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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Sei, e posso afiançar, é que minha filha me fez inveja inda uma vez. Eu nunca senti, nem causei ciúmes em toda a minha existência; e isso faz muita falta na vida de uma mulher! A nossa felicidade não é como a do homem, compõe-se de um conjunto infinito de pequeninas alegrias e pequeninas mágoas. A vida de uma mulher feliz é complicadíssimo mosaico de lágrimas, beijos, suspiros e sorrisos; mas tudo isso ligeiro e passageiro, que não chegue nunca a prostrar pelo sofrimento, nem pelo gozo.

Eis o que me veio ao espírito, quando, já a bordo do paquete inglês que tinha de levar Leandro, vi saltarem dos olhos de Palmira as lágrimas que ela dava em sacrifício da conservação do seu amor conjugal.

Ah! tomara eu aquelas lágrimas, na minha mocidade! Quem me dera tê-las um dia chorado?...

Meu genro chorou também, e isso me comoveu, a despeito do modo frouxo por que ele, por mera formalidade, me abraçou em despedida. Antes assim, porém, do que ter abraços seus bem apertados e sinceros sabendo que os outros, dados à esposa, haviam de afrouxar em breve. Deplorável que és tu, meu pobre coração de mulher! nesse momento, em que meus olhos choravam tanto como os de Palmira, tive vontade de chamar para meu peito de mãe aquele criançola resmungão e aquietá-lo com carícias: No fim de contas, apesar de tudo, era ele, sem consciência disso, o meu associado na obra da felicidade de minha filha. E esta o amava tanto, que seria impossível deixar de amá-lo eu também. Contudo, Leandro me detestava, o ingrato!

E a dor forte daquela separação de minha filha e meu genro, lembrou-me outra separação também entre dois casados, quando meu marido se ausentou de mim por oito meses. Éramos ainda bem moços e também choramos no abraço da despedida, mas ai! as nossas lágrimas foram bem diferentes daquelas, e não rescendiam àquele triste e poético aroma de amor ainda cego!... foram lágrimas de dois bons amigos incompatibilizados pelo casamento! Meu marido antevia que a viagem, e depois o estádio num país estranho, seriam alegre e salutar variante na sua existência trabalhosa e monótona do Brasil; e eu por mim, confesso, não fazia o menor sacrifício com aquele apartamento de Virgílio. Já não nos amávamos sexualmente — eis a verdade!

Palmira, ah! essa ficou inconsolável... Voltamos tristes de bordo. Por longo tempo, da nossa lancha, agitamos os lenços no ar, em resposta a uma pequenina asa branca que palpitava, lá ao longe, no tombadilho do vapor.

Uma vez em terra, dentro do carro, mandei tocar com força para Laranjeiras, compreendendo que Palmira, no seu silêncio ameaçador, reprimia a explosão de soluços que ameaçavam sufocá-la.

E a tempestade desencadeou-se com efeito, mal me recolhi à casa com minha filha. Foi um longo transbordar de soluços, que lhe sacudiam nervosamente o corpo inteiro. Ela não quis almoçar, enfiou pelo quarto, arrojando o chapéu, as luvas, a sombrinha, e atirou-se em seguida à cama, com o rosto escondido nos braços e nos travesseiros, a chorar, a chorar, a chorar!

E eu vi tudo, sorrindo no íntimo ao contemplar satisfeita aquela cena transcendente. Deixei-a soluçar por longo tempo, assim estendida sobre a cama, bela naquele desespero de saudade Ah! — não se sustenta o amor sem o elemento dramático, e não há drama sem lágrimas!

Mas, pouco a pouco, o temporal foi serenando, descaindo em longos e espaçados suspiros de desabafo, e, quando à noite nos recolhemos ao mesmo aposento, Palmira tomou-se o rosto entre as mãos e, sem uma palavra, beijou-me as faces repetidas vezes, e pousou depois a sua cabeça no meu ombro, abraçando-me em silêncio.

Na oração que fizemos juntas antes de tomar o leito agradeci a Deus ter-me concedido a realização daquele milagre de amor conjugal, e pedi-lhe, do fundo da alma, que continuasse a proteger a poética felicidade daquelas duas pobres criaturas, que eu aninhava sob as asas da minha experiência de mulher e do meu amor de mãe.

CAPÍTULO XXI

No dia seguinte o assunto exclusivo da conversa de Palmira foi só o marido, mas nos subseqüentes, sem se esquecer dele por um instante, pensou também um pouco no filhinho esperado; até que, daí a algumas semanas, a sua preocupação se dividia por ambos em partes iguais. E o seu ventre foi tranqüilamente crescendo, e ela foi cada vez mais se fazendo mãe, no meio dos cuidados do enxoval, que a nós duas traziam ocupadas de manhã até à noite. O Dr. César, agora que supunha a irmã fora de perigo, aparecia-nos com mais freqüência e ficava às vezes palestrando conosco durante o serão, entre o jantar e o chá. A progressiva marcha da gravidez de minha filha era fiscalizada por ele com especial solicitude.

(continua...)

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