Por José de Alencar (1872)
Tiradas as últimas fumaças do “regalia”, e metida a ponta do charuto em um talo da palmeira, com o respeito que o verdadeiro fumante vota às cinzas desse companheiro e confidente de mágoas como de prazeres, ergueu-se o candidato, deu alguns passos pelo jardim e voltou para o mancebo que o esperava apoiado ao esteio do caramanchão:
- Uma coisa lhe asseguro, meu colega. Se os moços de talento, que vão começar a sua carreira, ouvissem o conselho de minha experiência, não desbotariam por certo a flor de sua inteligência nesse mister ingrato, de urdir enredos forenses, e desbastar autos, consumindo a mocidade na incessante labutação de borrar o papel e a consciência.
- O que fariam então?
- Para que se matarem a construir pedra a pedra uma posição às vezes bem medíocre, se podem tomar de assalto o futuro, e conquistar a reputação d’un coup de main, como fazem por aí os espertos? O processo é simplíssimo. Marcase entre os vultos notáveis do país aquele que mais convém à ambição do pretendente: um estadista, se o fuão destinase à política; um literato, se o fuão aspira a escritor. Escolhido o alvo, assesta o sujeito contra ele toda sua metralha: a mentira, a injúria, o insulto grosseiro. A cidade ocupa-se imediatamente do escândalo. “Quem é?... Quem é que ousa atacar o homem eminente?” Conhecidos, mas principalmente os amigos, correm açodados à compra do pasquim; comentam as insolências e vão com uma caramunha de jesuíta propalando a notícia... O autor, de fuão que era na véspera, torna-se personagem; todos inquirem dele, apontam-no quando passa, repetem seu nome como um epíteto do caráter por ele agredido e atassalhado. Assim abre-se caminho até à celebridade, que é a base de toda a grandeza. Obtido esse pedestal, “o temível”, ou o parvenu, como o chamam os franceses, pode-se deitar à espera das honras e pepineiras que lhe chovem a mancheias. Só lhe falta um casamento rico, para coroar a obra de sua rápida fortuna. O casamento rico é em verdade um achado da maior importância. Se o indivíduo não tem pátria, nem família, dá-lhe uma apresentável; se já possui esses trastes, ficam-lhe duas, o que não é para desprezar. São duas amarras para tudo; lá e cá, diz-se com toda a cerimônia, “nosso país”. Além disso traz o casamento a fortuna patrimonial, que tem sempre uma certa respeitabilidade, e serve para decorar umas vergonhas e misérias do passado. Ora, a um homem de recurso não é difícil, desde que trepou ao pedestal da celebridade, ou por outra, desde que se tornou um “temível”, não é difícil arranjar uma aliança nessas condições.
Sustando a palavra um instante para observar-lhe o efeito na fisionomia de Ricardo, que o escutava com repugnância, concluiu o Nogueira:
- Eis, meu colega, como um hábil pelotiqueiro de um passe escamoteia parte da reputação por outros laboriosamente adquirida; e com esta sorte edifica um brilhante futuro. Experimente!
Ricardo até ali escutara apenas com tédio o que ele tomava por sarcasmo pungente; à última palavra alteou a fonte com indignação:
- O senhor não fala seriamente!
Desfechou o Nogueira uma gargalhada cromática:
- Decerto! Como se há de falar seriamente, quando é tão grotesca a verdade? Não lhe expendi opinião minha; referi o fato; olhe ao redor de si, e vê-lo-á talvez bem de perto.
- Explique-se V. Ex.ª; não o compreendo.
- Quando abrir os olhos, compreenderá.
E Nogueira solfejando a sua risada dirigiu-se para a casa.
Enquanto a um canto retirado do jardim se travara tão interessante conversa entre os dois colegas, do lado oposto se havia formado uma roda, a que servia de eixo ao Bastos.
O piquenique derrotara o nosso corretor, que mostrava-se um tanto amarrotado, nas feições e nas esperanças. As barbas já não tinham aquela simetria irrepreensível que dava-lhes a imobilidade do postiço. Uma bomba na praça não houvera estrompado nosso pretendente, como aquele maldito passeio à “Vista dos chins”.
Quando, adiantando-se à comitiva, chegara à casa na esperança de ali encontrar a filha do banqueiro, achou-se em branco. Retrocedeu já um tanto azoado, e de todo ficou, vendo aparecer na volta da estrada Guida e Ricardo em conversa animada.
Foi um golpe para o corretor que viu a bancarrota iminente sobre sua empresa matrimonial, que na véspera ainda parecia-lhe tão próspera!
Jantou mal, pensando no quanto é vária a fortuna, e incerta a carreira do comerciante.
Contudo não descoroçoava ainda o Bastos; tinha fé no jeito e habilidade do Soares, que bem sucedido sempre em todas as transações, não havia de errar a boa mão, justo em negócio tão do peito, e do qual dependia a sorte de sua filha.
Ao levantar da mesa, tratou o corretor de colher informações exatas acerca do passeio; queria saber ao certo o ponto a que já tinham chegado as coisas, para desde logo pedir a intervenção paterna, se as circunstâncias reclamassem esse extremo curso, ultima ratio dos pretendentes repelidos pela noiva.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.