Por Domingos Olímpio (1903)
— Senhor Alexandre – disse-lhe o Promotor, a voz sonora e grave – um conjunto, de indícios, de elementos de prova bem acentuados e persuasivos, determinou o vexame que sofreu. Ia sendo vítima de um desses erros que, infelizmente, não são raros na história dos tribunais e que, por lamentável lacuna, não encontram nas leis, meios completos de reparação. Órgão da justiça, lamento, sinceramente, fosse recolhido por infundadas suspeitas de tão grave imputação; teve, porém, a ventura de sair ileso dessa provação suportada com heroísmo. O verdadeiro criminoso está descoberto. Nada inipede, agora, que a justiça proclame a sua honra restaurada com a liberdade que, neste momento, lhe é concedida.
Perpassou pelo ambiente, um sussurro de aprovação unânime, porque, desmascarado o ardil do soldado, ninguém nutria dúvidas sobre a autoria do crime.
Não era possível que um moço bem procedido e de abonados precedentes fosse capaz de tão vil ação. Por outro lado, todos confessavam, então, justificados suspeitas contra Crapiúna, quando não fosse por qualquer motivo definido, nela má cara do homem, seus costumes dissolutos, ou por mero palpite. Não fora, entretanto, o feliz acaso de surpreender Teresinha o esconderijo do dinheiro, ou, como ela afirmava sinceramente, a intervenção do glorioso Santo Antônio, o inocente seria denunciado, processado e condenado. E toda aquela gente aprovaria, com igual entusiasmo, a justiça inexorável.
O Delegado, voltou-se para o Carcereiro e, indicando-lhe a Seridó e Gabrina, ordenou:
— Recolha aquelas mulheres.
— O quê?!... – exclamou a Seridó apavorada – Pois eu sou presa por falar a verdade? Que culpa tenho, seu Delegado, do malefício dos outros? Eu, que não matei, não roubei, que nunca fiz, mal a ninguém... que não tenho rabo de palha!...
Gabrina olhava em torno espantada, como se despertasse atordoada pelo nevoeiro de mau sonho. Estancaram-se-lhe as lágrimas e sucederam-lhes violentos soluços.
Quando o Carcereiro se aproximou, e a intimou com a frieza fulminante do ofício, dizendo: "Vamos", acometeu-a o terror da prisão. E enquanto a Seridó implorava piedade, justificando-se com protestos de inocência, lamentos e súplicas, ela, com desenvoltura de criança que se refugia no seio paterno, agarrou-se a Alexandre.
— Perdoe-me, seu Alexandre – suplicava, com gritos vibrantes – Não deixe que me levem presa! Que vergonha!... Não, não é possível!... Peça por mim; valhame pelo amor de Deus!... Ai!... ai!... que eu morro!... Quem me acode!... Minha gente, tenha pena de mim, de uma pobre filha sem mãe?... Ah! seu Alexandre da minha alma, pelo leite que mamou, peça por mim que lhe quero tanto bem... Valhame, valha-me por tudo quanto há de mais sagrado. Peço por alma de sua mãezinha, pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo... Sim, por tudo, pela luz dos seus olhos, pela vida de... de... Luzia!...
Esgotadas, nesse esforço sobre-humano, as derradeiras energias, a pobre inteirou-se; seus braços froixos penderam dos ombros de Alexandre; a cabeça, escondida nos cabelos desgrenhados, inclinou-se sobre o seio e ela caiu ernborcada, como um corpo desarticulado e morto, aos pés do moço, transido de espanto e piedade.
Acercaram-se da mísera algumas mulheres e a Seridó, que pedia um caneco d’água, um capucho de algodão queimado, e a esfregava, com força, sobre o peito. Alexandre dirigiu-se ao Promotor:
— Se lhe mereço alguma coisa, seu, doutô, tenha compaixão daquela pobre.
Ela não soube o que fez... É quase uma criança...
— Tem razão – observou o Promotor, convindo docemente – É possível evitar... Demais seria uma violência inútil.
CAPÍTULO XXII
Para se arrancar à comoção forte daquela cena que o amolecia, e apertava o seu tão chupado organismo, Alexandre deixou o salão das audiências, seguindo-o, de perto, Teresinha, muito zangada pelo ato de generosidade que ele praticara em favor de Gabrina.
— Com aquela carinha de enfinta, — murmurava ela – de alfenim, que com qualquer coisa se derrete, não me engano. É muito mazinha de bofes. Com aquela parte de gostar de você, não se lhe dava de ser causa do muito que penou na cadeia. O amor deu-lhe pra maldade. Era bem-feito que ela fosse gemer e chorar no xadrez para saber se é bom levantar falso testemunho aos outros. Não há nada melhor que a gente ser fingida: faz quanta perversidade há e no fim de contas, basta se derreter em choro e ter um vagado para ser perdoada. Eu, não me importa de dizerem que tenho más entranhas. Quem me fizer paga, tão certo como dois e dois serem quatro. E então a Chica Seridó? Como ficou piedosa e inocente, ela que é a alma danada de tudo... Aquilo tem mais artes e ronhas que diabos nas profundas do inferno... Fosse comigo, ficavam as duas ensinadas para toda a vida.
Alexandre não se justificou. Continuaram a caminhar: ele silencioso, ela resmoneando a censura. Quase ao pé do armazém da Comissão, ele perguntou, inesperadamente:
— E Luzia?
— Foi trabalhar – respondeu Teresinha, amuada.
— Por que não veio com você?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.