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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Calma, senhores! Calma! Bradava ele. — Calma por quem sois! Esqueceivos de que a única arma do homem civilizado deve ser a palavra, escrita ou falada, a idéia, enfim?! Esquecei-vos de que cada um de vós possui um cérebro, onde reside uma partícula da sabedoria divina, e que só com esse cabedal podeis cruzar as vossa opiniões, sem que seja necessário vos agatanhardes como animais selvagens ferozes?!...Virgílio, meus senhores, o imortal Virgílio, o verdadeiro fundador da eloqüência, diz muito acertadamente na sua Eneida, Livro IV, com referência à desditosa Dido — Pendet que iteram narrantis ab ore! Se podemos, pois, convencer com palavras, para que havemos de recorrer aos murros?!

E , loco do costumado . entusiasmo, dava punhadas frenéticas na mesa e perguntava em torno com os olhos enviesados e as cordoveias intumescidas:

— E o que dizia Salomão?! E o que dizia Salomão, na sua inquebrantável sabedoria?! Salomão, meus senhores...

Mas o orador foi interrompido violentamente pelo Coqueiro, que desejava saber se ele podia dispensar o seu quarto ao guarda –livros e mudar-se para o n.° 6 do segundo andar.

Haviam combinado essa mudança enquanto o tagarela discursava.

— Salomão! Sr. Dr. Coqueiro, Salomão foi um prodígio!

— Pois bem, já sabemos disso, e agora o que nos convém saber é se V. S.a cede ou não cede o seu quarto...

Mas não foi necessário tal assentimento, porque Amâncio, depois de um sinal de Lúcia, declarou que cederia o seu gabinete por qualquer um dos quartos do segundo andar.

Coqueiro espantou-se. — Querer trocar o gabinete por um quarto do segundo andar!...Ora, seu Amâncio!

— Faz-me conta, respondeu secamente o provinciano. E, chegando-se para o locandeiro, acrescentou-lhe ao ouvido: — Logo mais te direi a razão por que...

Ficou resolvido que o guarda-livros passaria a ocupar o gabinete de Amâncio; este iria para o n.° 6, e o Paula Mendes e mais mulher deixariam de comer à mesa de Mme. Brizard, continuando, porém no n.° 5, até que liquidassem as suas contas.

* * *

Na tarde desse mesmo dia, como fizesse bom tempo, as senhoras combinaram em tomar o café na chácara. Mme. Brizard, Amelinha, Lúcia e Nini, mal acabaram de jantar, desceram ao terraço. Coqueiro e Amâncio já iriam também para o cavaco. — Tinham primeiro que dar dois dedos de conversa.

Os dois rapazes meteram-se no vão de uma janela da sala de visitas, e Amâncio, com acentuações de quem detesta imoralidades, disse ao outro, sem transição:

— Coqueiro, estou aqui há pouco tempo, mas estimo tua família, como se fosse a minha própria, e, por conseguinte, entendo que é do meu dever me abrir contigo, sempre que nesta casa descobrir qualquer coisa que possa Ter conseqüências graves...

— Mas que há? Perguntou o outro a fitá-lo, com muito empenho. — Trata-se de Nini, disse o provinciano em voz soturna.

Coqueiro remexeu-se no canto da janela.

— Sabes, continuou aquele, — que a pobre menina sofre horrivelmente dos nervos, e creio até que tem qualquer desarranjo na cabeça...

— Sim, por quê?

— Ë uma enferma, que, e não tivermos muito cuidado com ela, pode vir a dar sérios desgostos a ti e tua família...Mas, desembucha, o que é que houve?...

— Ë que ela, naturalmente em conseqüência da moléstia, coitada, às vezes faz certas coisas que para mim ou qualquer outro rapaz de bons princípios não valem nada, mas que, se caírem nas mãos de um desalmado...sim! Tu sabes que hás homens para tudo neste mundo!...

E, Amâncio, inflamado pelos princípios morais que ele só cultivava teoricamente, parecia mais que ninguém preocupado com a pureza dos costumes.

— Mas, afinal, que fez ela? Perguntou o Coqueiro, impacientando-se.

— Ora, disse o colega , desgostosamente, — tem feito o diabo...Ainda ontem, quando me levantei da mesa , segui-me até à sala e...

— E...

— Principiou a fazer tolices. A pobrezinha estava como não calculas!...Tive que recorrer à violência para contê-la; o resultado foi aquele ataque!...

E, vendo o ar de espanto que fazia o Coqueiro:

— Digo-te isto, porque me parece que tenho obrigação de to dizer se, porém faço mal, desculpa!...

— Mal? Ao contrário! Decerto que ao contrário! Fico-te muito grato!

E abraçando-o:

— Acabas de provar que és um homem de bem! A tua ação é de um verdadeiro amigo: não imaginas o quanto eu a aprecio.

— Cumpri com o meu dever...observou o provinciano modestamente.

— Obrigado! Muito obrigado! Fico prevenido. De hoje em diante não acontecerá outra!

— E agora, compreendes por que não me convinha ficar embaixo, no gabinete?...concluiu Amâncio.

— Oh!...Isso, porém, não era motivo para que deixasses o teu gabinetezinho... Eu daria as providências necessárias!...

— Não, filho, nesta questões de família sou muito rigoroso. E agora, o que está feito, está feito! Vou para o segundo andar; é até mais fresco!... E, depois de algumas ligeiras considerações sobre o mesmo assunto, os dois rapazes trocaram comovidos um enérgico aperto de mão e desceram juntos à chácara, onde, debaixo das latadas de maracujá, os esperavam as senhoras, palestrando em familiar camaradagem.

* * *

(continua...)

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