Por Aluísio Azevedo (1881)
— Vocês não tiraram a sorte esta noite? perguntou a última.
— Como não? disse a gorda, porém não vi nada, ou pelo menos não acertei com o que apareceu .
— Não, pois eu, declarou a viúva, tirei uma sorte bem bonita...
— Que foi? Que foi?
— Um véu branco e uma grinalda!
— Casamento! gritaram varias vozes.
— Eu tirei um “túmulo”!... disse do canto da mesa a Lagartixa, suspirando funebremente.
— Credo! exclamou Amância, passando com uma salada de agrião, que acabava de preparar.
Raimundo, assentado, contra a vontade, ao lado do Freitas, falava com saudade nos costumes portugueses nas noites de São João e São Pedro; contou como era que as raparigas queimavam alcachofras e plantavam-nas em vasos à janela, para ver com elas grelar a sorte; citou o costume das favas sobre o travesseiro, os bochechos de água à meia-noite para se ouvir nome do namorado, as fogueiras de alecrim seco, e enfim aquele uso do copo de água, de que as moças ali falavam.
— Um antigo uso! explicava o Freitas, a mastigar pedacinhos de pão. Consiste em deitar ao sereno, na noite de São João, um copo de água com a gema de um ovo...
— E a clara! reclamou D. Maria do Carmo, que acompanhava a conversa com muito interesse.
— Pois seja assim! a gema e a clara; e, no outro dia, pela manhã, dizem que a sorte do indivíduo aparece representada no interior do copo. Patacoadas!
— Patacoadas, não! retorquiu a velha, tomando lugar junto das sobrinhas. Cá está quem recebeu a noticia da morte do Espigão muito antes do dia fatal!
E levou o guardanapo aos olhos num movimento patético.
— Há outros usos, continuou Freitas, passando adiante um prato de sopa. O banho de São João, por exemplo!
— Imitações de Portugal...
— Quem não se banha amanhã de madrugada, fica com a alma suja! Dizem!
— Então seu Cordeiro! seu Dias! e você lá, menino! não tratam de se assentar? intimou Manuel.
—Nós esperamos a outra mesa... respondeu modestamente o Dias. Não há mais lugares...
— Qual outra mesa, o quê! Não, senhor! Sente-se cá, seu Dias!
E o negociante abriu um lugar ao lado da filha.
Luís Dias todo vexado foi assentar-se, sorrindo, ao lado de Ana Rosa, que fez logo um gesto de contrariedade e repugnância.
— E lá os senhores? seu Cordeiro! seu Vila Rica! e esse menino! Venham se chegando!
— Nós esperamos.. Faz-se depois outra mesa!...
— E a darem com a outra mesa! Não, senhor! e a senhora, minha sogra? D. Amância, onde ficam?
— Tem aqui um lugar, minha senhora!... disse Raimundo levantando-se. E ofereceu a cadeira.
— Meu amigo, censurou Manuel, deixe-se dessas coisas! Olhe que estamos no sítio! Isto cá não e cidade para se fazer cerimônias!
— Pagode de sitio não presta, quando nada falta!... arriscou o Serra, mexendo e soprando uma colherada de sopa.
— Não! contradisse o Freitas. Quero a minha comodidade até no inferno!
— Ora está tudo arranjado! gritou Amância, que acabava de preparar outra mesa. Ficamos nós aqui! Somos poucos, porém bons!...
— E eles lá?... interrogou Vila Rica, contando as pessoas da mesa grande, pela seguinte ordem, a partir da cabeceira: “O patrão — um, senhor cônego — dois, D. Maria do Carmo — três, sobrinhas — cinco, o Dr. Raimundo — seis, seu Freitas e a filha — oito, D. Eufrasinha - nove, seu Serra e aquele moço — era o Faisca — onze, o Dias e D. Anica — treze ao todo!
— Treze?! bradou D. Maria do Carmo, soprando o macarrão que tinha na boca. Treze!
— Treze! repetiram todas as senhoras, assustadas. — Saia um! reclamaram.
Ninguém se mexeu.
— Ou venha outro... lembrou o cônego, largando a colher. Em treze não pode ficar!
Suspendeu-se o jantar.
O Freitas passou logo a dar explicações a Raimundo do que aquilo queria dizer, posto haver este declarado de pronto que já sabia perfeitamente.
— Não há mais ninguém por ai?
Maria Bárbara levantou-se e foi buscar lá dentro uma negrinha de três anos.
— Aqui tem!
— E verdade! E o Casusa?!...
— É verdade, gente, seu Casusa!... — Venha o Casusa!
Casusa dormia. tinha tomado um banho e recolhera se cansado. A pequena foi novamente levada para a cozinha.
— Moleque! Chama seu Casusa ai no quarto!
O Casusa veio bocejando e esticando os braços.
— Para que jantar tão cedo?... Não tenho apetite algum!... resmungava ele, abrindo a boca.
— Cedo!... Se lhe parece!... Já deram cinco horas!
— Quase que ficavas a ver navios!... considerou Sebastião, rindo.
— Olha o prejuízo!... desdenhou Amância, com um esgar de pouco caso.
— Tu já queres intrigar comigo, coração?... Depois te queixa!... Mas, enfim onde me assento? O que não vejo é lugar! Ah, exclamou, voltando-se para a mesa pequena. Tenho-o cá, e em boa companhia!
— Pra lá, opôs-se Amância, escandalizada.
—Venha pra cá, homem de Deus! Você é cá necessário!
E com dificuldade arranjou-se uma cadeira ao lado de Sebastião.
— Ora até que afinal! disse Manuel, assentando-se descansadamente.
— Tollitur quaestio!
E o cônego sorveu uma colherada de sopa.
Fez-se silêncio por um instante; só se ouvia o arrastar das colheres no fundo do prato e os assovios dos que chuchurreavam o macarrão.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.