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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Bem podia ser que o demônio do homem entendesse deveras do riscado e viesse a prestar-lhe muito bons serviços!... Em tricas de política, pelo menos, ninguém lhe podia negar competência.

Borges ainda se lembrava perfeitamente das formidáveis discussões, em que o vira por inúmeras vezes empenhado com os grandes da matéria. — Ora, se assim era, valia a pena abrir mão de umas certas coisas e aceitar abertamente o auxílio que lhe oferecia o tipo!...

— O diabo seriam as despesas!

Borges já não era o mesmo algibeiras rotas em questões de dinheiro: depois das suas adversidades, ficara econômico e desconfiado. — Mas enfim! ora adeus!...

Quem precisa tem que puxar pela bolsa!

E resolveu agüentar a carga.

CAPÍTULO XIX

PETRÓPOLIS

Era ainda no tempo das pitorescas diligências, e Filomena, que nunca tinha ido a Petrópolis, ficou maravilhada com o passeio.

Principalmente a subida da serra, com a sua estrada muito branca, em ziguezague, que serpeia e se arrasta por sobre ela, à semelhança de uma cobra fantástica de marfim, causou-lhe arrebatamentos vertiginosos.

Vales e montanhas, píncaros e despenhadeiros, tudo surgia amplamente defronte de seus olhos, banhado de tons cerúleos, num multicor ideal, vaporoso e fugitivo. As roxas grimpas da serrania alcandoravam-se por entre flocos transparentes de neblina, que se iam rasgando as primeiras irradiações do sol, como trêmulas cambraias sopradas pelo vento.

E pouco a pouco descortinavam-se as planícies afogadas num oceano compacto de verdura, e logo depois enormes penhascos debruçados sobre elas, como gigantes adormecidos de pé, e lá em baixo, ao fundo, muito ao longe, acentuava-se a baía entre nuvens de cordilheiras, que se acumulavam a perder de vista, formando largos horizontes cor de pérola.

— Esplêndido! balbuciou Filomena , com a boca meio aberta, os olhos iluminados de inspirações, o seio ofegante, as narinas sôfregas e dilatadas. — Esplendido!

E com os olhos ia-se-lhe a alma por aquela imensidade deslumbrante, precipitando-se de plano em plano, derramando-se até ao fundo misterioso dos vales ou voando aos alcantis que se perdiam no céu.

Nada do que vira pelo mundo inteiro a comovera tanto, nada lhe afetara tão poderosamente a sua fina sensibilidade de artista; nada lhe penetrara tão fundo a alma apaixonada e contemplativa.

Entretanto, o Borges, defronte dela, assentado ao lado do Guterres, discutia com este os seus projetos políticos.

— Agora só o que me falta é a "idéia"! disse o barão ao ouvido do outro.

— Idéia? de quê? .. perguntou o Guterres, sem compreender. A idéia, homem, a Causa que eu tenha de abraçar, de defender! Sim! é preciso decidir-me por alguma!

O amigo olhou multo sério para ele:

— Tu ainda não tens partido?!

E depois de um gesto negativo do outro:

— Mas isso é ouro sobre azul! Não sabes a fortuna que possuís! O Imperador dá a vida pelos homens nessas condições!

— Achas, heim!...

— Tenho certeza! Mas, vem cá, o partido conservador é o único que te convém, é o único que te pode oferecer algumas vantagens! Homem, sempre é melhor estar com o poder... não acredites que os liberais levantem tão cedo a cabeça! E, se levantarem, melhor! porque nesse caso colocar-te-ás na oposição, ficas na brecha! terás a luta, terás a reação às tuas ordens! Só o que te falta é a prática, são as relações políticas. — Isso obterás rapidamente, juro-te eu, que conheço essa gente como a palma de minhas mãos!...

— Enfim, não te faltam os elementos! ... segredou depois uma pausa, piscando o olho e fazendo com os dedos sinal de dinheiro. — Não é tanto como supões! respondeu o Borges.

E, assim conversando, chegaram à estação do desembarque, onde, segundo o costume, havia já uma confusão de curiosos, e onde já estavam os empregados dos hotéis, que vinham com os seus carros à pesca de hóspedes.

De todos os grupos se exalava um cheiro penetrante de luxo e de riqueza.

Borges entregou a bagagem a um moço do hotel Bragança, deu-lhe o bilhete da carga que chegaria mais tarde, e, com a mulher e mais o Guterres, tomou o carro que lhe competia, e os três seguiram alegremente, devorados de apetite.

Petrópolis produziu no Borges uma impressão inteiramente contrária à que produziu em Filomena.

Para esta a transformada fazenda do Sr. D. Pedro II apareceu como um paraíso da elegância, colocado entre rochedos; adorável com as suas pequenas ruas encentradas pelo rio e contornadas de arvoredos, formando, vistas a certa distância, belos canteiros de verdura, onde a magnólia, a camélia, o cravo, a açucena e a rosa disputam a primazia em número e beleza.

(continua...)

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