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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

No dia seguinte o comendador tratou de adquirir sege e alimárias próprias para os passeios campestres. Sairiam cedo de casa e, quando estivessem em pleno campo, entrariam a andar de pé por entre a vegetação. Olímpia não podia suportar o bonde e tomara medo de montar a cavalo desde que abriu a sofrer dos nervos.

Uma vez passeavam pelo Rio Comprido. O carro ficara com o cocheiro à espera no caminho da Tijuca. Olímpia pelo braço do pai, caminhava vagarosamente, entretida a olhar para os objetos que a cercavam. Em certa altura parou, impressionada por um canto monótono, que lhe chegava aos ouvidos de modo estranho.

— Que é isto?... perguntou ao comendador.

— Devem ser os trabalhadores de alguma pedreira por aqui perto. E assim que eles cantam quando brocam a pedra, para lhe introduzir a pólvora e lançar fogo depois.

— Ah! disse Olímpia muito interessada. E onde é a pedreira?...

— Não sei, mas é naturalmente para este lado. É daqui que vem o canto. E o velho apontou para a sua direita.

— Vamos lá! propôs Olímpia.

O pai não se animou a contrariá-la e os dois continuaram a caminhar na direção do canto dos trabalhadores.

Depois de andarem por algum tempo, acharam-se com efeito à fralda de uma grande pedreira, que fica situada aos fundos da Avenida Estrela.

Olímpia parou dominada pelo espetáculo grandioso que tinha defronte dos olhos. A montanha com o seu ventre já muito retalhado, surgia da terra, como um gigante de pedra, e arrojava-se, imponente para o céu. Via-se o âmago branco e azulado da rocha reverberar aos primeiros raios do sol. Embaixo amontoavam-se as enormes avalanches de granito, ruídas e arrojadas impetuosamente pela explosão da pólvora. De todos os lados, ouviam-se a trabalhar o picão e o macete; e além, sobre o calvo píncaro da montanha, quatro homens cantavam agarrados a um imenso furão de ferro com que penosamente abriam uma nova mina.

Todas as vezes que suspendiam a pesada barra de ferro, repetiam o seu coro monótono e triste, que ouvido de longe, parecia uma súplica religiosa.

Foram esses os sons que impressionaram Olímpia. E, com efeito, havia algum encanto melancólico naquela cansada cantilena dos trabalhadores.

— Vamos lá! disse ela ao pai.

— Onde, minha filha?... perguntou o velho assustado.

— Lá em cima, onde aqueles homens estão abrindo a pedra. Eu quero ir ver aquilo...

— Estás sonhando!... respondeu o comendador; não sou tão louco que consinta em semelhante imprudência! Esta pedreira é muito alta; tu sentirias vertigens e serias capaz de perder os sentidos!...

— Não faz mal; eu quero ir!

— Não! deixa-te disso!

— Ora, meu pai, não me contrarie por amor de Deus!

E Olímpia soltou-se-lhe do braço e foi perguntar ao trabalhador que ficava mais perto por onde se subia para a pedreira. Depois de informada, encaminhou-se para o lugar indicado.

— Espera aí! gritou o pobre velho, tentando alcançá-la. Espera, Olímpia! eu te acompanho, minha filha!

E correu para ela.

Olímpia havia já galgado o primeiro lance da pedreira.

A subida foi penosa. O caminho era estreito, irregular e seixoso, as vezes o pé não encontrava resistência, porque o cascalho rolava sob ele. Olímpia, sem querer dar parte de fraca, segurava arquejante ao braço do comendador, mas este mesmo sabe Deus com que esforços conseguia não perder o equilíbrio!

Pararam três vezes para descansar, à última nenhum dos dois podia articular palavra; o suor corria-lhes da fronte e as pernas tremiam-lhes convulsivamente. Mas Olímpia não desistiu do seu propósito; queria a todo transe chegar ao alto da montanha. Felizmente, o caminho em cima era plano até conduzir ao pequeno cômodo onde trabalhavam cantando os quatro homens.

Olímpia chegou aí exausta completamente de forças; sacudiu-lhe o corpo inteiro um arrepio, feito ao mesmo tempo de medo e de gosto; experimentava ela certa sensualidade em defrontar o abismo que se precipitava debaixo de seus pés. Precisava descansar, mas não tinha ânimo de desviar por um segundo a vista do belo panorama que se descortinava em torno. E, presa ao espaço pelos olhos, sentia-se arrebatar por um êxtase delicioso, como se estivesse desprendida da terra e pairasse volutuosamente nos ares.

Assim se quedou por alguns instantes, enquanto o pai ao seu lado descansava, sentado sobre uma pedra.

Depois, Olímpia começou a empalidecer gradualmente; foi pouco a pouco fechando os olhos, e teria caído de costas, se a não amparassem os homens que ali perto trabalhavam.

— Eu já previa isto mesmo, considerou o pai, ainda não restabelecido do cansaço. Lembrar-se de subir a estas alturas... E agora a volta?

— Pode vossemecê ficar tranqüilo, disse um dos britadores; eu me encarrego de descer esta senhora, sem que lhe aconteça a ela a menor lástima. — Ainda bem! respondeu o velho.

(continua...)

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