Por Bernardo Guimarães (1872)
- Nada. . . O que somente me maravilha e não posso conceber é que o senhor, que ainda ontem era tão pobre como eu me vejo agora, pudesse de um dia para outro adquirir uma fortuna. . .
- Caiu-me do céu, senhor Major; posso assim dizer. E não foi para mim que o céu a enviou, foi para sua filha, que é um dos seus anjos, que o céu a enviou. Era para ela que eu há muitos anos, com esforços e diligências inauditas, a procurava. A caprichosa fortuna de um dia para outro o reduziu à pobreza, quis também de um momento para outro tornar-me rico. Foi uma compensação, senhor; e o céu quer que este pouco que agora a fortuna me concede seja consagrado a tirar da miséria a família a quem ela tão cruelmente despojou.
-senhor Elias, disse o Major comovido, desculpe-me. . . eu tenho sido vítima de tantas decepções, de tantas manifestações neste mundo. . .
- Compreendo, atalhou o moço, duvida ainda do que eu digo. tem muita razão, senhor Major. Quer uma prova, não é assim! Ei-la aqui.
Dizendo isto, Elias tirou do bolso um pequeno embrulho, e o entregou ao Major.
- Bem vê, acrescentou ele, que só o jogo, o testamento ou o garimpo nos podem tornar ricos de um dia para outro.
- São na verdade magníficos brilhantes, disse o Major depois de abrir o embrulho. Só aqui, há um valor de muito mais de vinte contos.
- E a lavra de onde saíram ainda não está esgotada, disse Elias.
- Já vejo que o céu os destinava um ao outro, e de maneira nenhuma me posso opor ao vosso casamento, visto que as coisas tocadas pela mão de Deus se encaminham de modo tão visível para esse fim. Não me é preciso perguntar a Lúcia se consente nesse casamento. Há muito sei de vossa mútua afeição, e que era a causa da repugnância de Lúcia em aceitar outros enlaces. O céu me é testemunha de que eu dentro d’alma, não desaprovava esse amor, e que sempre fiz justiça às suas qualidades e bons sentimentos, senhor Elias. Mas este mundo, esta sociedade tem tais exigências. . . eu também, eu que em minha vida singela e uniforme nunca sondei o oceano das paixões humanas, não podia conhecer todo o alcance de tal amor, e pensava, insensato que eu era! que contrariando os afetos de minha filha, procurava-lhe a verdadeira felicidade. Mas espero, meus filhos, que me perdoarão e não me quererão mal por isso.
- Esqueçamos o passado, senhor Major, esse passado, que para nós ambos tem sido bem triste e bem cheio de transes de amargura. Tinha um motivo justo de proceder assim, eu o reconheço; e tanto o reconheço que ainda hoje, ao levantar-me do leito onde passara a noite em lágrimas, torturado de angústias e o desalento n’alma, vendo-me pobre, sem futuro e sem esperança depois de mil vãs tentativas e desesperados esforços para adquirir algumas coisas, parti para aqui com a firme resolução de renunciar para sempre ao meu amor e a todas as minhas esperanças de felicidade, desligar-me de todos os juramentos e protestos que nos dias de esperança fizera à sua filha e com o meu exemplo e minhas palavras aconselha-la, alenta-la, para que se resolvesse a aceitar o esposo que podia ampara-la neste mundo, e esquecesse o desgraçado que não podia servir senão de estorvo à sua felicidade e à de sua família.
- Que belo e generoso procedimento! exclamou o Major, já sinto-me orgulhoso em o ter por genro.
Lúcia, sem dizer palavra, olhava fixamente para Elias com os olhos nadando em ternura e em arroubos de felicidade.
-mas o céu se condoeu de nós, continuou, e no curto caminho do Comércio de baixo para aqui, a fortuna por um modo extraordinário sorriu-me junto ao leito de morte de um pobre velho, e encontrei num momento e sem procurar aquilo que há tanto tempo procurava em vão com esforços inauditos. Esqueça-se do passado, senhor Major, e abençoe o nosso amor; eu também de tudo me esquecerei, e pode ficar certo que encontrará em mim um filho submisso e afetuoso, e suas filhas, uma um marido terno e extremoso, e outra um irmão dedicado.
O Major, comovido, no íntimo do coração pelo generoso procedimento e pelas nobres palavras do mancebo, lançou-se em seus braços.
-sejam felizes, exclamou com lágrimas nos olhos, sejam felizes, meus filhos! . . . o céu abençoe o vosso amor.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.