Por Domingos Olímpio (1903)
— Porque teve vergonha de se expor diante de tanta gente. Disse-me que estava alcançado o que desejava: a sua liberdade; nada mais tinha que fazer. Não pregou olhos a noite inteira, esperando que amanhecesse o dia de hoje. A tia Zefinha não cessava de agradecer a Deus. Se visse como a pobre alminha estava contente... Nem parecia a enferma que conhecemos, engelhada, encolhida, cortada de dores...
— Coitadinha! E... Luzia? Ainda está zangada comigo?
— Que zangada!... Aquilo foi um repiquete de ciúmes. Quis, à fina força, fingir de coração duro e forte, mas desenganou-se. Uma penca de corações não vale um grão de milho. Deu-lhe a paixão na fraqueza, e aquela criatura, forte como um boi, entrou a fazer coisas de criança: ficou logo meia lesa e capionga; deu-lhe para imaginar, olhando para o tempo e querendo sustentar capricho, mesmo depois de haver sabido, pela Quinotinha, do aleive da Gabrina.
— E... depois?
— Depois?... Entrou a repetir que nada tinha feito em seu favor, que a mim, somente a mim, se devia tudo, quando foi ela que me deu o dinheiro para a Rosa Veado rezar o respônsio.
— Que pretende ela fazer agora?
— Diz que espera poder ir, em breve, para as praias, logo que a mãe possa viajar.
— Sempre essa idéia.
— Teimosa é ela. Isso é verdade.
— Sabe, Teresinha? Ainda estou meio encandeado e parece um sonho estar livre daquele inferno. Toda essa gente a andar aqui pela rua, a me olhar espantada, causa-me tonturas. Como que me falta o chão debaixo dos pés.
— Isso passará...
— Tenho, aqui no nariz, o fedor da cadeia, a inhaca dos presos. Que horror! Cem anos que eu viva, nunca esquecerei esses dias de martírio.
Alexandre falava lentamente, falava fatigado, com profunda impressão de mágoa no rosto macilento, que a barba crescida e inculta tornava ainda mais triste. Queixou-se de dores ao lado direito, debaixo da costela mindinha, de falta de ar e de uma tosse seca que o acometia quando respirava, mesmo a curto fôlego.
— Aquela cadeia – dizia ele – matou-me. Nunca mais hei de ter saúde.
A Comissão de socorros o recebeu com demonstração de compassivo afeto, lamentando os vexames sofridos pela infame imputação. Foi-lhe pago o ordenado integral: e, como reparação, teve acesso para o posto de administrador dos depósitos de víveres, percebendo, além da ração, sessenta mil-réis em dinheiro, uma riqueza naqueles apertados tempos.
Teresinha comentava o fato, os males que vêm para bem, e, logo, achou muito justo esse procedimento da Comissão; e, todavia, observava que o dinheiro lhe não pagaria as ruínas da saúde, os incômodos e, mais que tudo, a vergonha de ser apontado como ladrão, como um infame que havia roubado o de-comer dos pobres famintos, para saciar vícios abjetos, tudo por causa de suspeitas que ela, mulher ignorante, mal sabendo ler por cima e assinar o nome, repelira desde o primeiro momento, porque o coração lhe dizia que ele não tinha cara de se sujar com o alheio. Admirava como os homens da justiça, que sabiam ler em grandes livros de letras embaraçadas, homens de óculos, que sabem tudo, não tinham logo percebido que o criminoso não era outro senão Crapiúna. Quantos inocentes não estariam pagando culpas alheias por causa da cegueira da justiça! Quantos não ficam livres de pena e culpa, apesar de autores de crimes escandalosos, perpetrados perante Deus e o mundo, à luz do dia, como aquele nefasto Bentinho que matara Berto, como quem mata um cão, e apenas ficou recolhido alguns dias à sala livre, por ser capitão e filho do maioral da terra!
E suspirou entristecida, sucumbida à dolorosa recordação do bárbaro amante, arrastado pelo cavalo desembestado, deixando nos tocos, pedras e cardos, farrapos sangrentos do corpo esfacelado.
Aglomeravam-se retirantes à porta do armazém para verem Alexandre, cujo prestígio de mártir aumentava com as novas atribuições de administrador. Uns, sinceramente, lamentavam o fato; outros o adulavam com fingidas lamúrias, para serem preferidos na distribuição de rações bem medidas, com lavagem, como eles diziam, porque outros empregados de coração duro mediam farinha e feijão sem caculo, rapando a boca do litro, poupando, como usurários, os dinheiros do Governo e o de-comer que a Rainha mandara dar de esmola aos pobres.
Alexandre procurou fugir à curiosidade da multidão, recolhendo-se ao fundo do armazém, onde ficou, apesar dos insistentes rogos de Teresinha para irem juntos à casa de Luzia, que estaria ansiosa por vê-lo; e, como ele recusasse obstinadamente, ela se despediu, enfadada, dizendo-lhe:
— Vou embora. Já que teima em não me acompanhar, irei sozinha. Direi a Luzia que você está doente e aparecerá amanhã. Não falte, não negue essa consolação àquela pobre criatura que, abaixo de Deus, só pensa em você, seu ingrato. Capricho não se fez só para mulheres.
— Pobre de mim.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.