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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

O trabalhador, que acabava de oferecer-se para levar Olímpia, era um moço de uns vinte e cinco anos. Forte, belo de vigor. Estava nu da cintura para cima, e a riqueza dos seus músculos patenteava-se ao sol com um arrojo de estátua. Os cabelos, empastados de suor, caíam-lhe em desalinho sobre a fronte tostada.

— Vamos! disse-lhe o comendador; não convém demorar-nos aqui... Veja se a pode trazer carregada!

O rapaz passou um dos braços na cintura de Olímpia e com o outro a suspendeu pelas curvas dos joelhos, chamando-lhe todo o corpo contra o seu largo peito nu. Ela, na inconsciência da síncope, deixou pender a cabeça sobre o ombro dele e continuou adormecida.

E os dois seguiram pela irregularidade íngreme do caminho. Era preciso muito cuidado para não rolarem juntos. Às vezes em um solavanco mais forte, o rosto gelado de Olímpia ia de encontro à face esfogueada do trabalhador.

Ela afinal soltou um gemido e abriu vagarosamente os olhos. Não perguntou onde estava, não indagou quem a conduzia, apenas esticou nervosamente os membros num estremecimento preguiçoso, para de novo se estreitar ao peito do rapaz, cingindo-lhe os braços em volta do pescoço. E tornou a cair no seu entorpecimento; ficou com os olhos a meio cerrados, as narinas sôfregas, os seios ofegantes e os lábios molemente separados por um espasmo volutuoso. Sentia-se muito bem no aconchego tépido daquele corpo de homem, penetrada pelo calor lascivo e vivificante do colo másculo que a sustinha. O contato daquela vigorosa carnação, criada ao ar livre e enriquecida pelo trabalho, sacudia-lhe os sentidos e acordava-lhe em sobressalto o sangue entorpecido pela ociosidade.

A descida tornava-se cada vez mais penosa. O moço fazia milagres de equilíbrio para não lhe faltar o pé. Olímpia parecia escorregar-lhe dos braços; ele a puxou mais para o ombro e a cingiu mais estreitamente contra o peito. Ela suspirava de leve, como em um sonho de amor, sentindo no rosto a respiração quente e acelerada do cavouqueiro, e nas carnes macias da garganta o roçagar das suas barbas ásperas e mal tratadas.

Quando chegaram embaixo, já o Papá Falconnet, que assistira ao episódio dos fundos do seu hotel, os esperava com duas cadeiras.

O velho assentou-se logo em uma delas; enquanto na outra o trabalhador depunha Olímpia.

Foi então que ela abriu de todo os olhos.

— Ah! exclamou, cobrindo o rosto com as mãos, sem poder encarar para o rapaz que a trouxera ao colo. Fazia-lhe mal agora olhar para aquele homem de corpo nu, que defronte dela limpava com os dedos o suor da testa. As faces tingiram-se-lhe de pronto rubor e uma aflição terrível apoderou-se-lhe da garganta. Olímpia chamou com um gesto o pai para junto de si e entre gritos começou a estrebuchar nervosamente.

Foi uma crise fortíssima. Ela nunca havia sofrido igual.

O Papá Falconnet apresentou logo um frasquinho de sais e deu providências para que se recolhesse a enferma à casa dele, sem que fosse necessário dar a volta pela rua. Abriu-se de improviso, uma passagem na cerca do fundo da avenida, e Olímpia, carregada na cadeira, era dai a pouco conduzida a um aposento preparado às pressas.

A crise cessou pouco depois, mas Olímpia sentiu febre, dores de cabeça e vontade de vomitar. Mandou-se chamar o médico que ficava mais próximo, e dentro de três horas a enferma voltava no seu carro para Botafogo.

No dia seguinte, ainda o pai de Olímpia não tinha perdoado a si mesmo a sua condescendência da véspera de consentir a maldita ascensão à pedreira, e já a filha lhe surgiu no quarto, intimando-o para voltarem incontinenti ao Rio Comprido.

— O quê?!... exclamou o velho, muito espantado; pois ainda não ficaste satisfeita de Rio Comprido?... Queres fazer outra visita à pedreira?!...

— Não, disse ela de melhor humor que nos outros dias; quero apenas passar algum tempo naquela casa onde me recolheram.

— Na Avenida Estrela?! Ora, minha filha!

— É verdade, respondeu ela; é o único lugar que agora me convém...

— Mas, Olímpia, que idéia é essa tão extravagante?! Pois então tu queres ir meter-te ali, minha filha?... Ora não penses em semelhante coisa!

Mas, como a caprichosa se mostrasse inabalável na sua resolução, o velho cedeu afinal, e na tarde desse mesmo dia entraram os dois na Avenida Estrela, como vimos pelo fecho do capítulo passado.

CAPÍTULO XVII

A PEDREIRA

(continua...)

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