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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

— O gozo pelo gozo! Eis aí a nossa divisa! interveio um dos outros cavalheiros que ceavam.

E o terceiro acrescentou, emborcando o copo:

— Não conhecemos outra moral, nem outra filosofia!... O amor antes de tudo!...

— Perdão, objurgou Ângelo, tomando interesse na conversa; isso não e amor, e lascívia...

— Oh! replicou o que recebera a objeção. Nada de sentimentalismo!... Queremos as idéias etéreas vivamos pura e exclusivamente para os sentidos. Nada de amores platônicos ou exclusivistas! Nada de ciúmes e nada de egoísmos! Entre nós, as mulheres, seja qual for, é um instrumento de prazer, de que cada um se serve como melhor gosta e lhe apraz. Aqui, neste feliz recinto, as mulheres não têm dono; são como as flores do caminho: pertencem ao primeiro que se debruça sobre elas para lhes sorver o aroma...

E derreando-se entre as duas mulheres que estavam ao lado dele, passou-lhes o braço na cintura e perguntou-lhes, beijando-as, uma e depois outra:

— Não é verdade, encantadoras amigas, saborosas flores, cujo perfume nos embriaga de prazer? Não é verdade que não guardais egoisticamente, só para um homem, o vinho dos vossos lábios e os tesouros dos vossos corpos adoráveis?...

Uma das mulheres respondeu sorrindo:

— Somos altruístas... Com os encantos que possuímos, poderíamos, por interesse, dar a felicidade a um homem... preferimos dá-la a muitos. É mais generoso...

— Decerto! confirmou o cavalheiro que falara por último. A castidade não passa de uma torpe especulação! ...

— A mulher, reforçou o outro, só é verdadeiramente sublime, quando se dá a todos, sem preferência de nenhum...

— Não concordo convosco! declarou Alzira.

Ângelo sentiu-se irritado com aquelas idéias, e disse, erguendo-se:

— Degradante filosofia é a vossa, escravos da luxúria! Desvirtuastes o amor, prostituístes a mulher! Amaldiçoais assim a melhor obra de Deus!

— Ou do demônio... corrigiu com uma gargalhada um dos comensais.

— Não! teimou Ângelo. O demônio inventou o ódio e não o amor, descobriu a inveja e não a ambição, descobriu o desespero e não a felicidade, descobriu a luxúria, que é o desespero da carne, e não o amor, que é o orvalho da alma!

— Ou estás muito ébrio já, disse aquele; ou és um poeta!

— Não! sou um homem que ama, e nada mais, repontou o amante de Alzira.

— Eis um sonhador!... interveio outro com uma nova gargalhada. Um amante das estrelas!... Mau lugar escolheste tu para os teus idílios sentimentais!...

— Segue o teu caminho, visionário! aconselhou outro. A tua loucura faz-nos pensar, e nós não queremos dar-nos a esse trabalho... Vai-te embora! — Enxotam-me?! exclamou Ângelo.

E puxou um punhado de moedas de ouro, que atirou sobre a mesa, acrescentando:—Tenho o direito de cá estar! Pago os meus prazeres! E, se alguém há entre vós, que a isso se queira opor, fale, que imediatamente lhe taparei a boca.

Um dos convivas ergueu-se, encaminhou-se tranqüilo para ele e disse-lhe, com os olhos meio fechados pela embriaguez:

—Tens o direito de estar aqui, não há dúvida alguma... mas o que não tens, desgraçado, é o direito de incomodar-nos...

— Desgraçados sois vós, míseros sensualistas! replicou Ângelo.

— Deixa-me! tornou o outro desdenhosamente. A tua moral enjoa-me! Se quiseres seguir o nosso exemplo, aí tens o teu copo, é beber até caíres ébrio nos braços da mulher que te ficar mais perto; qualquer destas... Não temos ciúmes!... E se isso não te convém, toma então de novo a tua gôndola e segue adiante, que trazes ao teu lado uma mulher formosa e não prometemos respeitá-la mais que às outras.

— Ai daquele que lhe tocar com um dedo! exclamou Ângelo no auge de cólera.

Alzira interveio.

— Acalma-te disse ela, dando-lhe um beijo. A noite é curta, meu amor; não vale a pena perdê-la com outra cousa que não seja o prazer!

E, voltando-se para os que estavam à ceia:

— Encham-me a taça, amigos, que a noite ainda é melhor assim regada com o capitoso e dourado moscato italiano!

— Tens muito mais espírito que o teu sentimental amante!... observou rindo um dos convivas. E és formosa demais para pertencer a um só homem!

Ângelo deu um salto sobre o libertino que acabava de falar e, desembainhando a sua espada, exclamou, pondo-lhe a mão esquerda fechada em frente do rosto:

— Mais uma palavra e arranco-te a alma, miserável!

— Acalmem-se! suplicou Alzira, colocando-se entre eles. Acalmem-se por quem são! Bebamos e folguemos, antes que o sol venha de novo tirar-me a carne de cima dos ossos!...

— A beleza, disse o contendor de Ângelo, esvaziando ainda uma vez a sua taça espumante; a beleza é uma divindade! E uma divindade deve ser adorada por todos!

— Bravo! bravo! gritaram os que se tinham deixado ficar no chão. Adoremos a divindade da beleza!

— À Beleza! À Beleza!

E entre risos, as taças chocaram-se, tilintando.

— É demais! gritou Ângelo desprendendo-se dos braços de Alzira, e saltando em meio do banquete. E demais! Este miserável deve morrer!

A cortesã procurou detê-lo.

— Ângelo! Ângelo!

— Deixa-me! bradou este. Quero punir aquele; infame! quero esmagar aquele; estúpido libertino!

(continua...)

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