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#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Pois bem, ou antes, pois mal, em cinco anos de casamento, Júlia tivera apenas cinco semanas de enlevadora e perfeita lua-de-mel e turbara-se e doera-se vendo que depois de um mês e poucos dias de exclusivo domínio de formosa noiva, as pacas e os veados eram rivais, que repetidas vezes lhe usurpavam por dias os zelosos cuidados e os afagos do esposo.

Este romance é cheio de lições morais, e a moralidade do seu principio é o seguinte:

Homem caçador, frenético tal qual o era Frederico, ou deve ser perpétuo celibatário, ou casando-se com senhora jovem, sensível, rica, ociosa, e está subentendido, vaidosa, cumprelhe renegar o culto da caça, e, não podendo fazê-lo, levar a esposa às corridas de pacas e veados, torná-la sua sécia, sua Diana caçadora, para não expô-la a ficar em solitário abandono doce objetivo de outro muito condenável, reprovado, mas indignamente observado gênero de caça.

E foi isto, foi o caso de - doce objetivo - o que veio atormentar Júlia por freqüentemente abandonada pelo marido caçador, sendo ela tão jovem (casara-se aos 18 anos de idade), tão linda e tão vaidosa, tão sensível, tão rica e ociosa.

As ausências de Frederico, que no primeiro e segundo ano de casamento limitavam-se a três ou quatro dias, estenderam-se depois a seis e oito.

Nos três primeiros anos, Júlia escrupulosamente encerrada em sua casa esperava saudosa a volta do seu Nemrod, indicando o seu desgosto em aversão pronunciada na mesa do jantar aos pratos de pacas e de veados, mas no fim de três anos acabou por manifestar-se francamente aborrecida do isolamento a que se via condenada durante os dias de caçada de seu marido.

E Frederico respondeu à Júlia, abraçando-a:

- Tens mil vezes razão, meu querido anjo!... mas eu ainda não me lembrei de opor-me a que visitasses e recebesses as tuas amigas...

A jovem esposa que declara ao esposo que se aborrece muito de ficar só seis e oito dias enquanto ele a esquece, divertindo-se a caçar pacas e veados, evidentemente deixa ouvir séria prevenção, que apenas dissimula dilúvios de ameaças nestas duas não ditas, mas adivinhadas, palavras: - veja lá!

E o marido que, teimando em suas ausências por paixão de caçador, ou por alguma outra semelhante, responde à prevenção da esposa, dizendo-lhe: - visita as amigas e recebe suas visitas, isto é, faze por distrair-te, enquanto estou longe me distraindo, não diz, mas quase que está dizendo: - fecho os olhos pela confiança.

Mas a confiança de Frederico tinha o defeito de afigurar-se lisonjeiro pretexto para a continuação das suas caçadas, que deixavam a jovem, sensível, vaidosa, rica e ociosa esposa sem cultos de amor.

Júlia aceitou o conselho do marido, e na ausência dele procurou e recebeu a sociedade de suas amigas.

E um dia... o acaso...

Nestas histórias sempre aparece belo e tentador o demônio com o nome ou com a alcunha de acaso.

Um dia Júlia, indo ver uma de suas amigas, por acaso achou-a cercada de escolhida e elegante companhia, e por acaso também fazia parte da companhia um mancebo fatalmente chamado

Artur.

Nestas histórias, também é de regra que apareça sempre um Artur, cujo nome, Artur, é outra já cansada alcunha romanesco-sedutora que o diabo costuma tomar.

Artur aos trinta anos de idade estava no maior viço da beleza varonil, era de alta estatura, muito bem-feito, e vestia-se com o melhor gosto.

Ou seduzido pela beleza de Júlia, ou simulando-se nessa lisonjeadora situação, Artur imediatamente enamorou-se da jovem esposa do caçador ausente, ou antes namorou-a, e fezlhe a mais doce corte, zelando todavia respeitosa circunspeção, que ainda mais o recomendou.

Júlia mostrou-se tão sábia quanto pode sê-lo uma jovem desvanecida de seus encantos; não animou de modo algum a corte que lhe era feita, mas fingia não percebê-la para não ser obrigada a repulsá-la.

De volta a sua casa, e ao destoucar-se diante do espelho Júlia lembrou-se de Artur; no dia seguinte porém deixou de lembrá-lo, recebendo Frederico depois de oito dias de ausência.

Correu feliz um mês para a amorosa esposa, que aliás de todo indiferente viu por vezes Artur a admirá-la no teatro, no baile, ou em encontros casuais.

Mas passado o ditoso mês, Frederico partiu para a caça; Júlia foi distrair-se da solidão, visitando as amigas...

E Artur no caso!...

Resuma-se a história.

No fim de um ano tanto caçara pacas e veados o marido Nemrod e tanto se estremara sorrateiramente o hábil e artificioso Artur, que Júlia, jovem, sensível, vaidosa e sonhadora de ilusões na ociosidade apenas se mantinha recatada pela sua nobre virtude.

Mas no íntimo do coração a esposa do caçador incorrigível sentia-se docemente agradecida às finezas e ao amor do belo Artur.

Se Júlia não escondesse e abafasse tão cuidadosa essa espécie de gratidão, seria tal sentimento um começo pelo menos de amor platônico.

E o amor platônico é ainda outra alcunha que o diabo toma, quando quer empurrar para o abismo alguma triste vítima.

(continua...)

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