Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
A moça lembrou-se pela primeira vez de si própria, e sentiu então que sua cabeça ardia... que ela não estava boa... que ela estava talvez próxima a padecer também a mesma moléstia do moço loiro.
Semelhante idéia fez estremecer Honorina, e, pois, apertando a cabeça com as mãos, exclamou:
— Não! não! meu Deus!... isso não!
E cerrou as pálpebras para nada ver; e cobriu a cabeça para dormir.
Mas, apesar dela, a imagem do moço loiro vinha outra vez para diante de seu espírito, como uma doce harmonia, que se tem ouvido, que se deseja esquecer, e que se está repetindo no pensamento sem querer!...
Honorina ergueu-se espantada do que se passava nela, e, atirando-se fora do leito, exclamou de novo:
— Não!... não!... isso não, meu Deus!...
Lúcia, cuja câmara era imediata à de Honorina, e que ouviu a exclamação dela, temendo alguma novidade, veio ver a sua querida filha; mas ficou estática e silenciosa, observando-a da porta. Honorina desassossegada e aflita correu para a janela... abriu-a, levantou a vidraça para deixar entrar as auras da manhã, e... recuou surpreendida...
Na janela estava deposta uma sempre-viva, e por debaixo desta um papel com algumas linhas escritas.
Uma sempre-viva!... Honorina lembrou-se do sonho do moço loiro. Por conseqüência, a jovem adorada era ela!...
Depois de alguns momentos de hesitação, ela tirou o papel que estava por baixo da flor e leu: “Honorina!... se ela me for grata, guardará a flor; mas se me desprezar, deixá-la-á cair para o lado de fora... foi o meu sonho; ah! eu te amo! eu te amo com esse amor de poeta, com esse amor de fogo que ainda quando acaba na desgraça e na morte, contanto que seja sempre o mesmo amor, é por força bem belo!...”
— E, portanto, murmurou Honorina tremendo, mas levantando insensivelmente o papel até junto do coração, e, portanto, o moço loiro era ele!...
Depois, como cedendo a um impulso repentino, a moça lançou-se para a janela... ia atirar a flor para fora... mas, antes que sua mão tocasse nela, o zéfiro da manhã, que com doçura soprava, fez a sempre-viva rolar brandamente pela janela até tombar dentro do quarto.
Como levada pela força de um milagre, Honorina olhou sorrindo-se para a flor e disse:
— Oh!... ainda bem que não fui eu!... foi o teu sopro, meu Deus!...
E, sentando-se junto do toucador com a face pousada na mão, esteve em silêncio muito tempo com os olhos fitos na flor... depois soltou um suspiro e adormeceu.
Quando Lúcia viu que ela dormia, cerrou mansamente a porta e retirou-se, dizendo em voz baixa:
— Ela o ama.
XVI
Resultados do sarau
Portanto o sarau de Tomásia não tinha sido infecundo.
Nós vimos como uma moça, que para ele fora com o coração virgem de amor, voltara possuída de um sentimento novo para ela, e que talvez, a pesar seu, seja o próprio que não conhecia. E nós vamos ver, que outros corações há, nos quais essa noite deixou vestígios mais ou menos profundos e impressões duradouras.
Uma mulher, na primavera da sua vida, bela para conquistar os olhos, pálida e graciosa para inflamar o espírito dos que a vêem, havia aparecido nesse sarau e involuntariamente arrancado a palma da vitória aos mais encantadores e vaidosos semblantes: essa mulher, pois, devia ter dado origem a dois sentimentos opostos...
Era o que tinha realmente acontecido.
Simples, modesta e formosa, Honorina, deixando o sarau, arrastara após si, sem o querer, sem pensar em tal, vinte corações de mancebos; cercada de adorações, vitoriosa sempre, a mais requestada entre todas, seguiu-a, em compensação, a inveja de algumas, o ciúme de outras, e o desagrado da maior parte das moças.
Mas ou porque o amor, quando não correspondido, é (para alguns) como uma exalação etérea, que se esvai de súbito; ou porque o coração dos nossos mancebos seja para esse sentimento, como o espelho, que reflete a imagem de todos os semblantes, esquece desde o instante em que lhe fogem; ou porque, enfim, muitos sabem amar em triste silêncio, e fazer do próprio coração um túmulo para seu amor não aceito; alguns dos adoradores de Honorina não ousaram apresentar-se mais.
Muitos padecentes infelizes contentaram-se, porque mais não podiam, em ir todos os dias passar duas vezes junto ao gradil da bela casinha de Niterói, derretendo-se-lhe os olhos sobre o banco de relva, no qual tinham por acaso visto Honorina descansando um momento.
Outros, aproveitando-se da amizade que entretinham com o pai da moça, lá foram queimar suas almas no fogo dos olhos dela, e... puseram em tributo a paciência de Hugo, e da velha Ema, a quem pagavam horas inteiras de maçada com o oferecimento de pitadas de ótimo rapé.
E porque seja destino de toda a moça bonita contar sempre entre seus sérios apaixonados algum tolo ou impertinente, Honorina tinha tido a desgraça de agradar também a Brás-mimoso e a Manduca.
Mas essa moça, a quem já conhecemos tão ardente, tão entusiasta, e (digamos assim) tão nascida para amar, conservava-se no meio de tanto fogo, insensível e fria.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.