Por Visconde de Taunay (1872)
—Conto-lhe tudo papai... Não me queira mal... Foi um sonho... O outro dia, antes de Manecão chegar, estava sesteando e tive um sonho... Neste sonho, ouviu, papai? minha mãe vinha descendo do céu... Coitada! estava tão branca que metia pena... Vinha bem limpa, com um vestido todo azul... leve, leve!
—Sua mãe? balbuciou Pereira tomando de ligeiro assombro.
—Nhor-sim, ela mesma...
—Mas você não a conheceu! Morreu, quando você era pequetita... . .
—Não faz nada, continuou Inocência, logo vi que era minha mãe... Olhava para mim tão amorosa!... Perguntou-me: Cadê seu pai? Respondi com medo: Esta na roga; quer mecê, que ele venha? — Não, me disse ela, não é preciso; diga-lhe a ele que eu vim ate cá, para não deixar Manecão casar com você, porque há de ser infeliz... muito!... muito!...
—E depois? perguntou Pereira levantando a cabeça com ar sombrio, girando os olhos.
—Depois... disse mais... Se esse homem casar com você, uma grande desgraça há de entrar... nesta casa que foi minha e onde não haverá mais sossego. Bote seu pai bem sentido nisso. E sem mais palavra, sumiu-se como uma luz que se apaga.
Cravou Pereira olhar inquiridor na filha.
Uma suspeita lhe atravessou o espírito.
—Que sinal tinha sua mãe no rosto?
Inocência empalideceu.
Levando ambas as mãos à cabeça e prorrompendo em ruidoso pranto, exclamou:
—Não sei... eu estou mentindo... Isto tudo é mentira! mentira! Não vi minha mãe!... Perdão, minha mãe, perdão!
E, caindo de bruços sobre a cama, ficou imóvel com os cabelos espargos pelas espáduas.
Contemplou-a Pereira largo tempo sem saber que pensar, que dizer.
Súbito se inclinou sobre o corpo da filha e ao ouvido lhe segredou com muita energia:
—Nocência, daqui a bocadinho Manecão chega da roça... você ha de ir para a sala... se não fizer boa cara, eu a mato.
E erguendo a voz:
—Ouviu? Eu a mato!... Quero antes vê-la morta, estendida, do que... a casa de um mineiro desonrada...
As pressas saiu do quarto, deixando Inocência na mesma posição.
—Pois bem, murmurou ela, já que é preciso... morra eu!
CAPÍTULO XXVIII
EM CASA DE CESÁRIO
Ah! a perspectiva que pode mais docemente sorrir ao meu coração é a do aniquilamento.
(Klopstock, A Messiada)
Cirino, logo que se estabeleceu em casa do seu novo hospedeiro, tratou de lhe captar as simpatias. Medicou um escravo
que estava de cama, fez valer o conhecimento e amizade que tinha com
Pereira, conversou muito a respeito dele e incidentemente deu noticias de Inocência.
Atalhou-o Antônio Cesário neste ponto.
—Mecê a viu? perguntou ele.
—Pois não, respondeu o moço, por sinal que a curei de sezões.
—Ah! É uma guapa rapariga...
—Parece-me...
—Isso é... falo assim, porque afinal... daqui a poucos dias está casada... não sabe?
—Ouvi contar.
—Pois é verdade. O noivo passou por cá e levou a minha licença. É homem de mão-cheia. A pequena deve estar contente. Ah! nem todas no sertão são felizes assim. Tem-se por aqui o mau vezo de arranjar casamentos as cegas, e às vezes se encambulha um mocetão com uma fanadinha ou então uma sujeita de encher o olho com algum rapaz todo engrouvinhado...Cruz! E, uma vez dada a palavra, acabou-se...
Achou Cirino a ocasião própria e redargüiu com vivacidade:
—Então o senhor não é desse parecer.
— Conforme, respondeu logo Cesário com reserva. Aos pais é que convém inziminar essas coisas.
—Boa dúvida... Mas... se... sua afilhada... não gostasse de Manecão?
—Não gostasse?
—Sim.
—E que nos importa isso? Uma menina como ela não sabe o que lhe fica bem ou mal... Ninguém a vai consultar. Mulheres, o que querem é casar. Não ouviu já o patrício dizer que elas não casam com carrapato, porque não sabem qual é o macho?
E Cesário sorriu.
Depois, fechando de repente a cara, perguntou:
—Por que é que estamos a dar de língua nesse particular? Não sou amigo disso. Quer-me parecer que mecê é um tanto namorador. . .
—Eu? protestou Cirino com vivacidade.
—Boa dúvida. Eu cá nem falar nelas quero. Mulher é para viver muito quietinha perto do tear, tratar dos filhos e criá-los no temor de Deus; não é nem para parolar-se com ela, nem a respeito dela.
Sempre as mesmas teorias de Pereira: a mesma grosseria repassada de desprezo ao sexo fraco, a mesma suscetibilidade para desconfiar de qualquer pessoa ou de qualquer palavra que lhes parecesse menos bem soante aos prevenidos ouvidos.
—Minha afilhada, continuou Cesário, deve levantar as mãos para o céu.
Achou um marido que a há de fazer feliz e torná-la mãe de uma boa dúzia de filhos. Estremeceu Cirino, mas nada disse.
Por toda a parte esbarrava de encontro a preconceitos que nada podia vencer.
Nessa mesma tarde quis montar a cavalo e voltar para Sant'Ana entretanto, o pensamento da resistência com que Inocência encetara a terrível lata com seu pai, atuou em seu espírito e o reteve.
Decidiu-se a atacar o touro pelas aspas.
Restar-lhe-ia ao menos o consolo do desabafo, e num jogo perdido arriscava ainda ousado lance.
—Senhor Cesário, disse ele na manhã seguinte, preciso muito falar-lhe em particular.
—A mim?
—Sim, senhor.
—Pois, estou aqui às suas ordens.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.