Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Não sem relutância terríveis, sem desânimos profundos, sem hesitações repetidas se resolvera Macário a aceitar a cumplicidade que lhe oferecera padre Antônio de Morais na perigosa tentativa de converter gentios. O primeiro assombro passara, mas ficara o terror da sinistra solidão das florestas, do encontro com índios bravos, cujo primeiro ímpeto é distender o arco e fazer voar a flecha homicida, sem a cortesia de prevenir com uma saudação a vítima descuidada. O mato para o sacristão nada tinha de atraente, era próprio de feras. Como deserto preferia o das ruas alinhadas com renques de casinhas brancas, o das praças vastas, onde pastam vacas de leite e mansos bois de carro, únicas feras de que se não arreceava: como índios contentava-se com os prudentes tapuios de camisa de riscado e calças de algodão, que remam silenciosamente à proa das montarias de pesca, e com as caboclas de saias de chita verde dançando o sairé à porta das igrejinhas sertanejas. À poesia da floresta preferia a placidez da vila, aos encantos da liberdade selvagem a prosa pacata à porta do coletor ou ao balcão do Costa e Silva, entre um golezinho de café perfumado e quente e um cigarro de Borba, maior e mais gostoso do que um charuto baiano, desses que o Dr. Natividade afetava, às tardes, em passeio pelas ruas da vila. Deixassem-no ficar onde estava, sem glórias nem renomes, sendo útil a Deus no zelo dedicado ao serviço da paróquia, e estava muito satisfeito. Mas S. Rev.ma exigia, era forçoso obedecer-lhe. Persistir na recusa seria perder para sempre a amizade do senhor vigário, e com ela ia-se o lugar, a tanto custo conservado, de sacristão de Silves. Padre Antônio andava intratável, possuído da idéia fixa da missão ao porto dos Mundurucus. Outro dia, viera da floresta, com a cabeça exposta ao sol do meio-dia, tendo nos olhos um brilho desusado. Já não parecia o mesmo. Falava com intimativa, não admitia réplicas nem observações, sempre pensativo, taciturno, abrindo a boca só para dizer que seria obrigado a procurar outro companheiro que melhor e com maior dedicação o servisse. Ora Macário, por mais que parafusasse, não descobria em Silves e em toda a redondeza, ocupação melhor do que a de sacristão da Matriz, depois da chegada de padre Antônio de Morais. Bem vestido, bem nutrido, muito considerado, dormindo à farta, fazendo bons ganchos em missas de defunto, em batizados e enterros, sentiase melhor do que um cônego de prebenda inteira. Quem lhe restituiria todas as vantagens que a resistência à vontade do padre lhe faria perder? Longos anos de humilhação e sacrifício haviam-lhe enraizado no coração o amor do bem-estar que a sua situação representava, e agora que tão prontamente a ela se habituara é que a perderia? Já não lhe faltavam invejosos. O José do Lago sonhava com a substituição do Macário, o Valadão tinha um afilhado para empregar, se Macário insistisse em ficar, era certo perder para sempre o lugarzinho que tanto prezava, e adeus, então, sonhos de prosperidade e de ventura! Iria ser caixeiro do Costa e Silva ou do Mendes da Fonseca, varrer-lhes a loja, trazer-lhes o café, vender cachaça aos tapuios, aturar os desaforos dos fregueses, apanhar a sua descompostura de vez em quando sem dar um pio, ou então, iria fazer cigarros, única prenda que possuía, e se a indústria de cigarreiro de nada valesse, encheria de pernas as ruas de Silves, esfarrapado e faminto, sem consideração social. Nada! Não teria por vinte anos aturado as brutalidades de padre José, que Deus houvesse, não teria ouvido ásperas descomposturas - filho desta, filho daquela, ladrão, velhaco, não teria arrastado a sua humilhação pela vila durante a mocidade toda, por amor do emprego, para agora o deixar por si, só porque lhe falavam em uma missão à Mundurucânia. Lá que era difícil de roer a coisa, era, mas talvez que se estivesse assustando sem motivo. Era até muito provável que o senhor vigário não levasse a fim o seu absurdo projeto. A teima de padre Antônio não podia durar muito tempo. Aquilo passava. Era lá homem para sacrificar-se deveras, metendo-se entre índios bravos, a valer! A sua resolução era filha do despeito, logo que se avistasse cara a cara com as dificuldades de tão irrealizável empresa, recuaria, tão certo como três e dois serem cinco. Coisas de rapaz. Esta convicção grata e a confiança íntima e profunda na sua boa estrela, dando-lhe a certeza de que jamais se veria em conjuntura apertada de que não soubesse sair, decidiram Macário a mostrar boa cara à proposta do padre, muitas vezes e instantemente repetida.

Mas para ganhar tempo Macário, mostrando-se desejoso de o acompanhar, salientara as dificuldades e embaraços que se opunham a uma partida breve. Primeiro era preciso deixar a igreja entregue a uma pessoa de bastante zelo e probidade, e na opinião de Macário não havia naquela miserável vila um homem de quem se pudessem confiar as novas alfaias e os novos vasos sagrados, as riquezas da nave e da sacristia.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5253545556...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →