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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

E, desde essa visita, não lhe deixou mais a casa. Jantava lá quase todos os dias e à noite era infalível no teatro.

Borges apenas conseguiu suportá-lo, mas Filomena tinha-o em certa estima. Guterres não se cansava de elogiá-la; ao lado dela só falava nos sucessos extraordinários que a formosa bailarina obtinha todas as noites. E a vaidosa experimentava certo gostinho em sentir a seus pés aquele constante incensador, aquele louvaminheiro incansável, que a glorificava sempre no mesmo diapasão, como uma caixa de música que não precisasse de corda, mas que só tivesse uma peça.

Todavia, o Guterres, pronto sempre a obsequiar lá a seu modo, fazia-se muito solícito com o Borges, dava-lhe conselhos, mostrava-se interessado por ele. Passava os dias no teatro, querendo ajudá-lo em tudo e não fazendo coisa alguma; assentando-se familiarmente ao lado do bilheteiro, examinando a receita e a despesa, interrogando os trabalhadores, consultando os músicos, tomando contas às costureiras, repreendendo os que conversavam em voz alta nos ensaios, apaixonando-se nas discussões a respeito de Filomena ou do Borges, pedindo desculpas aos espectadores que porventura ficavam mal acomodados na platéia, e indo e vindo, da caixa para os corredores, a fiscalizar, a saber como corria o negócio.

Quem o visse ali, tão inquieto, tão empenhado, tão comprometido com aquele serviço, ficava supondo que o Guterres tinha parte na empresa.

Quando ele se referia ao Borges, dizia sempre: "O João, o nosso amigo João". Mas se estivesse presente algum estranho, acrescentava logo, com respeito, como para justificar aquela amizade: "O Barão de Itassú"!

Borges no fim de contas já não o achava tão ruim, e aos poucos o ia admitindo nos seus particulares. Um dia de mais expansão, chegou a falar-lhe muito em segredo, nos projetos políticos, que ultimamente o preocupavam.

— Não é coisa minha! disse, justificando-se. — São histórias lá de minha mulher! Deu-lhe p'r'aí. Acha que devo meter-me na política!...

O outro recebeu a notícia com um acolhimento cheio de assombro.

— E por que não?!

— Achas então que a coisa é exeqüível? perguntou o Borges.

— Mas certamente! Dessa massa é que eles se fazem! Nas condições em que estás e dispondo da influência de tua mulher, seria um crime até não cuidares do futuro! O]há...

E chegando-se misteriosamente ao ouvido do outro: — Eu estou aqui para te ajudar' Depressa!

Mas o Borges não podia descansar; as palavras do Guterres inspiravam-lhe muito pouca confiança, continuava a ver nele o mesmo preguiçoso vulgar, o mesmo "pobre diabo", o mesmo parasita incorrigível.

— Então é certo que vais para Petrópolis?... perguntou-lhe o amigo na véspera da viagem...

— É, respondeu o marido de Filomena; — sigo amanhã.

— Diabo, antes fosses mais tarde! não me convinha sair daqui sem acabar o mês...

— Mas que necessidade tens tu de sair?... ponderou o Borges, temendo que o outro lhe quisesse duplicar as despesas do passeio.

— Pois eu havia lá de consentir que partisses sem levar um amigo em tua companhia!...

— Não, não! não te incomodes por minha causa! apressou-se a dizer o Borges. Agradeço-te do fundo do coração a boa vontade; mas acredita que não há a menor necessidade de...

— Ora, deixa-te dessas coisas! Queres romper cedo comigo, João?... Bem sei que és escrupuloso, que tens receio de me importunares, aceitando estes pequenos obséquios; eu, porém, julgo-me no dever de cumpri-los, mesmo contra o que disseres.

— Mas, filho, dou-te a minha palavra de honra, que fico muito mais agradecido se não fores! oh!

— E eu dou-te também a minha palavra que, nem a tiro, conseguirás que eu mude de resolução!

— Nesse caso ê birra! exclamou o Borges, sem poder disfarçar a impaciência.

— Será o que tu quiseres! bradou o teimoso. — Mas eu considero do meu dever não te deixar ir só!

E com orgulho:

— Não! Que não sou desses amigos que só aparecem pelo bom tempo!... Não senhor!... Sei que vais doente, cansado, prostrado... sei que hás de precisar de um bom amigo ao pé de ti, que te dê coragem, que te anime! Sei que levas projetos de escrever artigos políticos, de lutar, de resistir, e sei que te faltarão as forças para tanto! E pensares que eu seria capaz de te deixar ir só. Oh! não te mereço semelhante injustiça! Eu supunha, João, que fizesses de mim um melhor juízo!...

— Ora essa!...

— Não! não! Seria cometer a mais revoltante indignidade, se eu não te acompanhasse!...

Borges ainda protestou, não, porém, com o mesmo ardor; as palavras do amigo a respeito dos tais projetos políticos o interessaram sobremaneira. O Guterres gozava de certa fama de homem fino, perspicaz e muito inteligente. Verdade é que seria difícil citar-lhe as obras; Borges não se lembrava de haver posto os olhos em alguma coisa escrita por ele; nunca lhe descobrira o menor trabalho de imprensa, mas, por várias vezes ouvira conversar a respeito do talento do Guterres: — "Se não fosse tão preguiçoso, diziam, seria a nossa primeira pena!".

(continua...)

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