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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Ainda bem que eu perdi. Estou livre de qualquer suspeita injuriosa, e nunca mais em minha vida tornarei a jogar.

Mas o que em suma, e em caso algum admito é que os botes da calúnia cheguem até os anjos. Hermínia e sua irmã são duas flores, principalmente Hermínia e uma flor, um botão de rosa do paraíso.

XVII

Ontem achei a prima Anica pensativa e triste; à mesa do almoço olhava-me melancólica, e como que levemente ressentida do meu proceder; por duas vezes pareceram-me os seus olhos nadando em mal contidas lágrimas.

Sai de casa magoado, triste, e convencido de que eu era cruel, que não sabia apreciar o merecimento de Anica.

Compreendi que me era preciso consolá-la: é tão fácil consolar a pobre donzela que ama! Basta um sinal que dê testemunho de lembrança, uma flor que indique amoroso sentimento.

Eu tenho os meus direitos de primo e de convivência de família resolvi-me pois a levar nesse mesmo dia a Anica um mimo delicado e agradável à inocente vaidade de seu sexo.

Impelido por essa idéia dirigi-me à Rua do Ouvidor, e empreguei quatro horas nas casas de joalheiros e de modas a procurar debalde uma jóia ou um enfeite de bom gosto para levar de presente a minha querida prima.

Procurei debalde! Não que deixasse de encontrar algum objeto que me agradasse; mas porque todos quantos vi e examinei com a luneta mágica me agradaram tanto, me pareceram tão igualmente bonitos e mimosos que não me foi possível determinar a preferência.

Ninguém pode conceber que extravagante, pueril, ridícula, mas indeclinável e imperiosa luta se travou em meu espírito! A princípio cheguei a rir-me de mim mesmo, depois irritei-me e por fim desesperei! Se me decidia a comprar uma pulseira, a lembrança de uns brincos que antes examinara destruía-me a decisão; se um cinto com primorosa fivela estava quase a passar para as minhas mãos, a imagem de um faceiro relógio fazia recuar o cinto; entre uma linda caixinha guarda-jóias e um formoso álbum de retratos eu vacilava, como sobre tudo mais e nada decidia, e nada decidi! em uma palavra, quis e não pude preferir, quis e não pude comprar objeto algum! . . .

Senti-me ridículo, escravo inexplicável, inconcebível da irresolução mais insensata; a minha razão me aconselhava comprar qualquer daqueles objetos que me haviam parecido igualmente bonitos; mas que querem?... não sei explicar o fenômeno; mas foi-me impossível escolher um entre todos, porque a escolha dependia de preferência.

Reconheci então e pela primeira vez que eu era o ludibrio da visão do bem.

Voltei para casa aflito, e aborrecido de mim próprio; porque não pudera trazer um mimo para a prima Anica.

Recolhi-me ao meu quarto e refletindo sobre o que se passara comigo nos últimos dias, experimentei pungente dor; porque comecei a arrecear-me das conseqüências da visão do bem, e a nutrir algumas apreensões sobre o estado das minhas faculdades mentais.

Oh! não há sabedoria de homem que possa comparar-se com a sabedoria do armênio. O armênio me avisou e não mentiu.

A visão do bem pode fazer mal.

XVIII

Ainda um outro mês, e neste o mel mudado em fel, a alegria em tristeza, a bonança em tempestade.

A medida que os dias se iam passando, a visão do bem se tornava mais imponente, absoluta, e desastrada.

Ao levantar-me da cama de manhã, ou tendo a qualquer hora de vestir-me para sair, era-me indispensável deixar de lado a minha luneta; porque se com ela tentava escolher as vestes, achava todas preferíveis, e não sabia mais como vestir-me.

A mesa era-me preciso comer às cegas do que me quisessem servir; porque se com a luneta examinava as diversas iguarias, não sabia mais por qual delas começar, aceso em paixão gulosa por todas elas.

Nos saraus a que eu ia, ou não dançava, ou pedia os meus pares sem consciência, e expondo-me a ridículos pedidos, dirigindo-me às vezes a senhoras, cuja idade não autorizava mais a dança, e isso porque, se eu contemplava as jovens presentes ao baile com a minha luneta, por todas elas me enlevava e me perdia, e a nenhuma era-me possível dirigir-me em primeiro lagar.

É certo que durante três minutos a luneta mágica só me oferecia a visão das aparências, e que eu devera não ir além desse espaço que era sem perigo; desde que porém eu fixava a luneta, uma força sobrenatural, superior a minha vontade, mais forte que a minha reflexão e consciência a grudava, a prendia à órbita até que a visão do bem me transportava, tornando-me escravo da admiração por atributos e dotes sempre fascinadores.

Era o bem mais maléfico que se pode imaginar!

Ou porque o tormento que se está experimentando sempre se afigura mais cruel do que o tormento que já se experimentou e passou, ou porque realmente eu sofria mais do que havia sofrido, a visão do bem chegou a parecer-me pior, mais funesta, do que a visão do mal.

A visão do bem realizava em mim o martírio de Tântalo.

Eu vivia mergulhado no bem e não podia gozar, desfrutar o bem.

Eu estava com os olhos no céu e com o coração preso no inferno.

XIX

(continua...)

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