Por Aluísio Azevedo (1897)
— Não sei por que, mas vou, cada vez mais lhe tomando birra... As suas visitas já me fatigam.
— Creio que, no fim de contas, muito desconfiado é o que tu és...
— Eu?! Ora, essa! Desconfiado, por que e de quem?!
É um modo de dizer. Vamos formular a lista dos convivas.
E Ambrosina instalouse na sua mimosa secretária de ébano com incrustações de madrepérola, e dispôsse a escrever.
— Pronto! disse ela. Vai citando os nomes.
— Gaspar... lembrou Gabriel em primeiro lugar.
— Não! disse Ambrosina; não queremos festa de dia de finados.
— Mas havemos de não convidar o Gaspar?
— Nesse caso, dispenso aí festa.
— Pois risca lá o Gaspar.
Ambrosina beijou a testa de Gabriel, e continuou:
— Mamãe e Seu Alfredo...
Gabriel sacudiu afirmativamente a cabeça.
— O Reguinho e o Melo... acrescentou ela.
Foram nisto, porém, interrompidos pela campainha do corredor.
— Quem será? perguntou Ambrosina.
Era o Médico Misterioso. Precisava falar em particular ao enteado.
Ambrosina franziu o nariz, e deixouos a sós.
Gaspar, ao tornar de Petrópolis, ficou perplexo com a notícia da nova existência de Gabriel. Correu a vêlo e, logo à primeira conversa, compreendeu, não só que o pobre rapaz era dominado pela amante, como também que esta possuía em si todos os elementos de uma mulher deveras perigosa.
O resultado desta observação foi ficar o bom Gaspar bastante sobressaltado a respeito de seu filho querido. Ambrosina, que aliás lhe mostrava a princípio tanto respeito e parecia dedicarlhe sincera estima, não o recebera com boa cara; de sorte que o Médico Misterioso evitou, quanto possível ter de voltar à casa dela.
Estava nestas circunstâncias, quando foi surpreendido pela inesperada visita do Sr. Windsor. O negociante inglês apareceulhe desarmado da sua habitual fleuma, e faloulhe da filha com franqueza. Gabriel representava um papel importante na triste sorte daquela menina.
Gaspar principiou então a acompanhar de perto a moléstia de Eugênia.
Ao ir ter com ela, o estado da rapariga o comoveu. Entretanto, a mísera não lhe queria confessar as causas verdadeiras do seu sofrimento; tinha um como pudor da desgraça. Gaspar, embalde, fazia por merecerlhe a confiança, ela era sempre a mesma reservada e orgulhosa.
Quando o médico lhe falava de Gabriel, a pobre enferma sorria tristemente e disfarçava as lágrimas.
Impressionava ao vêla, tão pálida e fraca, estendida sobre as almofadas de uma poltrona; entristecia contemplar o negrume arroxeado dos seus olhos e as sinistras manchas das suas faces descoradas. Estava outra! desaparecialhe a voz na garganta, e de vez em quando a tosse lhe sacudia todo o corpo, como para o despertar do marasmo que a prostrava.
Acabada a crise, ela sorria.
O Sr. Windsor andava estonteado, chorava. Ursulina fazia promessas aos santos, e até Emília parecia triste. A casa toda se cobriu de luto e melancolia.
Gaspar persistia em lá ir, e mostravase incansável com a enferma.
Foi então que ele procurou Gabriel pela terceira vez.
O enteado, logo que o viu, notoulhe a grande preocupação que lhe traía nos gestos; abaixou os olhos e corou.
— Como até agora não me apareceste em casa, disse o Médico Misterioso, decidi vir à tua procura, disposto a cumprir com o meu dever, custe o que custar.
— A meu respeito?...
— Sim, meu filho, a teu respeito, e a respeito também de uma pobre menina, a quem estás assassinando, sem consciência do crime que cometes!...
— Assassinando, eu?! Ah! tratase de Eugênia, não é verdade?
— É justamente dela que se trata; é desse pobre anjo, cujo coração encheste de ilusões, para depois cruelmente o despedaçares.
Gabriel abaixou de novo os olhos, deixando agora pender a cabeça, intimamente aflito.
— Cumpro um dever! continuou Gaspar. Venho buscarte, e estou resolvido a lançar mão de todos os meios para te carregar comigo. Se não vieres, Eugênia morrerá, e serás tu o seu assassino...
Gabriel não dava uma palavra. Arfavalhe o peito.
— Além disso, considerou o outro, aonde te poderá conduzir a existência que aqui levas? Principio a temerlhe as conseqüências. Estás um perfeito ocioso; já não estudas, já não trabalhas!... Nada mais fazes do que amar uma diabólica mulher, que te absorve o espírito e te corrompe o coração!
— Enganaste, Gaspar!... Ambrosina não é o que supões...
— De sobra conheço a vida para me haver enganado. Jamais conseguirás ser feliz, caminhando deste modo e vivendo no meio da escória que te cerca. Não serão os Regos e os Melos Rosas que te conduzirão ao bom caminho! Estás na idade em que todo o moço decide do seu destino... Se não mudares de conduta, se te não resolveres a trabalhar, se te não fizeres homem de bem, se não tratares enfim de aceitar a responsabilidade da tua vida — virás a ser fatalmente um desgraçado! O fato de haveres nascido rico, não te dispensa dos teus deveres de homem e de cidadão, aumenta ao contrário a tua responsabilidade, porque não tens sequer a desculpa da miséria.
— Acredita, Gaspar, que as cousas mudarão!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.