Por José de Alencar (1872)
- Nem todos! constestou Ricardo.
- Sou advogado, pois, como serei deputado amanhã e mais tarde ministro e senador. Em toda a parte onde se reúnem i animali parlanti, por força que há de haver o deus e a besta. Ensinam as Santas Escrituras que o Criador formou o homem do lodo, amassando o barro e inspirando-lhe a centelha divina. Pois não é de admirar que em se chocando uns com outros, a lama de certas figuras se desmanche, e então que remédio têm os outros homens, senão patinarem nela, se querem passar adiante?
- Os ambiciosos vulgares, não duvido que tenham pressa de chegar e não escolham caminho, nem companheiros de jornada. Mas há quem se desvie com asco do charco, embora se resigne a não passar adiante.
- O senhor formou-se ultimamente? perguntou o Nogueira com um sorriso protetor.
- Há cinco anos.
- E é advogado também?
O protesto que em tom veemente acabava de fazer contra as doutrinas do Nogueira, não o pudera conter o jovem e brioso paulista. Mas, arrependido, prometeu-se não tomar ao sério as excentricidades do Dr. Nogueira, o qual sem dúvida sofria de um sestro, que ataca muito os homens vaidosos de seu talento, o sestro do paradoxo.
Assim como as damas, desvanecidas de sua formosura, inventam modas esquisitas e farfalhadas, penteados incríveis, anquinhas atentatórias da moral pública, escandalosos falbalás e cinturas extravagantes, assim os talentos fátuos se deleitam em provar absurdos.
- Aspiro a sê-lo; mas não como V. Ex.ª o entende, respondeu Ricardo com polida ironia à pergunta do Nogueira.
- Pensa então o senhor, que a ciência do mundo aprende-se nas escolas e academias? Se conheço hoje a nossa sociedade, não foi pelo que me ensinaram em Olinda, mas pelo que aprendi em um curso mais longo, em cerca de vinte anos de experiência. Na sua idade também tinha a cabeça cheia de utopias, e o coração abarrotado de ilusões. A advocacia representava para mim o sacerdócio da justiça, a nobre independência do talento. A imprensa, eu a considerava como uma realeza, e a mais legítima, porque tinha o seu trono na opinião.
- Mas isso não passava de uma abusão?
- Completa, meu colega. Quando tiver alguma prática do foro, há de reconhecer que são as boas causas as que mais freqüentemente se perdem. Quem sustenta um pleito justo, confia no direito; mas o seu adversário emprega todos os recursos: e ganha. Quanto à independência, não passa de uma burla; todos nós, que mais somos do que uma cadeia de fuzis? Cada um segura-se ao anel de cima, e por sua vez suspende o anel de baixo; e assim trabalha a corrente do guindaste.
- Não confunda V. Ex.ª a independência com a barbaria, ou ainda com a misantropia. A sua virtude consiste justamente em manter o caráter no meio das colisões e embates que o abalam. Aí está a dignidade do homem, lutar e vencer; isolar-se do mundo, parece mais covardia.
- Devaneios, replicou Nogueira com desdém. Isso que chama dignidade, meu colega, é nada menos que um crime e grave; vale tanto como uma insurreição, ou uma revolta. Todos a condenam; ninguém perdoa. Se o caluniarem, aparecerá um poder chamado moderador, que fará presente de sua honra ao pasquineiro; mas para o insulto que o senhor fizer a uma cidade corrompida, afrontando-a com os seus brios, para esse delito de lesa-sociedade não há graça; ao contrário, toda a severidade amassada nas altas regiões desfechará sobre o réu convicto do pundonor e integridade!
- Neste ponto não duvido que tenha razão. Como Circe que transformava os seus amantes em barrões, a política namora os mais belos talentos, e nada lhes recusa, contanto que fossem.
- Gosta da fábula? disse o candidato com um leve toque de pedantismo. Pois eu prefiro a história, a grande mestra. A política é em nosso país o mesmo que tem sido em toda a parte, uma cortesã. Quando recebe na alcova...
- No gineceu...
- Na alcova os Péricles e os Sócrates, torna-se Aspásia; mas, se entrega-se aos gladiadores e servos, cai em Messalina
. - Se V. Ex.ª permite uma observação...
- Sem dúvida.
- Não foi Péricles quem fez Aspásia; ao contrário, depois que morreu o grande Ateniense, ela casou-se com uma casta de barão daqueles tempos, um rico marchante, e conseguiu tirar desse lixo de ouro um grande orador.
O Nogueira, que não se deixava derrotar, ainda mesmo nos seus eclipses, acudiu pronto:
- Acredita nisso? É uma galantaria do historiador, se não foi do próprio Lisicles, que para lisonjear a mulher, atribuiulhe o que só devia a seus esforços.
- Acredito, sim; porque não o dizem somente as tradições de Atenas: é a história eterna da humanidade. Por toda a parte a mulher é a alma do homem.
Deixou o candidato cair a conversa um instante para repousar a palavra, e ao mesmo tempo imprimir outra direção ao diálogo.
XXI
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.