Por Aluísio Azevedo (1881)
O Cordeiro cercava Amância, e Maria Bárbara de cuidados, cuja delicadeza procurava acentuar à forca de diminutivos:
— Uma coxinha de galinha, senhora D. Amancinha!...
— E um perfeito cavalheiro!... segredava esta à outra velha. Compare-o só com a peste do Casusa!...
— Não! que os rapazes de lá são mais aqueles... está provado!
— Têm outro assento que não têm os de cá!
— O senhor Serra, passa-me o pires das azeitonas?... E bondade.
— Quer mais pirão, D. Lindoca?
— Muito obrigada, assim! chega! Um tiquinho só!
— Gentes?... você come essa pimenta toda, D. Etelvina?!...
— Basta, oh! Não quero afogar-me em caldo!
— Tenha o obséquio de encolher as asas, meu amigo!
— Não enchas a boca desse modo!... dizia a velha Sarmento a uma das sobrinhas. Era o que tinha o Espigão! - comia como um danado, mas ninguém dava por isso!
— Olhe que você me suja de gordura, seu Casusa! Que diabo de homem!...
— Então! Quem mexe esta salada?!
— A salada, sentenciou judiciosamente o Freitas com um sorriso, deve ser mexida por um doido!
— Então, tome conta, seu Casusa!
— Quanto quer o menino pela graça?... Se tivesse um vintém aqui, dava-lho,
“seu poeta!”
Isto era entre o Casusa e o Faísca.
— Doutor, não deixe apagar a lanterna! recomendava Manuel a Raimundo.
— Uma fatia de porco, D. Maria Bárbara.
— Deite menos, minha vida! Assinzinho!
— Dona Etelvina! a senhora está magra de não comer!...
— Ai! suspirou ela fitando o talher cruzado sobre o prato.
— Não queres arroz, ó Sebastião?
— Não! Vou à farinha-d'água.
— Um brinde! gritou Casusa, levantando-se e suspendendo o copo à altura da cabeça. Ao belo madamismo maranhense, que hoje nos honra!
— Hup! Hup! bangüê!
— Aproveito a ocasião, meus senhores, para agradecer o obséquio que me fazem, e à minha sogra, comparecendo a esta nossa velha festa da família!
Era Manuel que falava. Seguiu-se um inferno de vivas e hurras que se prolongaram em medonha berraria. Os caixeiros do autor do brinde, já um pouco
eletrizados pelo vinho, gritaram familiarmente: “Viva o Manuel!” Houve uma voz indiscreta que gritou: - Manuel Pescada.
Mas restabeleceu-se a ordem, e só se ouvia, além do rumor dos talheres e dos queixos, a voz avinhada do Cordeiro, que gritava para a sua vizinha da direita com uma solicitude exagerada:
— Beba! beba, D. Amancinha! Ataque-lhe pra baixo, que é o que se leva desta vida!
E batia-lhe no ombro, revirando os olhos, em que o álcool pusera faiscas.
— Credo! O senhor quer m'embebedar?!...
E, como o Cordeiro insistisse em servi-la de Lisboa, Amância retirou o copo e o vinho derramou-se-lhe no prato, pela mesa e sobre as pernas.
— Ui! fez ela, arredando súbito a cadeira, e gritou: — Que selvageria, Virgem Santíssima!
— Farinha! Farinha seca, D. Amância! Farinha seca! receitavam de todos os lados.
O Cordeiro, já pronto, tomou a cuia da farinha e despejou-a em cheio sobre a pobre velha, que entrou a tossir muito sufocada. Foi um gargalhadão geral e prolongado.
— Cruzes! Valha-me Deus, com os diabos! berrou Amância, quando pôde falar, e a sacudir-se toda, muito enfarinhada Arre! Aqui mesmo não me sento mais!
— Vem cá, pro meu lado, perdição! dizia Casusa, convidando Amância entre o riso da mesa inteira
— Se a farinha e o antídoto cure-se agora com este! aconselhou Raimundo por pilhéria.
— Até você?! esbravejou Amância, cega de raiva. Ora mire-se! Quer um espelho?!...
— Preferia uma escova, minha senhora, para limpar-lhe a roupa
As gargalhadas repetiam-se já sem intervalo, contagiosamente, sem precisar de mais nada para as provocar.
— Vinho derramado — sinal de alegria! decidiu Freitas, preocupado a esbrugar uma canela de frango, sem querer lambuzar os bigodes.
Serviu-se a sobremesa e reformou-se a bebida. Veio Porto em cálice.
— Uma saúde! exigiu Cordeiro, mal podendo ter-se nas pernas.
Criou-se logo silêncio, em que se destacavam estas frases:
— Mau!... Temos carraspana?...
— Cabeça fraca de rapaz!...
— Esse bruto a teima em beber! Forte birra!
— Diabo do homem não pode ir a parte alguma!
— Vai já tudo isto raso!
— Pscio... pscio!...
— Meus senhores... e minhas senhoras, de ambos os sexos! Eu vou beber à saúde do melhor... sim! do melhor por que não?! do melhor patrão que todos nós temos tido, aquele que está me olhando, o Manuel Pescada!
Houve um sussurro de repreensão.
— Ou da Silva! emendou o orador. É um homem sem aquelas! E um mel!...
para um serviço... quer dizer, quando a gente precisa dele pode falar, que é o mesmo! Mas...
O sussurro aumentou.
— Cale-se! dizia baixo o Vila Rica, a puxar o paletó do Cordeiro. Cale-se com os diabos! Você está servindo de bobo!
— Mas! berrou o espingardeira, sem fazer caso das advertências do colega, o que eu não posso admitir, é a porção de picardias e desaforos, que ele me está a fazer constantemente!...
O sussurro transformou-se em um coro de protestos, que apagava os berros do orador; as mocas atiravam-lhe bolas de miolo de pão; Manuelzinho, muito vermelho, possuía-se de uma hilaridade excepcional; Vila Rica puxava com ambas as mãos o paletó do Cordeiro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.