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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

De seu lado Fernando, ao ficar só, respirava, como um homem que repousa de uma tarefa laboriosa e fatigante. Ele desejaria sair daquele teto, perder de vista a casa, ir bem longe daí para gozar desses momentos de solidão e recuperar durante uma hora sua liberdade. Mas um passeio, e ainda mais solitário, não era conveniente no dia seguinte ao de um casamento de amor. 

O criado pediu licença para entrar. 

- O senhor precisa de mim? 

- Não, obrigado. A que horas janta-se? 

- Às cinco, se o senhor não der outra ordem. 

- Bem. 

- O senhor não sai a passeio depois de jantar? De carro ou a cavalo? 

- Não. 

- Sei que não é próprio logo nos primeiros dias do casamento, mas foram as ordens que recebi; que nada faltasse ao senhor. 

- Quem as deu? 

- A senhora. 

Este cuidado que em outra circunstância lhe causaria íntimo prazer, em sua posição humilhava-o. Sentia a influência da tutela que pesava sobre ele, e o reduzia à condição de um pupilo nupcial, senão coisa pior. Mas estava resignado às duras provações da situação, a que seu erro o submetera. 

Ainda nessa ocasião, Seixas revelou uma nova alteração em sua índole, ou pelo menos em seus hábitos. 

Ele tinha essa flor da ingênua elegância, que não se alimenta da vaidade de ser admirada, mas da satisfação íntima. Vestir-se era para ele outrora um prazer; o contato de um novo traje causava-lhe uma sensação deliciosa, como a de um banho frio em hora de calma. 

Nesse dia, porém, quando os guarda-roupas e cômodos regurgitavam, limitou-se ele apenas a reparar algum leve desarranjo; e dar ao traje da manhã uma feição de novidade pela mudança de uma gravata. Quando entrou na saleta de conversa, já ali estava D. 

Firmina, e Aurélia não se demorou. 

A moça trajava de verde. Ela tinha dessas audácias só permitidas às mulheres realmente belas, de afrontar a monotonia de uma cor. Seu lindo rosto, o colo harmonioso e os braços torneados, desabrochavam dessa folhagem de seda, como lírios d'água levemente rosados pelos rubores da manhã. 

Quando a porta abriu-se para dar-lhe passagem, Seixas cuidou que assistia à metamorfose da ninfa transformada em loto. Mas logo depois admirando a graça que se desprendia dessa peregrina gentileza como a irradiação de um astro, pareceu-lhe antes que a flor tomava as formas da mulher e animava-se ao sopro divino. D. Firmina trouxera da rua muitas novidades. 

Recomendações de umas amigas de Aurélia; mil inquirições de outras acerca do casamento; elogios dos noivos; e toda a outra bagagem de agradáveis banalidades, que na máxima parte compõem a vida nas grandes cidades. 

Com esta provisão encarregou-se ela de preencher a meia hora que faltava para o jantar. 

- É voz geral, que não se podia escolher um par mais perfeito, disse a viúva a modo de resumo. 

- Já vê que nos casamos por unânime aclamação dos povos, observou Aurélia sorrindo-se para o marido. Nada nos falta para sermos felizes. 

- Mais do que eu sou, não é possível, tornou Seixas.

- Esta primazia me pertence, e não lha cederei! 

D. Firmina aplaudiu essa contestação que revelava os extremos de amor dos noivos um pelo outro. 

O jantar correu como o almoço. Aurélia isenta do enleio, ou antes opressão, que a tolhia quando se achava só com o marido recobrava na presença de D. Firmina e dos criados, a sua feiticeira volubilidade, na qual um observador calmo notaria certa irritabilidade nervosa, habilmente encoberta com a galanteria do gesto e a graça do sorriso. 

Seixas não se demoveu da sobriedade que havia guardado pela manhã, senão para aceder aos desejos da mulher, a qual por mais de uma vez exerceu essa tirania feminina, que à semelhança de certas realezas, compraz-se com as minúcias. 

Ao levantarem-se da mesa, Fernando dirigiu-se à porta do jardim e esperava divagando os olhos pelo arvoredo, que dessem destino ao resto da tarde. Aurélia aproximou-se enquanto D. Firmina estava ocupada em arranjar a cauda de seu vestido nesgado, moda a que ainda se não pudera habituar. 

- Que bela tarde! Exclamou a moça ao lado do marido. 

Logo sombreando a voz disse-lhe quase ao ouvido, com tom rápido e incisivo: 

- Ofereça-me o braço! 

Depois prolongando a exclamação, continuou mostrando no horizonte uns arrebóis encantadores, em que os mais finos matizes se cambiavam sobre a nívea polpa de um grande cirro que de repente incendiou-se como um rosicler de fogo. 

- Veja; até o céu está festejando a nossa ventura. Quem já teve desses fogos de artifícios que o sol preparou para obserquiar-nos? 

- É pena que não possamos... que eu possa gozar da festa mais de perto, para melhor apreciá-la. 

Aurélia voltou-se rapidamente para fitar no semblante do marido um frio olhar de interrogação; mas Fernando contemplava as gradações da luz no ocaso, e só voltou-se para oferecer o braço à mulher, conforme a recomendação que recebera. 

Fê-lo porém, mais com o gesto, pois as palavras apenas murmuradas, mal se ouviram. 

Acenda seu charuto, disse a moça vendo que ele esquecia-se desse pormenor, apesar de lhe ter o criado oferecido fogo. 

(continua...)

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