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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

Nisto chegou o médico a quem tinha escrito imediatamente, e que depois de examinar o estado de Lúcia, declarou que não inspirava receio. Ela estava ameaçada de um aborto, resultado do choque violento que sofrera, quando conheceu que se achava grávida. O doutor, um dos mais hábeis parteiros da corte, procurou desvanecer os receios de Lúcia, assegurando-lhe que seu filho vivia, e nada ainda fazia recear pela sua vida. 

 

Apenas o médico saiu, ela olhou-me tristemente: 

 

— Era o primeiro! Mas o tato das entranhas maternas, sejam elas virgens ainda, não engana. Nosso filho, Paulo, o teu, porque ele era mais teu do que meu, já não existe. 

 

À noite declarou-se a febre; uma febre intensa que a fez delirar. Foi então que conheci quanto eu vivia no seu pensamento: ela não disse no delírio uma só palavra que não se referisse a mim e a alguma circunstância de nossa vida mútua, desde o primeiro dia em que nos encontramos. 

 

Pela manhã, depois de um sono curto e agitado, achei-a mais tranqüila: 

 

— Tu me prometes, Paulo, casar com Ana! 

 

— Não tratemos disso agora, minha amiga! Quando ficares boa, tudo o que tu quiseres eu farei para a tua felicidade. 

 

— Mas essa promessa me daria tanto agora! 

 

Escuta, Maria, esse casamento nos tornaria infelizes a ti, a tua irmã, e a mim que não poderia amá-la, mesmo por causa dessa semelhança! Tu viverias sempre entre mim e ela! 

 

— Pois bem, promete-me que se ela não for tua mulher, lhe servirás de pai. 

 

— Juro-te! 

 

Beijou-me as mãos: 

— Ela vai ter tanta necessidade de um pai! 

 

Os acessos de febre repetiram-se durante três dias, e sempre mais graves. Uma tarde em que o médico apresentou a Lúcia um remédio: 

 

— Para que é isso? perguntou ela com brandura. 

 

— Para aliviá-la do seu incômodo. Logo que lançar o aborto, ficará inteiramente boa. 

 

— Lançar!... Expelir meu filho de mim? 

 

E o copo que Lúcia sustentava na mão trêmula, impelido com violência, voou pelo aposento e espedaçou-se de encontro à parede. 

 

— Iremos juntos!... murmurou descaindo inerte sobre as almofadas do leito. Sua mãe lhe servirá de túmulo. 

 

De joelhos à cabeceira eu suplicava-lhe que bebesse o remédio que a devia salvar. 

 

— Queres acompanhar teu filho, Maria, e abandonar-me só neste mundo. Vive por mim! 

 

— Se eu pudesse viver, haveria forças que me separassem de ti? Haveria sacrifício que eu não fizesse para comprar mais alguns dias da minha felicidade? Mas Deus não quis. Sinto que a vida me foge! 

 

A instâncias minhas bebeu finalmente o remédio, que nenhum efeito produziu. A febre lavrava com intensidade; eu já não tinha esperanças. 

 

— O remédio de que eu preciso é o da religião. Quero confessar-me, Paulo. 

 

Lúcia tomou os sacramentos com uma resignação angélica; e abraçando a irmã, disse-lhe: 

 

— Perdes uma irmã, Ana; fica-te um pai. Ama-o por ele, por ti e por mim 

 

O dia se passou na cruel agonia que só compreendem aqueles que ajoelhados à borda de um leito viram finar-se gradualmente uma vida querida. 

 

Quebrado de fadiga e vencido por uma vigília de tantas noites, tinha insensivelmente adormecido, sentado como estava à beira da cama, com os lábios sobre a mão gelada de Lúcia e a testa apoiada no recosto do leito. O sono foi curto, povoado de sonhos horríveis; acordei sobressaltado e achei-me reclinado sobre o peito de Lúcia, que se sentara de encontro às almofadas para suster minha cabeça ao colo, como faria uma terna mãe com seu filho. 

 

Mesmo adormecido ela me sorria, me falava, e cobria-me de beijos: 

 

— Se soubesses que gozo supremo é para mim beijar-te neste momento! Agora que o corpo já está morto e a carne álgida, não sente nem a dor nem o prazer, é a minha alma só que te beija, que se une à tua e se desprende parcela por parcela para se embeber em teu seio. 

 

E seus lábios ávidos devoravam-me o rosto de carícias, bebendo o pranto que corria abundante de meus olhos: 

— Se alguma coisa me pudesse salvar ainda, seria esse bálsamo celeste, meu amigo! 

 

Eu soluçava como uma criança. 

 

— Beija-me também, Paulo. Beija-me como beijarás um dia tua noiva! Oh! agora posso te confessar sem receio. Nesta hora não se mente. Eu te amei desde o momento em que te vi! Eu te amei por séculos nestes poucos dias que passamos juntos na terra. Agora que a minha vida se conta por instantes, amo-te em cada momento por uma existência inteira. Amo-te ao mesmo tempo com todas as afeições que se pode ter neste mundo. Vou te amar enfim por toda a eternidade. 

 

A voz desfaleceu completamente, de extenuada que ela ficara por esse enérgico esforço. Eu chorava de bruços sobre o travesseiro, e as suas palavras suspiravam docemente em minha alma, como as dulias dos anjos devem ressoar aos espíritos celestes. 

 

— Nunca te disse que te amava, Paulo! 

 

— Mas eu sabia, e era feliz! 

 

(continua...)

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