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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Mas não estava completo o serviço. Francisco veio outra vez á terra, e tendo tirado um fuzil do saco vazio que pendia do cabeçote da cangalha, encaminhou-se para uma macahibeira que a alguns passos aparecia solitária. Umas folhas secas, que a tempestade tinha abatido aí, foram apanhadas pelo intrépido matuto, e com elas improvisou ele um facho.

Então, voltando-se para a tropa disse:

- Vamos passar o rio. Eu vou na frente, feito guia. Com o homem ninguém pode, comandante. É o bicho mais valente que eu conheço. Qual cobra, nem onça, nem rio, nem raio! Quando o homem é homem, fique certo que vence pedras, água, o próprio fogo.

E meteu-se imediatamente no liquido elemento.

Quem souber o que é um rio cheio, nos caminhos do norte, especialmente o Itapirema, que pelo inverno costumava arrebatar e ainda arrebata às vezes algumas vidas, ajuizará da coragem de Francisco e do serviço que prestava. O rio roncava e estorcia-se ainda irritado e ameaçador. Mas a fúria que causava horror a quem um momento atrás levara a vista ao mulunguzeiro, essa, com a ausência da folhagem, tinha diminuído, deixando que as águas corressem mais livremente e menos arrebatadas que antes.

Levaram talvez um quarto de hora a romper o vasto mar, ora em linha reta na direção do norte, ora contornando cotovelos de terra firme.

De repente uma luzinha apareceu como santelmo, na margem fronteira. Era o lume da casinha de um morador do engenho.

- Estamos da outra banda, minha gente. Ali está a casa do Manoel Felix, onde poderemos tomar algum trago. Acho-me todo resfriado.

Quando pisaram terra, Gil Ribeiro, aproximando-se de Francisco, dirigiu-lhes estas palavras:

- Obrigado, camarada. Você nos prestou um serviço que não tem preço.

- Ora qual, seu comandante. eu também estou doido por ver a minha gente.

A noite estava fria, mas clara. A solidão era profunda, e o mato, onde como fogos fátuos, luziam interpoladamente os pirilampos, soturno e medonho.

Mas por entre arvores ramalhudas, moitas bastas, barreiras nuas, mostrava-se a estrada a todas as vistas, figurando o leito arenosos de um riacho que secara.

O dia vinha rompendo, quando descobriram a massa sombria da mata de Bujari. O Cajueiro estava a menos de cem braças, oculto por um cotovelo que formava a estrada.

Sentindo o coração pular-lhe de contente, Francisco virou-se para Gil:

- Seu comandante, vossa senhoria dá licença que eu vá adiante acordar minha mulher e meu filho? Estou que não posso me conter.

- Pode ir, meu bom companheiro. Corra já. É natural a sua impaciência. A nossa casinha fica ali adiante, na beira do caminho, à direita, continuou Francisco. A que fica a esquerda é a de seu padre Antonio. Até logo, seu comandante.

Francisco esporeou o castanho, que, não obstante vir caindo de fome e enfado, se empinou, ainda debaixo das pernas do senhor, naturalmente por ter sentido o cheiro da manjedoura de casa, e, contornando o cotovelo da estrada, desapareceu quase de repente da vista dos que ficavam atrás.

- Estou cativo deste matuto, disse Gil, voltando-se para os companheiros.

- Este profundo amor da família, comandante, é um dos dotes naturais do nosso almocreve, disse Felipe Bandeira.

- Bem sei. Em minha longa vida poucos tenho encontrado que desmintam este modelo. Mas o que acho especial em Francisco é o desembaraço, a graça, a franqueza que põe em suas palavras e ações. É verdade, disse o alferes Teixeira. Quase sempre os matutos se tornam bisonhos, quando se acham com pessoas a quem devem respeito.

- Se tivesse meios, era capaz de obsequiar-nos com um lauto banquete. Assim parece. Mas... que vem a ser aquilo, comandante? perguntou Felipe Bandeira, apontando para frente.

- Tinham dado a volta do caminho e entravam no Cajueiro. A casa do padre Antonio apareceu logo aos olhos de todos, à esquerda, como dissera Francisco; mas no ponto onde se devia mostrar a casa deste, o que eles viram foi um montão de cinzas, de que se levantavam ainda fumo e restos de chama por entre algumas paredes, esburacadas e enegrecidas.

- O cavalo castanho, entregue de todo à fome que trazia, devorava, sem cavaleiro, a grama verde, que guarnecia a estrada. Grande desgraça houve por aqui! exclamou Gil.

E atirou-se para diante da tropa e com pouco chegou ao pé das ruínas fumegantes.

- Francisco? Francisco? Chamou ele, sem poder dominar a sua comoção. Que foi isto, meu amigo?

O matuto, quase a queimar-se nos barrotes e caibros que ainda ardiam por entre o barro caído das paredes, revolvia com um ferro de cova, semelhando visão fantástica, os paus e a terra abrasada. Ouvindo a voz de Gil, respondeu:

- Estou desgraçado, seu comandante. Puseram-me fogo na casa, como vê. Mas o que me aterra é pensar que podem estar debaixo destes torrões minha mulher e meu filho queimados!

- Não há de ser assim, Francisco.

(continua...)

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