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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Pacificava-o a idéia de que remiria todas as culpas com o sacrifício da vida oferecida na resolução, já agora inabalável de missionar na Mundurucânia. Ali não teria catedrais góticas, nem capelas florentinas, nem lavores artísticos, nem luxos de púrpura e ouro, nem concertos divinais de vozes de sopranos, imitando os angélicos na harmonia grave dos órgãos, nem prodígios do engenho humano embelezando Deus. Mas também, em vez do mesquinho esforço duma religiosidade moribunda, teria, para adorar o Criador do universo, o templo vivo, a Igreja única e verdadeira, a imensa catedral da natureza. A floresta virgem era a basílica enorme que tivera por arquiteto Deus. Tudo mais, templos do Egito, panteões gregos, mesquitas maometanas, pagodes hindus, catedrais da Idade Média, igrejas da Renascença, lúgubres conventos espanhóis, obras do esforço genial dum homem ou lentas construções duma geração de operários, materiais acumulados por um povo no decorrer de séculos, não passavam de imitações mesquinhas, de paródias mais ou menos felizes da arquitetura grandiosa da floresta virgem. Aí, sobre o solo tapetado de rica folhagem, árvores gigantescas investiam para o céu, originais soberbos das pobres colunas egípcias, transformadas pela arte fina Grécia, apresentando todo o desenvolvimento do progresso artístico da Hélade, desde a coluna dórica nos robustos dendezeiros até a coluna coríntia nas elegantes palmeiras-reais. As palmas entrançadas com as folhas formavam a abóbada sombria, as cúpulas, os zimbórios, os tetos de várias formas, sobrepostos às arquivoltas e às arquitraves dos galhos e dos ramos. O canto dos pássaros, as vozes dos animais, o murmúrio dos regatos, o ciciar da brisa, os rumores confusos da mata entoavam o hino da criação num conjunto inimitável de harmonias divinas. só o canto do rouxinol amazonense, no ramo do ingazeiro, valia Stradella executando Palestrina. A luz cambiante do crepúsculo, coada pelas franças do arvoredo, refletindo-se nas águas transparentes de majestosos rios, não invejava o brilho das decorações de púrpura e ouro, sobressaindo iluminadas pelos grandes candelabros, pelos lustres, por centenares de velas de cera perfumada. Tudo ali era grande, majestoso, incomparável, obra direta dum ser onipotente. Um povo jovem, numeroso e livre, enchia a nave imensa esperando a palavra da catequese que lhe devia ensinar a adoração do soberano autor de tantas maravilhas, e ele, padre Antônio de Morais, o pontífice máximo na sublime selvageria da floresta virgem, seria grande também, intemerato e forte. Com a eloqüência da sua palavra, com a santidade da sua fé, seria o traço de relação entre o Criador e a criatura, Anjo do Senhor, baixando à terra para anunciar o Verbo, homem elevado acima da humanidade para prestar serviço a Deus...

(continua...)

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