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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

Houve um geral sobressalto. Ergueram-se todos. Puxaram pelas espadas, e as damas empalideceram, soltando gritos de pavor.

Ângelo parecia possesso. A lamina do seu aço florentino reluzia no ar, ameaçadoramente. E ele sem deter-se um instante no mesmo lugar, varria aos pontapés os estorvos que encontrava nos seus saltos de esgrimista.

— Venham todos! bradava, sacudindo os cabelos. Venham todos, cáfila de brutos sensuais! Venham, que os rejeitarei na ponta deste ferro!

— Ângelo! Ângelo !

— Com a vida o pagarás! exclamou um hércules veneziano, que acabava de erguer-se sacando o punhal.

— Morrerás como um javali! gritou outro, acudindo de arma em punho.

E ouviu-se um coro de imprecações e frases de terror.

— Um conflito?! ...

— Calma! calma!

— Diabos levem os intrusos!

— Morra quem perturba o nosso gozo!

— Matem-no e lancem o cadáver ao mar! — Fiquemos com a mulher, que é bonita!

Entretanto, um cavalheiro colocara-se defronte de Ângelo, com a espada em desafio.

Mediram-se as laminas, os ferros cruzaram-se no ar: os dois fizeram uma rápida oração entre os dentes cerrados pela cólera, e o combate começou feroz.

Abriu-se um instante de silencio, em que o retintim metálico das duas espadas era o único que se ouvia.

Os contendores arfavam, desesperado cada qual pela destreza e galhardia do seu adversário.

— Agora! bramiu Ângelo, caindo a fundo contra o inimigo.

E atravessou-o de lado a lado.

— Oh! gritaram todos, correndo para o lagar do duelo.

E cercaram Ângelo numa trincheira de espadas nuas.

— O meu punhal! berrou o perseguido, desembainhando a terrível arma, que lhe dera o Demônio do Ouro. Assim o querem?... Assim seja!

E abriu aos pulos para todos os lados, cravando unia punhalada a cada salto.

Um a um, iam caindo todos em volta dele, expirando cada qual entre gritos de agonia e uivos de cólera sequiosos de vingança.

Do meio para o fim desta singular hecatombe, os que não tinham recebido o golpe fatal, fugiram, lançando-se do cais às águas da baía. As mulheres rolavam pelo chão, estrebuchando espavoridas, ou jaziam sem sentidos, pálidas e estateladas como cadáveres.

Ângelo viu-se afinal senhor do campo e, ofegando de cansaço, limpou o punhal tinto de sangue nas roupas de uma das suas vítimas.

— Fujamos! disse Alzira, a enxugar-lhe com o lenço de rendas a fronte ressumbrante de suor. Fujamos antes que amanheça!

— Não! opôs Ângelo. Vamos beber ainda, e esperamos a aurora abraçados os dois sobre estes coxins feitos para a volúpia!...

Mas, no momento em que levava aos lábios a ânfora de vinho, arremessou-a para o lado, soltando um terrível grito de pavor.

Defronte dele, com os braços cruzados, os olhos faiscantes e o rosto fulo e sinistro como uma caveira, erguia-se o espectro do macilento cura de Monteli.

Ângelo recuou fulminado.

E o pároco, sem descruzar os braços, caminhou para ele atravessando-o com o seu claro olhar de sacerdote intransigente.

— Crápula! exclamou, chegando-lhe a boca ao rosto. Assassino! Bêbedo! Ladrão!

O amante de Alzira pôs-se a tremer. O outro prosseguiu:

— Em que imundo esgoto perdeste tu a tua vergonha e a tua consciência, miserável?... para andares sem pudor a vagabundear ao lado de uma infecta prostituta? ...

— E que tens tu com isto, hipócrita?... interrogou o Ângelo boêmio, recuperando o sangue frio. Acaso vou eu tomar-te contas das ridículas pantominices que levas a praticar durante o dia em Monteli?... Interrompo porventura a farsa das tuas missas, quando charlataneias o teu irrisório latim e ergues ao ar, espetaculosamente dois dedos de vinho e três de obreia, proclamando que é sangue e corpo de Cristo... o que vais ingerir?... Já fui eu lá dizer-te ao ouvido que isso é uma truanice, tão digna de desprezo quanto de lástima?... Já fui eu lá insinuar aos teus devotos que os teus milagres são mentiras, como é mentira a tua fé, como é mentira a tua ciência, como é mentira a tua religião?... Não me venhas pois aborrecer, onde não és chamado, e volta para a tua pestilenta aldeia, que tens lá quem precise dos teus desvelos e dos teus conselhos. Dá-los ao filho da viúva Thevenet!

O presbítero, ouvindo este nome, estremeceu por sua vez. Sacudiu a cabeça e disse revoltado:

— Até tu, alma perdida! até tu finges não compreender a verdade a respeito dessa infeliz criança.

— Não sou eu quem te acusa; são todos! Nada mais faço do que repetir a voz do povo, que é a voz de Deus! Some-te da minha presença!

— Sim! mas deixa essa mulher!

— Por que? Ah! compreendo! são os ciúmes que te agitam, hein? Magnífico!

— Deixa essa mulher, já disse!

— Queres que a deixe contigo, talvez!...

— Obedece-me ou eu tomar-ta-ei à força!

— Não tentes experimentá-lo, porque ficarias aqui mesmo estendido por terra com esses outros imprudentes que aí estão! Vai-te embora, desgraçado!

O pároco foi ter com Alzira e tomou-lhe as mãos.

— Acompanha-me, disse, com ar de súplica.

A cortesã olhou para ele, olhou para o outro, e abaixou os olhos, hesitando perplexa.

— Não vens comigo?... interrogou o padre, arfando de cólera e ciúme.

(continua...)

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