Por Aluísio Azevedo (1882)
— Bem, considerou o comendador, procurando abrandá-la; não recebas o médico, mas isso não impede que fales ao Dr. Roberto. Sabes que ele é amigo velho da casa. Não seria bonito que...
— Ora, senhores! eu não estou para visitas!...
— Mas, minha filha, isto é uma questão de delicadeza!...
— Aí está porque desejo esconder-me em qualquer modesto retiro... É para não ser apoquentada constantemente por semelhantes importunos!... Sempre a delicadeza! sempre a cortesia! sempre as exigências sociais! Mas que diabo tenho eu com tudo isso?! Acaso peço à sociedade mais alguma coisa além de que me deixe em paz e não me aborreça?!
E depois de assentar-se a uma mesinha e apoiar a cabeça na mão esquerda, principiou a bater nervosamente com o pé no tapete.
— É muito boa! exclamou ela afinal, com a cara fechada. Não procuro ninguém não cultivo amizade de espécie alguma! por que então não me deixam ficar em paz?!
E voltando-se para o pai, disse resolutamente:
— Não apareço ao Dr. Roberto! Para o médico estou de perfeita saúde e não preciso dele; para o amigo da casa estou doente e não posso recebê-lo!
— Mas, minha filha, disse o comendador, beijando-a na cabeça; tu te precisas tratar... Não te quero ver assim frenética e aborrecida. Vamos, vem ver o Dr. Roberto...
— Tem muito gosto nisso? perguntou ela, passando o braço na cintura do pai.
— Se tenho, meu amor...
— Bom; então faça-o entrar...
O médico declarou que Olímpia precisava de um bom regime; que estava muito anêmica e muito debilitada. Falou da alimentação, lembrou os calcários, os ferruginosos, recomendou os banhos de mar, os passeios ao ar livre e as distrações do espírito.
— Exercício! bastante exercício! dizia ele; e de vez em quando um pouco de música, não da italiana, da alemã, da boa música alemã! Mas o que ele entendia mais conveniente era uma viagem à Europa. Olímpia precisava tomar interesse por qualquer coisa. Ela estava muito mais enferma do que supunha e tinha os nervos em petição de miséria!
E, quando ficou só com o velho, disse-lhe em voz baixa:
— Não é bom contrariá-la!... naquilo que o Sr. lhe puder fazer a vontade, faça! Se ela tiver algumas fantasias, alguns caprichozinhos, procure satisfazê-los! A contrariedade podia vir a prejudicá-la extraordinariamente e talvez ocasionar um desarranjo cerebral.
— Minha filha então está muito mal, doutor?! Fale com franqueza! disse o comendador em sobressalto, aparando com os olhos as palavras que caíam da boca do facultativo.
— Hum! Hum!... resmungou este, a bambolear a cabeça.
E depois de fitar por algum tempo as tábuas do teto, disse batendo com a biqueira do guarda-chuva na ponta da botina:
— Esta senhora precisava fazer as pazes com o marido! Isso é que seria o verdadeiro remédio...
— Acha, então, Dr.?...
— Indispensável!... disse o médico, dilatando a palavra e os olhos.
— E é justamente o que ela não quer! balbuciou o pai de Olímpia, com um ar triste. Inda ontem falaram-lhe nisso e ela teve um acesso nervoso...
— Sim, mas talvez venha a resolver-se!...
— Qual! tornou o velho; conheço aquele geniozinho: quando lhe dá a cabeça para um lado, não há quem a tire dai... Saiu nisso tal qual a mãe... Teimosas como só elas!
— Em todo o caso, acrescentou o médico, despedindo-se comendador, ela não perdia nada em fazer uma viagem... E, já ao sair, ainda repetiu da escada: Não se esqueça! Distrações, exercícios, boa alimentação e banhos de mar!
O velho voltou para o lado da filha, com a cabeça baixa e as mãos nas algibeiras do seu rodaque.
— Sabes? disse logo que chegou perto dela; vamos à Europa...
— Hem?! perguntou a rapariga, arregaçando os lábios e franzindo o belo narizinho.
— Sim... respondeu o pai; o Dr. Roberto acha que devemos fazer uma viagem...
— Ai está porque eu não queria visitas de médico! exclamou ela. Eu não saio do Rio de Janeiro! Logo vi que havia de aparecer alguma contrariedade!
— Bem, minha filha, não falemos mais nisso! Ele, coitado! se recomenda uma viagem, é porque acha naturalmente que isso te aproveitaria. Ora! também estás agora com umas esquisitices que...
— Que se não podem aturar! Não é isso o que o senhor quer dizer, meu pai?!
— Não senhora, não é isso! nem admito que estejas agora aqui a imaginar tolices. Não queres fazer a viagem, pois não a faremos!... E o mesmo sucederá com os banhos, com os passeios e com as distrações!...
No dia seguinte o comendador falou em três meses de Petrópolis. Estava aí o verão e não havia necessidade de suportar o calor da Corte.
— Não quero ir, respondeu laconicamente a filha.
E não se falou mais nisso.
Foram depois lembrados outros passeios, mas Olímpia recusou-os igualmente.
— Para onde então queres ir? perguntou o velho, lembrando-se da recomendação que lhe fizera o médico de a não contrariar.
— Não sei, disse ela sacudindo os ombros. Podemos passear todos os dias de manhã aqui mesmo pela Corte. Iremos hoje a um arrabalde, amanhã a outro... Quanto aos tais banhos, não! deixemo-nos de banhos de mar!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.