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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

- Se eu passei por todas elas, porque tive de ir a Jaboatão.

- Mas então porque é que duvida se somos pelos mascates ou pelos nobres? Inquiriu Felipe Bandeira.

- Porque duvido? Então os mascates também não tem tropas na vila? Eles não podiam mandar gente por mar do Recife para Itamaracá? Mas enfim, como vosmecês dizem que vêm por parte do governo, estou calado. Eu não duvido da palavra dos homens.

A esse tempo a tropa, que um instante estivera parada, seguia já o caminho de Goiana. Gil, Felipe Bandeira e os outros oficiais iam no couce. Francisco tinha metido o cavalo entre o de Felipe Bandeira e o de Gil.

XIX

Passado um momento, perguntou o ajudante-de-tenente ao matuto:

- Poderemos saber quem é você, camarada?

- Chamo-me Francisco dos Prazeres, e sou morador do engenho Bujari.

- A quem pertence esse engenho?

- A seu sargento-mór João da Cunha. - Sei quem é.

Havemos de passar por dentro mesmo do engenho. Vou deixar vosmecês em Goiana, e volto ao Cajueiro, onde tenho minha família. Há mais de mês não sei dela, nem nova, nem mandado. Quem sabe o que não terá acontecido à minha mulher e a meu filho durante a minha ausência? - Você vai encontrar todos em paz.

E se não encontrar, o Tunda-Cumbe é quem me há de pagar. Eu nunca matei ninguém. Trago uma faca de ponta aqui no cós para me defender. Mas se o diabo do pé-de-chumbo tiver feito alguma das suas a gente que me pertença, não pregarei olhos enquanto não lhe pregar primeiro a faca na barriga. Hei de tirar-lhe o couro como se faz aos bodes para secar e dele fazer suador do meu cavalo.

Quando chegaram ao engenho Itapirema, em cuja capela estivera oculto em outubro do ano anterior para escapar à prisão ordenada pelo governador Castro Caldas, o ouvidor de Olinda dr. José Inácio de Arouche, era quase noite. O rio tinha tomado muita água e estava de nado.

- Como há de ser isso agora? Perguntou Gil, pondo os olhos naquele mar d’água, que se estorcia por baixo de galerias de folhagens, estrepitoso e medonho. Para atravessarmos esta imensidade agora de noite, corremos o risco de perder algum companheiro. É entretanto necessário passarmos hoje mesmo da outra banda; porque, antes que a alva esclareça, devemos achar-nos na vila. Aliás poderemos chegar já fora de tempo. - Eu já sei porque é esta pressa toda, disse Francisco.

- Porque é?

- É porque em Goiana se receia que da Paraíba passe a gente prometida aos mascates pelo capitão-mór. Eu de tudo sei, seu comandante.

- Mas então vê lá se nos dás remédio a isto.

Porque não havemos de passar já? respondeu Francisco, saltando do cavalo à beira do rio, onde a tropa fora obrigada a fazer alto. Há aqui um ponto onde o Itapirema dá vão. Mas está tudo encoberto e não se pode saber onde fica a trilha.

Quase meia hora gastou ele em procurar, sempre debalde, a oculta passagem. Com água, ora pela cintura, ora pelos peitos, ora pela boca, percorreu uma extensão de cerca de vinte braças ao longo da margem. De uma vez caiu dentro de um poço, de que só se salvou por ser forte nadador.

Estava já quase de todo escuro quando, exausto do muito lutar com o impetuoso elemento, que puxava com extrema velocidade lhe pareceu ter dado com o vão desejado, que ele próprio já perdera a esperança de achar.

Veio à terra, muniu-se de um facão, e atirou-se novamente a nado para o meio do rio. Distante da margem cerca de seis braças, um mulunguzeiro, cujo tronco o ímpeto da corrente retorcera e cuja folhagem redemoinhava açoitada pelos novelões revoltos, foi o ponto negro para onde se dirigiu o matuto. Em torno da arvore desacompanhada as águas fremiam vertiginosas, acusando de baixo delas abismo insondável.

- Eh, meu negro! Exclamou Francisco, dirigindo-se ao rio. Estás assobiando e gemendo? Não vês aqui o teu amigo, famanaz do Cajueiro? deixa as tuas raivas para outros. Eu sou teu antigo conhecido. Faz-te de cera, coração. - Assim gracejando deixou-se o matuto levar pela força da corrente, e quando à claridade duvidosa do crepúsculo pareceu a todos os que da margem tinham os olhos postos nele, inevitável a sua perda, o matuto barafustou na folhagem retorcida e apagou-se um momento da vista dos presentes. Morreu!

- Afogou-se.

Tais foram as vozes que partiram de diferentes bocas.

Súbito ouviu-se bater o facão sobre os galhos superiores do mulunguzeiro. Ninguém viu mais Francisco, mas todos ouviram o rumor dos golpes da pesada arma, movida por sua mão possante contra o atleta vegetal que o Itapirema trabalhava por engolir. Não se demorou muito que os golpes cessaram e uma sombra negra, passando rápida, vertiginosa, como nuvem fatástica, aos olhos da tropa, sumiu-se no turbilhão. Era a ramagem do mulunguzeiro que fugia, deixando aparecer nua, escalavrada, acima da superfície do rio, a parte superior da árvore, e no cimo desta o destemido matuto.

(continua...)

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