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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Nem o mais leve favônio de esperança tinha conseguido um só de seus apaixonados. Mas o objeto do amor de tantos homens devia ser o despeito de dobrado número de senhoras.

Com efeito, elas haviam sido feridas em dois pontos por demais sensíveis. Aquele ardor, com que no sarau todos os cavalheiros procuravam dançar com Honorina; a deserção cruel, que cada bela senhora notou no círculo de seus adoradores; a multidão que cercou, acompanhou e incensou durante toda a noite a jovem romântica; aqueles cem olhos de elegantes mancebos, que estavam sempre embebidos no rosto dela; mil episódios, mil pequeninos incidentes, nenhum dos quais escapou, nem podia escapar, tudo pareceu dizer, tudo disse a Honorina — tu és a mais bela!

E no meio de cinqüenta moças dizer a uma — tu és a mais bela... tu és a rainha! é ferir, é torturar o amor-próprio de todas as outras; e o amor-próprio é o noli me tangere da mulher; é levantar aquela a um ponto, aonde não podem chegar as outras; mas para onde elas mandam por si o despeito.

E sobre esse golpe, que foi comum a todas, caiu um outro que feriu principalmente a uma.

Otávio, não podendo resistir à força dos encantos de Honorina, amou-a mais do que todos os seus competidores; amou-a ardente e loucamente; amou-a como nunca dantes tinha amado.

Lucrécia, a antiga dama dos pensamentos de Otávio, Lucrécia, hábil e perspicaz, compreendeu desde logo que seu amante faltava aos juramentos tantas vezes repetidos, que a traía enfim!

E Honorina era a causa, embora involuntária, desta traição!

Exasperada porque via acima de sua vaidade a cabeça angélica de uma moça encantadora; exasperada porque amava sempre e muito a Otávio, Lucrécia queria vingar-se; mas em todos os projetos de vingança, o meio... e a vítima era somente Honorina.

Desde o instante da cruel convicção de sua derrota, Lucrécia determinou colocar-se entre o perjuro e a rival; sabendo que Otávio, esquecido do passado e só cuidoso do seu recente afeto, se aproveitara do antigo conhecimento, que o podia aproximar de Hugo de Mendonça, o procurara e cercara de obséquios, e finalmente chegara até junto de Honorina, não hesitou: fez alugar uma casa em Niterói, e não longe da da sua rival correu a oferecer-lhe a sua amizade, eternizou nos lábios o seu belo sorrir, que tão bem condizia com a doçura de seus lindos olhos azuis; e, recebida com prazer pela incauta jovem, ela ficou lá pronta para opor-se como uma barreira ao homem que a tinha ofendido, e, a ser preciso, para sacrificar a beleza e inocência de Honorina nos altares da sua vaidade.

Otávio e Lucrécia personificavam os sentimentos que por Honorina nutriam os homens e senhoras.

Uma única diferença havia.

Otávio era o mais apaixonado e ardente dos pretendentes que Honorina tinha, contra a sua vontade, trazido do sarau.

Lucrécia a menos nobre de todas as senhoras, isto é, nenhuma das rivais de Honorina desceria até ao ponto a que é capaz de descer a viúva.

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Duas semanas são passadas depois do sarau de Tomásia.

São nove horas da noite. Brás-mimoso e Félix acham-se em casa de Venâncio; a conversação tinha naturalmente caído sobre Honorina.

— Nós já a vimos com mais vagar, disse Tomásia; há três dias que veio com seu pai cumprimentar-nos... ao menos política sabem eles...

— Política sabem eles, repetiu Venâncio.

— Quanto ao mais, outra vez digo, não é lá essas coisas, disse Rosa.

— Deixa-te disso, mana, acudiu Manduca... foi a moça mais bonita que cá veio...

— Ora... vocês todos são assim; se amanhã chegar alguma outra mocinha... adeus, Sr.ª D.

Honorina!...

— Não eu, que me acho apaixonado até aos olhos! exclamou Brás-mimoso.

— Também o Sr. Brás?... muito bem: falta um para duas dúzias; primo Félix talvez queira inteirar a conta.

— Não, prima Rosa, se eu quisesse amá-la não precisava de conselhos... mas confesso que, achando D. Honorina bonita, não sinto, contudo, grande abalo por ela.

— Quem sabe, meu primo, talvez que você quando levantasse os olhos para olhá-la não a visse por estar alta demais...

— Pode ser, prima; mas falando assim, você faz de antemão muito baixa idéia de outra mulher.

— Como?...

— Porque deve acreditar baixa demais a mulher a quem eu ousar oferecer o meu amor. O rosto de Rosa se tornou da cor do seu nome; pois que acabava de ser cruelmente ferida com suas próprias armas.

— Lá pela conta dos vinte e quatro não haja arrufos, disse Brás-mimoso, eu posso apresentar um nome que talvez não esteja na relação.

— Vamos a ele, disse Tomásia.

— O Sr. Otávio.

— Otávio! exclamou dando uma risada Tomásia; Sr. Brás, asseguro-lhe que está muito atrasado.

— Está muito atrasado, Sr. Brás! repetiu Venâncio rindo-se também com sua mulher.

— Mas explique-se Sr.ª D. Tomásia.

— Pois não sabe que ele é homem sobre quem não pode calcular nenhuma moça solteira?...

— Por quê?...

— Porque é parcela votada no orçamento da comadre Lucrécia.

(continua...)

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