Por Aluísio Azevedo (1884)
E, avançando para o marido de olhos arregalados e um punho no ar:
— Mas, podes perder as esperanças, que eu não morro antes de ti, Mané Bocó! Primeiro hás de ir tu, entendeste?! — Ah! Supunhas que eu levaria a roer uma vida de chifre e depois rebentava pra aí, enquanto ficavas por cá a te lamberes de contente! — Um sebo! Hei de ir, sim, mas depois de te haver feito amargar também um bocado, meu burro velho!
— Ó mulher! cala essa boca do diabo! Gritou, afinal, o Mendes, arrojando a pena e empurrando os papéis que tinha defronte de si. — Arre! Ë muito! Arre!
O moço do n.° 7 expectorou com mais força e pôs-se a gemer.
Ora, com um milhão de demônios! Gritou o guarda-livros, morava no n.° 6 — Não é possível sossegar neste inferno! Quando não é a tosse e o gemido da direita, é a rezinga e a briga da esquerda! Apre! Antes morar num hospital de doidos!
Mendes levantou-se ,segurando a cabeça com uma das mãos, e começou a passear agitado pelo quarto .
Catarina continuava a serrazinar, atirando com os pés o que topava no meio das casa. O marido parou de súbito, sacudiu a cabeça, depois foi-se chegando para a mulher e correu-lhe a mão pela espádua nua e lustrosa, timidamente, como se afagasse anca de uma égua bravia
— Então, filha?...disse com ternura. — Vai deitar, vai!...Estamos aqui a incomodar os outros... Anda, vai!
— Os incomodados são os que se mudam! gritou ela.
— E é o que vou tratar de fazer amanhã mesmo! Berrou o guarda-livros. — Estou farto! Quem trabalha durante o dia, precisa da noite para descansar! Arre!
— Não faça caso, senhor!...Disse o Mendes, e encaminhou-se para a porta.
Amâncio, assim que o sentiu aproximar-se, fugiu pé ante pé, com ligeireza.
Nesse momento, o Campelo, o tal esquisitão do n.° 4, que até aí não dera sinal de si, levantou-se tranqüilamente, tomou o seu clarinete, e começou por acinte, a tirar do instrumento as notas mais estranhas e atormentadoras que se podem imaginar. O guarda-livros respondeu-lhe batendo com a bengala nas paredes de tabique e berrando, como um doido, o Zé Pereira.
— Ai, meu Deus!, ai, meu Deus!, continuava a gemer arrastadamente o pobre sujeito do n.° 7.
Já pelas escadas, Amâncio ouviu as vozes do gentleman , do Melinho e de Lúcia, que acordaram espantados, e em gritos reclamavam contra semelhante abuso. No andar de baixo, o Piloto, o Dr. Tavares, o Fontes, e a mulher, abriam as portas dos competentes quartos, para indagar que diabo queria aquilo dizer. Só o dorminhoco do Pereira não se deu por achado.
Amâncio já estava enter os lençóis, quando o Coqueiro percorreu toda a casa, de robe-de-chambre e um castiçal na mão.
CAPÍTULO XI
O guarda-livros, no dia seguinte pela manhã, declarou a Mme. Brizard que se retirava da casa de pensão.
— Oh! Disse. — Não estava disposto a suportar por mais tempo aquele zungu! Os seus vizinhos eram uma gente impossível! — Não se passava uma noite em que não houvesse chinfrinada!...Não! definitivamente não podia ficar! De mais — O tísico do n.° 7 não lhe dava um momento de descanso com o diabo de uma tosse, que parecia aumentar todos os dias! Nada! Antes tomar um quarto no inferno!
Mme. Brizard e o marido procuravam dissuadi-lo de tal resolução. Não lhes convinha perder um hóspede tão bom.
O guarda-livros, com efeito, era muito pontual nos pagamentos e não incomodava pessoa alguma, porque só queria o quarto para dormir; verdade é que não fazia o gasto da comida, mas em compensação estava sempre a encomendar ceiatas e jantares que deixavam bem bom lucro.
A ter por conseguinte, de sair alguém, antes fosse o tal rabequista, o tal Paula Mendes, que, sobre possuir uma mulher insuportável, achava-se já atrasado nas suas contas, e os donos da casa não viam muito certo o recebimento.
Catarina, assim que soube de semelhantes considerações, desceu em três pulos ao primeiro andar e, atravessando-se defronte do Coqueiro, com as mãos nas ilhargas, gritou-lhe, refilando as presas:
— Repita você o que teve o atrevimento de dizer a meu respeito e a respeito de meu marido! Repita aí, se for capaz, que lhe mostro já para quanto presto, seu cara de fome!
João Coqueiro, muito pálido e com o lábio superior a tremer, exclamou que “sua casa não era Praia do Peixe”; que ele não estava habituado “àqueles banzés”! Quem quisesse dar escândalos que fosse lá para o meio da rua, que se fosse entender com as regateiras!
— Regateiras e regateiros são vocês, corja de gatunos! Replicou a outra.
Mme. Brizard, que por essa ocasião, ainda no quarto, enfiava as botinas, acudiu logo, um pé calçado e outro não, e, com tal fúria avançou contra a mulher do
Paula Mendes, que Amélia, o Coqueiro e Nini não a puderam conter As duas atracaram-se.
Os hóspedes, que estavam em casa, acudiram todos igualmente. Houve bordoada, gritos, palavrões. Nini teve um ataque de nervos.
O ilustre Lambertosa teve vários empurrões e caiu contra uma cesta de ovos, que o copeiro acabava de pousar no chão, para socorrer as senhoras
E, no meio de toda esta desordem, destacava-se a voz sibilante do advogado Tavares.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.