Por Adolfo Caminha (1893)
Seguiram para a Praça do Ferreira a tomar o bonde de Pelotas. Pouca gente na praça ensombrada por suas enormes mungubeiras. Dois sujeitos, sentados um defronte do outro, jogavam silenciosamente o dominó no Café Java. Às portas da Maison Moderne famílias esperavam os bondes em pé, silenciosas, com ar de infinito aborrecimento. Dentro jogava-se bilhar. Muitas pessoas rodeavam uma das mesas para ver jogar o presidente, que, em colete, escanchado num ângulo da mesa, calculava o efeito das bolas. Maria teve um estremecimento ao vê-lo. Certo o Zuza também andava por ali... Instintivamente procurou-o com o olhar, mas ninguém que se parecesse com o estudante. O José Pereira tomava cerveja a um canto mais o Castrinho.
Os bondes iam chegando uns atrás dos outros, enfileirados.
Antes de subir para o de Pelotas, Maria lançou um último olhar à sala dos bilhares. O José Pereira sem o Zuza! Era realmente assombroso!
Mas daí a pouco o bonde rodava outra vez caminho do Benfica, e invadiu-lhe o coração uma melancolia sem causa, uma tristeza vaga que lhe deu vontade de estar só, de voltar à casa.
Lídia veio receber a amiga de braços abertos, muito alegre, de branco, com papelotes no cabelo e sandálias de cetim. — Ora, até que enfim! Já não a esperava mais, Sra. D. Maria. Noiva de fidalgo... pudera!
— Não diga isso, minha negra, não vim há mais tempo porque tenho andado adoentada. Tu não imaginas...
Cobriram-se de beijos.
Lídia mandou-os entrar para a sala de visitas.
— Como vai D. Terezinha, Sr. João? perguntou maliciosamente escancarando as janelas.
— Bem, respondeu o amanuense num tom seco, pondo o chapéu sobre uma cadeira. E logo: — Homem, isto está que nem um paraíso!
— Qual paraíso! Está nos debicando?...
— Não senhora, longe de mim tal pensamento. O que digo é a verdade: O Loureiro preparou isto à fidalga!
E ia examinando, através dos detestáveis óculos escuros, os quadros, o papel da sala, o piano, os bibelôs, com uma curiosidade infantil, estendendo o olhar de vez em quando até o interior da casa disfarçadamente.
Maria tinha-se sentado no sofá e por sua vez confirmava a admiração do amanuense. — Sim senhora, tudo muito bem arranjadinho, muito chique...
— Vejam só, vejam só a graça! repetia a outra, sentando-se ao lado da amiga.
“E o Sr. Loureiro, como ia?” inquiriu Maria.
— Bem, menina, muito atarefado com o emprego. É uma vidinha cansada, esta de guarda-livros. O Loureiro, coitado, não tem sossego de espírito. Vive na loja e ainda por cima trabalha em casa. Um horror! Tu é que estás magrinha; estou te achando tão abatida, tão pálida...
— Saudades tuas...
— Saudades, eu sei de quem...
Riram.
— Agora é que reparo, continuou Lídia muito amável, tira o fichu e vamos ver a casa.
E levantando-se:
— Preciso conversar muito contigo. Já não te lembravas de mim, hein?... Sr. João tenha a bondade de esperar um pouquinho — o Loureiro não tarda: está às voltas com a papelada.
— Oh! minha senhora...
João da Mata deliciava-se a observar os quadros e as estatuetas de terracota, de mãos para trás, como se estivesse numa exposição. Depois chegou à janela por onde entrava um arzinho puro impregnado de essência de resedás. Defronte enchia a vista o verde sombrio duma esplêndida floresta de cajueiros onde oscilavam pequenos pontos amarelos e vermelhos quebrando a monotonia da paisagem larga e igual, batida de sol. O palacete azul do Loureiro perdia-se num fundo de verdura. À direita, lá longe, na esquina de um grande sítio, passava a linha de bonde. E que frescura! Dava vontade à gente pecar muitas vezes por dia, como Adão no Paraíso, ali, assim, naquele pedacinho do Ceará, sem seca e sem política, entretendo relações sentimentais com a natureza agreste e sincera.
— Bom para se copiar um balanço, isto aqui, costumava dizer o ingênuo guarda-livros.
João pôs-se a contemplar, com um enlevo nalma, toda essa poesia selvagem iluminada por um sol implacável. De súbito:
— Olá, seu Mata, como vai você? Que milagre foi este?
Era o guarda-livros, em chinelos, calça branca e paletó de seda amarelo. João voltou-se.
— Oh!... Estava admirando a grandeza do Criador... Você assim mesmo tem gosto, seu Loureiro, você é um danado, homem! Sim senhor, isto aqui é um maná! Faz vir água à boca...
— Escolhi este local por ser muito isolado da civilização. Detesto o ruído da cidade...
— Tens também a tua veia poética, hein?
— Qual veia poética! Isso de versos não é comigo. Tenho até horror à poesia.
O que eu quero é o sossego, o bem-estar, o conforto...
— Fazes muito bem, filho, não há nada como se viver no seu cantinho, com a sua mulher e os seus filhos, comendo com o suor de seu rosto. Eu, se pudesse, fazia o mesmo — desertaria da capital, do centro da civilização, para viver comodamente, bem longe de toda essa porcaria que se chama sociedade. Fazes muito bem. Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele.
— E você, como vai?
— Homem, assim mesmo: nem para diante nem para trás, remando contra a maré... Têm me aparecido umas dorzinhas do lado esquerdo... — Por que não usa você o vinho de caju?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.