Por Aluísio Azevedo (1895)
Mas agora consegui dele prometer-me que te havia de procurar e que te daria 50$ por mês; não é muito, bem sei, mas com esse pouco e alguma boa vontade poderás continuar os estudos, que muito lamento haveres interrompido
Acredita, meu filho, que, se a coisa dependesse só de mim, não chegaria a sofrer a menor privação; posto que nunca te lembres desta tua pobre tia, que muito te ama e quer. Adeus. Receba um abraço, dá lembranças ao Caetano e, quando puderes, vem fazer um passeio à fazenda.
O criado, que ouvira atentamente a leitura, chorava de alegria, quando o amo acabou a carta.
- Sim senhor! Gostei! exclamou ele - não esperava outra coisa de sinhá Gemi!
- E no entanto, respondeu Teobaldo, nada disto me adianta, pois já estive hoje com meu tio e recusei de antemão a mesada!
- Pois vossemecê recusa a mesada de sua tia?
Não é por ela, é por aquele malcriado do Hipólito.
- Vossemece faz mal.
- Embirro com ele. Acabou-se! E erguendo-se da mesa: - Mas que ainda fazes aí? Dá-me o café e vai onde mandei. Anda! - Então! Não te mexes? Caetano dirigiu-se para a porta, mas voltou hesitando - Então! fez Teobaldo.
- É que, se vossemecê permitisse.. . eu tenho aí algum dinheirinho, que...
- Não, não, obrigado, meu amigo, não te incomodes; desejo mesmo empenhar o relógio... Anda! Vai!
- Então faça ao menos uma coisa...: empenho-o em minhas mãos; sempre é mais seguro...
- Ah! Que és mais impertinente do que o próprio Samuel! disse o rapaz.
E o Caetano, aproveitando esse bom humor, correu ao seu quarto e voltou com uma pequena caixa de folha.
- Vossemecê tenha a bondade de servir-se...Teobaldo retirou duas notas de vinte mil réis.
- Estás satisfeito, usurário? Não sabia que era essa a tua vocação! - Agora, Vossemecê faz-me um favor...
- Ainda?
- É de guardar-me esses objetos; podem roubá-lo e...
- Mas, que diabo! eu não devo ficar com o dinheiro o com o penhor!
- Vossemecê pagará depois os juros...
- Também já entendes de juros, hein?...
- Oh! se entendo.. . Fosse vivo nho Miló, coitado! que ele lhe daria as contas que eu sabia fazer de cabeça?... Nunca me passaram a perna num vintém!
- Pois olha, se com todos fazias negócios desta ordem, podes limpar as mãos à parede! O velho, satisfeito com o que acabava de dar-se, prendeu por suas próprias mãos a corrente ao colete do amo, meteu-lhe o relógio na algibeira e afastou-se receoso de comove-lo com a sua presença.
Logo depois Teobaldo saiu e dirigiu-se diretamente para o colégio onde trabalhava o Coruja.
Encontrou-o ainda ocupado com a última aula e dispôs-se a esperar por ele.
- Tu por aqui? disse André, quando lhe apareceu no fim de meia hora.
- É verdade, procurei-te para te pedir um obséquio.
- Estou às tuas ordens.
- Quando fores para casa, se ainda encontrares lá aquele estafermo, despede-o por uma vez e dize-lhe que eu não voltarei enquanto me constar que ela não se foi embora.
- A Ernestina? mas sabes que ela está doente?
- Apenas constipada; não é motivo para não ir.
- Coitada. Ela parece gostar tanto de ti...
- De acordo, mas eu é que não tenho nada com isso. São muito engraçadas estas senhoras: entendem que um homem, pelo simples fato de que as agrada e lhes merece amor, deve ficar submisso às ordens delas.
- Mas...
- Imagina tu que vinte mulheres pensam do mesmo modo e ao mesmo tempo a meu respeito; algumas, pelo menos, ficarão fatalmente sacrificadas, porque a gente não pode dedicar-se a tantas... E note-se que nenhuma delas admite divisões de ternura; cada uma quer tudo para si e leva o egoísmo ao ponto de não consentir que o objeto do seu amor pense em outra pessoa que não seja ela! Ah! É uma bela coisa, não há dúvida!
- Escolhe uma entre todas e dedica-te só a essa. A Ernestina, por exemplo...
- Não, não quero Ernestina, como não quero nenhuma. Trata tu de despachá-la, que eu me encarrego das mais. Daqui, vou já principiar a cuidar disso; é preciso não perder tempo. Adeus.
Coruja quis ainda dete-lo:
- Olha, ouve!
- Nada! Faze-me o que te pedi e, se ela de todo não quiser sair, amanhã mesmo nos mudaremos. Adeus.
E ganhou a rua, tomando logo a direção da casa de Leonília.
Durante o caminho fez ainda várias considerações sobre aquela "terrível fatalidade" que lhe prendia aos calcanhares uma inevitável cauda de mulheres. Suplício estranho, contra o qual não havia remédio possível, a não ser que ele fugisse para um lugar onde só houvesse homens.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.