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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Ora! desdenhou Genoveva. Estou velha!

E mudando de tom:

— Amanhã é domingo, o senhor pode levantar­se mais tarde, e ninguém reparará nisso...

Alfredo concordou alegremente. Sentia­se reanimar por aquele velho vindo do Porto. Acudiam­lhe palavras de bom humor, brilhavam­lhe os olhos, o sangue despertava­se­lhe nos membros martirizados pela vida sedentária; tinha fogo na voz e, todas as vezes que se dirigia à companheira, chamava­lhe a atenção, passando­lhe os dedos pelo braço carnudo.

Genoveva não reparava que os pés de Alfredo estavam havia meia hora encostados aos dela, e que aquilo que a boa senhora tinha junto ao joelho, não era a perna da mesa, e sim a dele.

A garrafa ficou vazia. A viúva do comendador levantara­se para fazer a cama do hóspede na sala de visitas.

Alfredo, fora dos seus hábitos, fumou três charutos, e em pouco se recolhiam ambos, cada um para o seu lado.

Mas a cama do hóspede, apesar de desveladamente, preparada com alvos e sedutores lençóis de linho, amanheceu intacta.

E daí por diante, Alfredo ficou sendo para Genoveva o que Gabriel era já para filha desta.

XXII

TOCAM­SE OS EXTREMOS

— Vem sentar­te ao meu lado... Estás hoje tão esquiva...

— Ora!

— É a primeira vez depois da morte de teu pai, que te vejo de claro...

— Larguei hoje o luto.

— Mas parece que não estás de bom humor...

— É!

— O que tens?...

— Nada...

Queres passear? ir ao teatro? ao circo? fazer visitas? Onde queres ir? Fala!

— Não quero cousa alguma. Deixa­me

— Não te mereço esses modos!...

— Não faças caso!

Este diálogo era entre Gabriel e Ambrosina, por uma tarde de fins de novembro, fartos meses depois de unidos. Estavam assentados um defronte do outro. Ela a ver distraidamente um jornal de modas, ele a contemplá­la enamorado.

Gabriel, depois daquelas palavras, levantou­se, fumou um cigarro, e foi apoiar­se nas costas da cadeira da amante. Ambrosina continuou a ver os seus figurinos, indiferentemente.

Estava mais desenvolvida e talvez mais bela, toldava­lhe, porém, a fisionomia um frio ar de desdém e de tédio.

Gabriel tomou­lhe nas mãos a cabeça, e beijou­a nos olhos.

— O que tanto te mortifica, minha flor?... perguntou ele.

— Sei cá! Só sei que estou desiludida...

— Mas, desiludida por quê?

— Aborrecida!

— Já sei! Foi a visita de Gaspar que te irritou os nervos...

— Pelo menos, ela contribuiu muito para isso. Não sei por que, aborrece­me agora aquele sujeito ...

— Não tens razão... Gaspar trata­te bem... As duas únicas vezes em que ele veio cá, dispensou­te todas as atenções; não te disse uma só palavra desagradável, não te fez a mais ligeira recriminação, apesar de o haveres tu privado da minha companhia, que tem para ele grande valor....

— Não sei; ataca­me os nervos aquele ar de hipocrisia. Não posso suportar os seus modos pedantescos de mentor de chapéu alto!

— Tu exageras, coitado! O Gaspar é um excelente homem. Teve na mocidade uma boa dose de desgostos, que o fizeram triste para o resto da vida, mas é um coração de ouro.

— Todavia, nem sequer procura disfarçar a sua antipatia por mim...

— Coitado! ele é lá capaz de antipatizar contigo! Admira­me até dizeres isso, quando gostavas tanto dele durante a tua moléstia...

— Ele nesse tempo tratava­me de outro modo.

É que ainda não se habituou à idéia de que eu o deixasse totalmente, para dedicar­me de corpo e alma a ti, minha querida Ambrosina.

E Gabriel puxou para si a amante, e fê­la assentar­se nos seus joelhos.

— Pois se tens saudades, é voltar, disse ela.

— Deixa­te de tolices! Não vês que não posso mais viver sem ti?...

— O mesmo sucede comigo a teu respeito, e é justamente por isso que aborreço aquele homem. Tenho receio que ele acabe por arrebatar­te de meus braços!

— Que lembrança!

— Enfim, vejamos ainda uma vez; mas se o Médico Misterioso continuar a tratar­me como ultimamente, tu lhe pedirás de minha parte que me dispense a honra de suas visitas...

— Ambrosina!...

— É o que te digo!

— Estás muito nervosa...

— E o que há nisso de estranhar, sabendo­se a vida monótona que levo entre estas quatro paredes?...

— Mas, o que te falta? dize.

— Falta­me tudo, Gabriel! Sinto necessidade de gozar, de esquecer as contrariedades de minha vida!

— Queres viajar?

— Não.

— Então não sei o que te faça!...

E os dois calaram­se. Ambrosina, no fim de algum tempo, levantou­se.

— Vamos dar um baile? disse ela.

— Um baile? repetiu Gabriel, a olhar espantado para a amante.

— Sim, um baile. O que achas nisso de extraordinário?...

— Nada, mas a grande dificuldade está nos convidados. Quais seriam as damas do teu baile?

— Minhas amigas...

— Que amigas?

— As amigas que eu convidasse... Ora, essa!

— Não é tão fácil como julgas... Acho, por conseguinte, infeliz a idéia. Olha, se queres uma festa, dá antes um jantar, porque, nesse caso, farei também de parte alguns convites...

— Mas haverá música?

— Não sei para quê. Haverá, se fizeres gosto nisso...

— O Melo pode encarregar­se de preparar a casa. Ele é tão diligente... lembrou Ambrosina.

— Lá vens tu com o Melo!... Queres que te diga com franqueza? Vou aborrecendo aquele tipo...

— Por quê? coitado?

(continua...)

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