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#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

O Alcazar, o teatro dos trocadilhos obscenos, dos cancãs e das exibições de mulheres seminuas, corrompeu os costumes e atiçou a imoralidade.

O Alcazar determinou a decadência da arte dramática e a depravação do gosto.

O Alcazar francês propagou o seu veneno em Alcazares de maculada língua portuguesa, que se foram chamando - Jardim de Flora, Cassino (o antigo, pois que honra lhe seja feita, o artista Furtado Coelho no seu Cassino sabe resistir à peste) e outros malchamados teatros.

A minha censura não é tão cruel que negue perdão a empresários e artistas dramáticos (alguns de merecimento real) que se abatem e se amesquinham, servindo à depravação do gosto do público; eles são todos pobres, querem viver, querem pão, não podem prescindir do pão cotidiano, e já fazem muito, quando evitam as indecências da cena corrompida com o recurso de dramas fantásticos e mágicos.

A influência epidêmica, perniciosa, palustre do Alcazar foi tal, que o Rossi e o Salveni tiveram no Rio de Janeiro algumas noites quase sem público, e que para não lhe acontecer o mesmo, foram precisos a Ristori todo o prestigio de seu sexo e todo o opulentíssimo e inesgotável tesouro do seu gênio admirável e da sua profunda mestria artística.

João Caetano dos Santos, o inspirado, o sublime adivinhador dos segredos de arte de Rossi e de Salvini, João Caetano, verdadeiro gênio do teatro brasileiro e grande triunfador do nosso palco dramático, morreu felizmente a tempo para não morrer desesperado, em face das preferências dadas pelo público às obscenidades de trocadilhos, ao cancã e à seminudez das artistas arteiras do Alcazar.

E o satânico Alcazar, que debalde corrigiu depois em parte as exagerações do desenfreamento cênico, deixou-nos até hoje, e nem sei até quando, sem teatro dramático nacional, ao menos regular.

Talvez que alguns pensem que a lamentável falta de bom teatro dramático seja de pouca importância.

Positivamente assim não é.

No teatro pode-se tomar o pulso à civilização e à capacidade moral do povo de um país.

O teatro é coisa muito séria. É a mais extensa e concorrida escola pública da boa ou da má educação do povo.

E agora reparo que, discorrendo um pouco sobre o Alcazar, meti-me em assunto que é estranho à Rua do Ouvidor.

Hão de dizer que é penúria de matéria.

Enganam-se.

Se eu pudesse escrever tudo quanto sei da Rua do Ouvidor, encheria dois ou três volumes, e ainda me ficaria que dizer.

Vou dar uma prova:

Já declarei que o quarteirão por onde estou agora viajando com os meus leitores não me apresenta casas célebres no passado, nem tradições ou reminiscências curiosas.

Pois bem: acho excelente o lugar e o ensejo para contar uma história um pouco melindrosa, cujo desfecho se passou em uma casa de modista da Rua do Ouvidor.

O que porém não direi é o nome da modista, nem onde era a sua loja, e muito menos incorrerei na indiscrição de indicar o ano em que se deu o caso.

O melhor é que os meus companheiros de viagem façam de conta que lhes conto um romance, procurando diverti-los.

Seja um romance da Rua do Ouvidor criado pela minha imaginação, e por isso mesmo lá vai com tal qual forma de romance.

Júlia era ainda jovem e de muito delicada sensibilidade; havia cinco anos que se casara por amor, mas no fim de cinco semanas depois do casamento, Frederico, seu noivo, tornara ao culto freqüente da sua apaixonada distração do tempo de solteiro.

Frederico era doido pela caça, e por corridas de pacas na Serra da Tijuca, ou de veados ainda mais longe da cidade, às vezes deixava Júlia três, quatro e seis dias entregue às desilusões dos sonhos poéticos do passado, e exposta a novas ilusões de sonhos do presente e do futuro.

Pior ainda: Frederico e Júlia eram ricos, e Júlia não tinha ocupação em que empregasse o tempo.

Que rede de perigos para aquela esposa!...

Juventude, idade de flamas e de imaginação a desnortear a vida real;

Sensibilidade muito excitável, que é porta que se abre fácil às tentações do diabo; Ociosidade, menor ou maior série de zeros susceptíveis de se escreverem à direita da parcela do pecado;

Marido caçador apaixonado ausentando-se freqüentemente por dias da esposa deixada em solidão propícia aos sonhos da imaginação;

E além desse outro perigo, o ponto mais fraco da fortaleza da virtude feminil, que não indiquei em primeiro lugar porque estava subentendido - a vaidade feminil.

E Júlia era vaidosa, mesmo tão vaidosa como um homem, que elevado a barão ou a visconde do seu dinheiro toma balda e fumaças de fidalguia.

(Creio que chamei tola por vaidosa a Júlia do modo o mais cortês que me era possível).

A evitar e vencer esses perigos havia o encanto do amor; os dois esposos amavam-se com efeito ternamente, mas Júlia amava só - seu marido -, e Frederico adorava além de Júlia as pacas e os veados, o que desequilibrava um pouco as proporções do amor de uma e de outro.

Felizmente, além do amor, Júlia possuía o tesouro da virtude.

(continua...)

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