Por Aluísio Azevedo (1895)
- Perdão! replicou Teobaldo. - Eu escrevi à tia Gemi por ocasião da morte de meu pai e depois creio que mais duas vezes; segundo, porém, a única resposta que recebi, quis acreditar que tanto ela como o senhor estavam persuadidos de que eu lhes escrevia para obter dinheiro, e...
- Ah, sim! Sua tia chegou a falar-me em dar-lhe uma mesada, mas, se me não engano, você foi o próprio a rejeitá-la.
- Não me lembro disso, mas é natural que seja exato.
- Pois eu me lembro perfeitamente e afianço que é.
- Bom.
E Teobaldo declarou o número da casa em que morava e pô-la à disposição do tio.
- Passe bem! respondeu este.
E, quando o rapaz havia-se afastado:
- Um peralta que abandonou os estudos, que não arranjou meios de vida, um pobre diabo! ainda vem para aqui com soberbias... Bata a outra porta, se quiser: comigo não se arranjará! Ah! eu logo vi que semelhante educação havia de dar nisto mesmo!
Entretanto Teobaldo sofria e sofria muito. Só quem já atravessou uma boa quadra de necessidade, quando se tem o estômago mal confortado e o coração cheio de orgulho, poderá julgar do desgosto profundo e do tédio homicida que o acompanhavam.
Maldita educação! Maldito temperamento! Compreender o seu estado e não poder reagir contra ele; sentir escorregar-se para o abismo e não conseguir suster a queda; haverá maior desgraça e mais dolorosa tortura?
A surda aflição que lhe punha no espírito a sua falta de recursos, a força de reproduzir-se, havia já se convertido em estado patológico, numa espécie de enfermidade nervosa, que o trazia sempre desinquieto e lhe dera o hábito de levantar de vez em quando o canto do lábio superior com um certo trejeito de impaciência.
Orgulhoso como era, a ninguém, a nenhum amigo, exceção feita do Coruja, confessava as suas necessidades e este fato ainda mais as agravava.
E quando em tais ocasiões lhe pediam dinheiro emprestado? Oh! não se pode imaginar que suplício para Teobaldo!
Principiava por lhe faltar a coragem de confessar que não o tinha; e, se o do pedido insistia, começava ele a arranjar pretextos, a remanchear, a prometer para daí a pouco, a mentir, como um caloteiro que deseja engodar um credor impertinente.
E, se o sujeito não desistia, Teobaldo dizia-lhe que esperasse um instante e corria a empenhar o relógio, a arranjar dinheiro fosse lá como fosse, contanto que não tivesse de confessar a sua miséria a outro necessitado.
Estes sacrifícios eram tanto mais rigorosamente cumpridos, quanto menos seu amigo era o sujeito que lhe fazia o pedido; não representavam desejo de servir, mas pura e simples manifestação de vaidade.
Quando, porém, o pedinchão lhe era de todo desconhecido, Teobaldo preferia passar por mau e respondia-lhe com a lógica de um sovina, e aos mendigos negava a esmola rindo, fingindo não acreditar nas lágrimas de fome que muita vez lhes saltavam dos olhos.
XIV
Voltou a casa às horas de jantar, e mais aborrecido do que nunca. Para isto contribuía em grande parte a insociável catadura com que o tio recebeu.
Ao entrar na alcova soltou uma exclamação:
- Pois a senhora ainda está aí? perguntou ao dar com Ernestina estendida na cama. - Ora esta!
- Você é um malvado! respondeu ela com dificuldade, por causa de uma formidável rouquidão. Você é um judeu!
- Está incomodada?
A teimosa meneou a cabeça afirmativamente e explicou, mais por mímica do que por palavras, que aquela sua ida à janela a pusera naquele estado.
- Estou ardendo em febre, disse. - Seu amigo chamou um médico, foi buscar os remédios e deu-me um suadouro. Creio que vou transpirar. É preciso não abrir a janela.
- Pois eu hei de ficar fechado aqui com este calor? Ora, minha senhora!
E o pior, pensava ele, é que estou sem vintém.
Entretanto, desceu ao banheiro, lavou-se, mudou de roupa e, antes de assentar à mesa de jantar, chamou pelo Caetano e, entregando-lhe o seu relógio e a sua corrente, ordenou-lhe que levasse esses objetos a uma casa de penhores.
- Irei depois, objetou o criado: - por enquanto tenho de servir o jantar.
- E o Sabino?
- O Sabino desapareceu há três dias.
- Bem, nesse caso irás depois.
E mais baixo:
- A Ernestina almoçou?
- Bebeu um caldo. O médico recomendou que não lhe dessem nada de comer.
- Bom. Não te descuides dela.
- É verdade, acrescentou o criado, - aqui está urna carta de Minas para vossemecê.
- Por falar nisso: o Hipólito chegou; já sabias?
- Ainda não senhor. Vossemecê falou com ele? Como ficou sinhá Gemi?
- É dela justamente esta carta. Vejamos.
Querido sobrinho - Teu tio segue amanhã para aí, vai tratar da compra de um engenho e conta demorar-se um mês ou mais: desejaria eu que o 'procurasse logo que esta recebesses. Ele há de falar--te sobre um pedido que lhe fiz a teu respeito: é uma questão de mesada, visto que, segundo me consta, tens, aí, depois da morte de teu pai, lutado com grandes dificuldades. Eu, se há mais tempo não fui ao teu socorro, é porque teu tio está cada vez mais apertado em questões de dinheiro e não queria por coisa alguma entrar em acordo comigo
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.