando-a em fundas concentrações de êxtase. Um inefável quebranto afrouxava-lhe a energia e distendia-lhe os músculos com uma embriaguez de flores traiçoeiras.

Não pôde resistir: assentou-se debaixo das árvores, um cotovelo em terra, a cabeça reclinada contra a palma da mão.

(continua...)

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